· Cidade do Vaticano ·

No primeiro aniversário da Statio Orbis de 27 de março de 2020

O vazio é uma barca

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30 março 2021

É sabido que vivemos na era da massificação das imagens. Em nenhuma época anterior da história se produziram tantas imagens, e também nenhuma outra, como a nossa, assistiu à sua radical banalização. Em vez de imagens únicas e autênticas temos produtos realizados em série, selfies fabricadas num instante e num instante prontas a ser devoradas pelo esquecimento. O filósofo Walter Benjamin falou com razão da «perda da aura», isto é da imagem deixar de constituir «a aparição única de uma coisa distante» e fixar-se na sonâmbula repetição de um déjà vu. Por isso, o comovido consenso em torno à imagem do Papa Francisco na Praça de São Pedro vazia é alguma coisa que dá que pensar, fora e dentro do espaço eclesial.

Vale a pena, a um ano de distância, revisitar aquela imagem, que na verdade não cessou de continuar presente, e perguntar-se donde lhe vem o seu excepcional poder icónico. Porque é aquela imagem que ficou a representar isto que vivemos e não outra qualquer? O que é que ela nos revela de si mesma e o que é que ela ensina acerca de nós próprios? Procurando sintetizar o que mereceria certamente uma reflexão mais ampla, indicaria quatro razões.

1. A ousadia de habitar a vulnerabilidade como lugar da experiência humana e crente


É verdade que a cultura dominante, o  mainstream modelado como um automatismo pelas nossas sociedades de consumo, fizeram da vulnerabilidade uma espécie de tabu. A fragilidade é sujeita a um ocultamento. E à força de interditarmos o encontro com o sofrimento humano sabemos cada vez menos reconhecermo-nos aí ou partirmos daí para aprofundarmos o sentido da nossa comum humanidade. Mas este não é apenas um problema da cultura hodierna. Também a performance religiosa tem alguma dificuldade em integrar aquilo que Michel de Certeau chamava a «fraqueza de crer». A imagem que se transmite é mais a de uma operação cumprida a partir de um guião do que o despojamento e a abertura para realizar uma «caminho não traçado». O Papa Francisco ousou habitar a vulnerabilidade. Não se quedou a falar da vulnerabilidade do mundo, como se estivesse isento dela. Na medida em que aceitou se expor como mais um, emergiu como uma figura sacerdotal capaz de representar a todos.

2. A ousadia de abraçar e resignificar o vazio


Uma das experiências mais impactantes do confinamento foi, no início da pandemia, assistir ao esvaziar-se das cidades. Um estranho e desconhecido silêncio cresceu de um momento para outro. Incrédulos, olhávamos das nossas janelas para as ruas e as praças numa solidão absoluta, sentindo-nos como que expropriados do mundo. A nossa primeira reação foi ler o vazio como algo hostil que nos ameaçava. Ora, Francisco teve a grande sabedoria de abraçar o vazio em vez de repudiá-lo, sublinhando o seu potencial simbólico e revelador. Para isso foi muito importante o texto evangélico escolhido, a cena da tempestade acalmada segundo Mc 4, 35-41. Porque se, por um lado, se aceitava o vazio, abraçando-o como lugar existencial e teológico, por outro, a Palavra de Deus fornecia a chave para resignificar o vazio. O vazio tornava-se uma barca. «Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos». O vazio oferecia uma nova gramática para nos descobrirmos não como fragmentos isolados, mas Fratelli Tutti.

3. A ousadia de encontrar uma metáfora


Comentando o texto evangélico de Mc 4, 35-41, o Papa Francisco fez um gesto de grande alcance: reorientou a perceção acerca da pandemia. Os primeiros chefes de estado a falar referiam-se a ela como uma guerra, metáfora até certo ponto compreensível, mas demasiado equívoca e com tantos perigos à espreita. O Papa foi o primeiro a falar dela como uma tempestade. Esta deslocação do estrito plano beligerante para o plano cosmológico correspondeu a um alargamento de visão. Permitiu, por exemplo, desmontar o impulso inicial de encontrar um culpado, aceitando sim que a tempestade nos desmascara a todos numa vulnerabilidade que não queremos ver e nos envolve a todos numa reconstrução que globalmente nos compromete. Este tempo de prova representa assim um tempo para novas e proféticas escolhas que nos unam, em vez de acirrar o triunfo da lógica dos conflitos e das partes.

4. A ousadia de rezar a Deus no silêncio de Deus.


As tempestades são experiências de crise também para os crentes. Há um escândalo implícito no grito dos discípulos que procuram acordar Jesus: «Mestre, não te importas que pereçamos?» (Mc 4, 38). Como explica o Papa, esta «é uma frase que fere e desencadeia turbulência no coração». Perante a disseminação do mal, da sua vizinhança traumática sentimos com sofrimento o que parece ser o incompreensível silêncio de Deus. E a grande tentação nesses momentos é o niilismo ou a desmobilização.

Sobre o poder das imagens, Heidegger escreveu que «a essência da imagem consiste em mostrar algo». A imagem do Papa a rezar e a oferecer a bênção eucarística, num contexto universalmente experimentado como de desolação, faz ver como o invisível de Deus perfura os bloqueios da história e o Seu silêncio nos dá a possibilidade de viver, seguindo os passos de Jesus, as situações de abandono como confiança e entrega nas Suas mãos. Francisco pediu: «Desta colunata que abraça Roma e o mundo desça sobre vós, como um abraço consolador, a bênção de Deus». E foi isso que aconteceu.

José Tolentino de Mendonça