· Cidade do Vaticano ·

O Pontífice recordou as 130 pessoas mortas no mar e convidou a rezar também por quantos podem ajudar mas preferem olhar para o outro lado

É o momento da vergonha

cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg
27 abril 2021

«Muito entristecido por causa da tragédia» no Mediterrâneo com «130 migrantes mortos no mar», o Papa Francisco falou de um «momento de vergonha», pedindo orações pelas vítimas mas também por aqueles que, mesmo podendo «ajudar, preferem olhar para o outro lado». A sua denúncia ecoou da janela do Estúdio particular do Palácio apostólico do Vaticano, no final do Regina caeli recitado com os fiéis presentes na praça de São Pedro ao meio-dia de 25 de abril. Anteriormente, o Sumo Pontífice comentou o Evangelho do domingo do bom Pastor.

Estimados irmãos e irmãs bom dia!

Neste 4º domingo de Páscoa, chamado Domingo do Bom Pastor, o Evangelho (Jo 10, 11-18) apresenta Jesus como o verdadeiro pastor, que defende, conhece e ama as suas ovelhas.

A Ele, Bom Pastor, contrapõe-se o “mercenário”, que não se preocupa com as ovelhas, porque elas não lhe pertencem. Faz este trabalho apenas pelo salário, e não se preocupa em defendê-las: quando o lobo vem, foge e abandona-as (cf. vv. 12-13). Jesus, ao contrário, verdadeiro pastor, defende-nos sempre, e salva-nos em muitas situações difíceis, situações perigosas, através da luz da sua palavra e da força da sua presença, que sempre experimentamos, se quisermos ouvir, todos os dias.

O segundo aspeto é que Jesus, bom pastor, conhece — o primeiro aspeto: defende, o segundo: conhece — as suas ovelhas e as ovelhas conhecem-no (v. 14). Como é bom e consolador saber que Jesus nos conhece um por um, que não somos anónimos para Ele, que o nosso nome é conhecido por Ele! Para Ele, não somos “massa”, “multidão”, não! Somos pessoas únicas, cada uma com a própria história [e Ele] conhece cada um de nós com a nossa história, cada um com o próprio valor, tanto como criatura como redimidos por Cristo. Cada um de nós pode dizer: Jesus conhece-me! É verdade, é assim: Ele conhece-nos como mais ninguém. Só Ele sabe o que está nos nossos corações, as intenções, os sentimentos mais escondidos. Jesus conhece os nossos méritos e os nossos defeitos, e está sempre pronto para cuidar de nós, para curar as feridas dos nossos erros com a abundância da sua misericórdia. Nele a imagem do pastor do povo de Deus, que os profetas delinearam, realiza-se plenamente: Jesus preocupa-se com as suas ovelhas, reúne-as, enfaixa a que está ferida, cura a doente. Assim podemos ler no Livro do Profeta Ezequiel (cf. 34, 11-16).

Portanto, Jesus Bom Pastor, defende, conhece e acima de tudo ama as suas ovelhas. E por esta razão dá a vida por elas (cf. Jo 10, 15). O amor pelas ovelhas, ou seja, por cada um de nós, leva-o a morrer na Cruz, porque a vontade do Pai é que ninguém se perca. O amor de Cristo não é seletivo; abraça todos. Ele próprio nos lembra isto no Evangelho de hoje, quando diz: «Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor» (Jo 10, 16). Estas palavras atestam o seu anseio universal: Ele é pastor de todos. Jesus quer que todos possam receber o amor do Pai e encontrar Deus.

E a Igreja é chamada a levar a cabo esta missão de Cristo. Para além daqueles que frequentam as nossas comunidades, há muitas pessoas, a maioria, que o fazem apenas em casos particulares ou nunca. Mas isto não significa que não são filhos de Deus: o Pai confia todos a Jesus Bom Pastor, que deu a vida por todos.

Irmãos e irmãs, Jesus defende, conhece e ama todos nós. Maria Santíssima nos ajude a sermos os primeiros a acolher e a seguir o Bom Pastor, a fim de cooperar com alegria na sua missão.

No final, o Papa referiu-se à beatificação dos dez mártires de Quiché, na Guatemala, e expressou a sua proximidade ao povo de São Vicente e Granadinas, onde está em curso uma erupção vulcânica, e às vítimas do incêndio num hospital para doentes de Covid no Iraque. Por fim, recordou os migrantes mortos e o Dia mundial de oração pelas vocações.

Prezados irmãos e irmãs!

Na passada sexta-feira, em Santa Cruz del Quiché, Guatemala, foram beatificados José María Gran Cirera e nove companheiros mártires. Eram três sacerdotes e sete leigos da Congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus, assassinados entre 1980 e 1991, uma época de perseguição contra a Igreja católica empenhada na defesa dos pobres. Animados pela fé em Cristo, foram testemunhas heroicas da justiça e do amor. Que o seu exemplo nos torne mais generosos e corajosos na vivência do Evangelho. Um aplauso aos novos Beatos!

Expresso a minha proximidade à população das Ilhas de São Vicente e Granadinas, onde uma erupção vulcânica está a causar sérios danos e dificuldades. Asseguro a minha oração e abençoo quantos prestam socorro e assistência.

E também estou próximo das vítimas do incêndio num hospital para doentes de Covid, em Bagdad. Oitenta e duas pessoas morreram até agora. Rezemos por todos!

Confesso que estou muito entristecido com a tragédia que ocorreu mais uma vez nos últimos dias no Mediterrâneo. Cento e trinta migrantes morreram no mar. São pessoas, são vidas humanas, que durante dois dias inteiros imploraram em vão por ajuda, ajuda que não chegou. Irmãos e irmãs, interroguemo-nos todos sobre mais esta tragédia. É o momento da vergonha. Rezemos por estes irmãos e irmãs, e por tantos que continuam a morrer nestas viagens dramáticas. Rezemos também por aqueles que podem ajudar, mas que preferem olhar para o outro lado. Rezemos em silêncio por eles.

Hoje celebra-se em toda a Igreja o Dia mundial de oração pelas vocações, que tem como tema «São José: o Sonho da Vocação». Demos graças ao Senhor porque continua a suscitar na Igreja pessoas que por amor a Ele se consagram a proclamar o Evangelho e a servir os irmãos. E hoje, em particular, demos graças pelos novos sacerdotes que ordenei há pouco na Basílica de São Pedro... Não sei se estão aqui... E peçamos ao Senhor que envie bons operários para trabalhar na sua messe e que multiplique as vocações à vida consagrada.

E agora saúdo todos de coração, romanos e peregrinos. Em particular, saúdo os familiares e os amigos dos novos sacerdotes; assim como a comunidade do Pontifício Colégio Germano-Húngaro, que esta manhã fez a tradicional peregrinação das Sete Igrejas.

Desejo a todos bom domingo. E por favor não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista!