· Cidade do Vaticano ·

Novo apelo do Papa numa carta dirigida ao Banco mundial e ao Fundo monetário internacional

Nas vacinas prevaleça
a solidariedade e não a lei
do mercado

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13 abril 2021

Publicamos a seguir a carta enviada pelo Papa Francisco aos participantes nos Encontros de primavera de 2021 do Banco mundial e do Fundo monetário internacional, realizados online de 5 a 11 de abril.

Ao Grupo do Banco Mundial e ao Fundo
Monetário Internacional

Estou grato pelo amável convite a dirigir-me aos participantes nos Encontros de primavera de 2021 do Grupo do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional através desta carta, que confiei ao Cardeal Peter Turkson, Prefeito do Dicastério da Santa Sé para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral.

No ano que findou, como resultado da pandemia de Covid-19, o nosso mundo foi obrigado a enfrentar uma série de crises socioeconómicas, ecológicas e políticas, graves e indissociáveis. Espero que os vossos debates contribuam para um modelo de “retomada” capaz de gerar soluções novas, mais inclusivas e sustentáveis para apoiar a economia real, ajudando os indivíduos e as comunidades a realizar as suas aspirações mais profundas e o bem comum universal. O conceito de retomada não pode contentar-se com regressar a um modelo de vida económica e social injusto e insustentável, onde uma exígua minoria da população mundial possui metade da sua riqueza.

Não obstante a nossa profunda convicção de que todos os homens e mulheres são criados iguais, muitos dos nossos irmãos e irmãs da família humana, especialmente quantos estão à margem da sociedade, são na realidade excluídos do mundo financeiro. Contudo, a pandemia recordou-nos mais uma vez que ninguém se salva sozinho. Se quisermos sair desta situação como mundo melhor, mais humano e solidário, é necessário conceber formas novas e criativas de participação social, política e económica, sensíveis à voz dos pobres e comprometidas a incluí-los na construção do nosso futuro comum (cf. Fratelli tutti, 169). Como peritos em finanças e economia, bem sabeis que a confiança, que nasce da interligação entre as pessoas, é a pedra angular de todos os relacionamentos, incluindo os financeiros. Tais relações só podem ser construídas mediante o desenvolvimento de uma “cultura do encontro”, na qual cada voz possa ser ouvida e todos possam prosperar, encontrando pontos de contacto, construindo pontes e projetando algo que envolva todos (cf. ibid., n. 216).

Enquanto muitos países consolidam planos de retomada individuais, persiste a necessidade urgente de um plano global que possa criar novas instituições ou regenerar as existentes, de modo especial as de governo global, ajudando a construir uma nova rede de relações internacionais para favorecer o desenvolvimento humano integral de todos os povos. Necessariamente, isto significa conceder às nações mais pobres e menos desenvolvidas uma participação concreta na tomada de decisões, facilitando o acesso ao mercado internacional. O espírito de solidariedade global exige também, no mínimo, uma significativa redução do peso da dívida das nações mais pobres, que foi exacerbada pela pandemia. Reduzir o peso da dívida de tantos países e comunidades, hoje, constitui um gesto profundamente humano que pode ajudar as pessoas a progredir, a ter acesso às vacinas, à saúde, à educação e ao trabalho.

Também não podemos ignorar outro tipo de dívida: a “dívida ecológica” que existe de modo particular entre o norte e o sul do mundo. Com efeito, temos uma dívida com a própria natureza, mas também com as pessoas e os países atingidos pela degradação ecológica e pela perda da biodiversidade, induzidas pelo homem. A este respeito, considero que a indústria financeira, que se distingue pela sua grande criatividade, se demonstrará capaz de desenvolver mecanismos ágeis para calcular esta dívida ecológica, de tal forma que os países desenvolvidos a possam pagar, não apenas limitando de maneira significativa o próprio consumo de energia não renovável, ou ajudando os países mais pobres a pôr em prática políticas e programas de desenvolvimento sustentável, mas também cobrindo os custos da inovação necessária para tal finalidade (cf. Laudato si’, 51-52).

Para um desenvolvimento justo e integrado é fundamental uma profunda compreensão do objetivo e do propósito essencial de toda a vida económica, nomeadamente o bem comum universal. Por isso, o dinheiro público nunca deve ser separado do bem público, e os mercados financeiros deveriam apoiar-se em leis e regulamentos destinados a assegurar que trabalhem verdadeiramente para o bem comum. Portanto, o compromisso de solidariedade económica, financeira e social exige muito mais do que a realização de atos de generosidade esporádicos. «É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais (...) A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, é uma forma de fazer história» (Fratelli tutti, 116).

É hora de reconhecer que os mercados — especialmente os financeiros — não se governam sozinhos. Os mercados devem ser sustentados por leis e regulamentos que assegurem a sua ação em vista do bem comum, garantindo que as finanças — em vez de ser meramente especulativas ou de se financiar apenas a si mesmas — trabalhem pelos objetivos sociais tão necessários no contexto da atual emergência sanitária global.

A este propósito, precisamos de modo especial de uma solidariedade vacínica equitativamente financiada, pois não podemos permitir que a lei do mercado prevaleça sobre a lei do amor e da saúde de todos. Reitero aqui o meu apelo aos chefes de governo, às empresas e às organizações internacionais que trabalhem em conjunto a fim de fornecer vacinas a todos, especialmente aos mais vulneráveis e necessitados (cf. Mensagem Urbi et Orbi, Natal de 2020).

Faço votos a fim de que nestes dias as vossas deliberações formais e os vossos encontros pessoais deem muitos frutos para o discernimento de soluções sábias em vista de um futuro mais inclusivo e sustentável. Um futuro em que as finanças estejam ao serviço do bem comum, em que as pessoas vulneráveis e marginalizadas estejam no centro e em que a terra, a nossa casa comum, seja bem tutelada.

Ao transmitir os meus melhores votos orantes pela fecundidade dos encontros, invoco sobre todos os participantes as bênçãos divinas de sabedoria, compreensão, bom conselho, força e paz.

Vaticano, 4 de abril de 2021.

Francisco