· Cidade do Vaticano ·

Entrevista com o cardeal Mario Zenari

«Não deixemos morrer
a esperança»

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30 março 2021

A guerra na Síria devorou vidas e paz e corre o risco de anular a esperança. Este é o receio do núncio apostólico em Damasco, cardeal Mario Zenari, que vive num país, há dez anos dilacerado pela guerra, violência e interesses de parte. Nem sempre foi assim, recorda, mas atualmente falta tudo e é necessário um “rio” de ajuda orientada. No Angelus de 14 de março e durante o voo de regresso do Iraque, o Papa dirigiu mais uma vez o seu pensamento à «amada e atormentada Síria» .

Eminência, o Papa voltou a invocar para a Síria reconstrução, convivência e paz...

Desde o início do conflito, o binómio muitas vezes recorrente nos apelos do Papa Francisco permanece o mesmo: «amada e atormentada Síria». É um dos países mais próximos do seu coração. Também recentemente, durante a viagem apostólica ao Iraque, o Santo Padre mencionou a Síria. Durante o Angelus de ontem, falando do triste aniversário de dez anos de guerra, recordou uma vez mais o imenso sofrimento da população, e fez um apelo urgente à solidariedade internacional para que silenciem as armas possam, e para que se trabalhe pela reconciliação, reconstrução e recuperação económica, reavivando assim a esperança de tantas pessoas, duramente provadas pela crescente pobreza e incerteza sobre o futuro.

Nos últimos anos, houve muitas e variadas iniciativas, primeiro do Papa Bento xvi, e depois do Papa Francisco, para pôr fim à violência e lançar o processo de paz. Também tem havido muitas iniciativas relativas à ajuda humanitária. Tornou-se célebre a convocação de um dia de jejum e oração pela paz na Síria a 7 de setembro de 2013, alguns meses após a sua eleição como Papa. A Praça de São Pedro estava repleta de fiéis, precisamente num momento dramático, talvez um dos mais cruciais para a Síria. Ele próprio o recordou no avião, há alguns dias, durante a sua viagem de regresso da visita apostólica ao Iraque.

Qual é hoje o rosto do país que também enfrenta a emergência de Covid-19?

Já não é a Síria que eu conhecia quando lá cheguei há doze anos como núncio apostólico. Hoje, saindo pelas ruas de Damasco, vejo longas filas de pessoas em frente das padarias, esperando pacientemente pela sua vez para comprar pão a preços subsidiados pelo Estado, muitas vezes o único alimento que podem pagar. Cenas nunca vistas antes, nem sequer durante os anos mais difíceis da guerra. E pensar que a Síria faz parte da chamada “Meia-lua fértil”, a Alta Mesopotâmia, com planícies enormes, estendendo-se por cerca de 500 km entre os rios Eufrates e Tigre: um tapete de ouro durante o mês de maio, quando os campos enlourecem! Vê-se, além disso, longas filas de carros em frente dos postos de gasolina, e tem dificuldade de encontrar gasóleo para aquecimento doméstico, embora na parte oriental do país, na fronteira com o Iraque, existam poços de petróleo que seriam suficientes para um abastecimento quase completo de combustível para uso interno.

Qual é o balanço de dez anos após a eclosão do conflito?

A Síria de hoje tem o rosto de um país onde, em relação a dez anos atrás, várias categorias de pessoas estão desaparecidas: os mortos do conflito somam cerca de meio milhão; 5,5 milhões de refugiados sírios estão nos países vizinhos; outros 6 milhões vagueiam, com frequência várias vezes, de uma aldeia para outra como pessoas deslocadas internas. Falta também cerca de um milhão de pessoas que emigraram. Dezenas de milhares de pessoas estão desaparecidas. Faltam os jovens, que são o futuro do país. Falta mais de metade dos cristãos. Não há pais, e por vezes não há mães, para muitas crianças. Para muitas delas não há casa. E ainda mais grave, faltam escolas, hospitais, médicos e enfermeiros em plena emergência de Covid-19. Não existem fábricas nem atividades produtivas. Aldeias e bairros inteiros desapareceram, foram dizimados e despovoados. O famoso património arqueológico, que atraiu visitantes de todo o mundo, foi dilapidado. O tecido social, o mosaico da coexistência exemplar entre grupos étnicos e religiosos, foi seriamente danificado. A natureza também sofre com a poluição do ar, da água e do solo causada pela utilização de explosivos e vários tipos de artilharia durante dez anos. O solo é pisado e os céus atravessados pelas forças armadas de cinco potências em desacordo, como nos lembra muitas vezes o enviado especial da Onu para a Síria, o Senhor Geir Pedersen. Em suma, um quadro verdadeiramente desolador.

Após estes longos anos de guerra, a economia está fortemente prejudicada, há falta de serviços básicos como escolas e hospitais, a pobreza é outra chaga que esmaga o povo. A Síria corre o risco de se perder num cenário de abandono?

É verdade que em várias regiões da Síria, há já algum tempo, as bombas não têm caído, mas aquilo a que se poderia chamar a “bomba” da pobreza explodiu. De acordo com os últimos dados das Nações Unidas, cerca de 90% da população síria vive atualmente abaixo do limiar da pobreza. É o pior dado do mundo! A lira síria perdeu muito do seu valor e os preços dos bens de consumo básicos subiram muito. As pessoas chamam a esta fase do conflito “guerra económica”. Além disso, há falta de fábricas, o trabalho é difícil de encontrar e os salários são muito baixos, e ainda não há sinais de uma recuperação económica substancial.

Durante cerca de dois anos na maior parte do país as bombas pararam, as Nações Unidas continuam os seus esforços para negociar entre as facções e o governo para começar a trabalhar numa nova Constituição, mas isso não parece ser suficiente para restaurar a esperança e a confiança. Por que não?

Infelizmente, tem-se com a impressão de que o processo de paz, indicado pela Resolução 2254 (2015) do Conselho de Segurança das Nações Unidas, está parado. No seu briefing ao mesmo Conselho de Segurança a 9 de fevereiro, o Enviado especial da Onu chamou a atenção para a necessidade de uma “diplomacia internacional construtiva sobre a Síria”, tanto para a continuação da reforma constitucional como para o processo de paz em geral. Durante alguns momentos cruciais, nestes anos de guerra, houve ásperos debates e divisões no seio do Conselho de Segurança, e o uso do direito de veto foi utilizado cerca de quinze vezes, por alguns membros permanentes, quando se tratava de adotar resoluções importantes. A partir disto, é fácil concluir que não haverá paz na Síria enquanto estas diatribes e divisões dentro do mais alto órgão responsável pela segurança e paz mundiais continuarem. No entanto, para além destes momentos frustrantes e sem sucesso, é também necessário recordar o acordo unânime da comunidade internacional em pelo menos duas ocasiões cruciais: a primeira, em setembro de 2013, quando, graças ao acordo entre os presidentes da Federação Russa e dos Estados Unidos, Putin e Obama, foi resolvido o grave e delicado problema do desmantelamento do arsenal químico sírio; outra ocasião foi quando a Resolução 2254 acima referida foi votada por unanimidade, o que, como mencionado, estabeleceu o roadmap para o processo de paz.

Há crianças que experimentaram apenas a dimensão da violência, da privação. Como irão sarar estas feridas?

Como em todas as guerras, este longo e cruel conflito teve efeitos devastadores, especialmente nas camadas mais débeis da população, sobretudo crianças, mulheres e idosos. Muitas crianças morreram sob os bombardeamentos ou no fogo cruzado, outras foram extraídas feridas e mutiladas dos escombros, algumas morreram na travessia marítima, muitas outras sofreram traumas psicológicos difíceis de curar, outras ficaram sem um ou ambos os pais. Muitas morreram de desnutrição, frio, desidratação, como os cerca de cinquenta bebés que morreram nos braços das suas mães enquanto fugiam de Baghouz no inverno de há dois anos. Uns certos números delas, juntamente com as suas mães, continuam à espera, em vários campos de refugiados, de repatriamento para as suas cidades de origem, em condições muito precárias, especialmente no tristemente famoso campo de Al-Hol (Hassaké). Após a sangrenta batalha de Alepo em 2016, vários milhares de crianças apareceram, vagueando pelas ruas e ruínas da cidade, sem família, sem nome nem apelido. Graças aos esforços conjuntos das autoridades religiosas muçulmanas e cristãs de Alepo, foram feitos esforços para as registar no cartório com um nome e um apelido, e para as colocar num caminho de reinserção social. Com uma escola em cada três fora de uso, cerca de dois milhões de crianças sírias não vão à escola. Algumas são vítimas de exploração sexual e outras são recrutadas. As meninas, em particular, são expostas a casamentos precoces. O rastilho que desencadeou o conflito foi aceso inconscientemente por algumas crianças de Daraa, no sul da Síria, que foram presas e detidas durante alguns dias porque tinham escrito slogans contra o Presidente Assad na parede da sua escola. Tudo isto teve inexoravelmente repercussões sobre os seus coetâneos como um bumerangue cruel. Um verdadeiro massacre de inocentes.

Que papel desempenham os jovens, presentes e futuros, na reconstrução do país?

Os jovens são os melhores recursos de um país. Eles são o futuro da sociedade e da Igreja. Infelizmente, a Síria e a Igreja perderam muito deste património incomparável. Com efeito, um grande número deles, não vendo um futuro seguro, empreenderam o caminho do exílio. Poder-se-ia definir esta perda incalculável como mais uma “bomba” mortal para a Síria.

Para reiniciar a Síria, estima-se que são necessários cerca de 400 mil milhões de dólares. Pensa que é necessário mais esforço por parte da comunidade internacional

As Nações Unidas, as várias Ongs envolvidas no campo humanitário e as Igrejas estão a procurar colmatar as muitas emergências, especialmente a alimentação e a saúde. Infelizmente, a reconstrução e o lançamento da economia, para a qual seriam necessárias várias centenas de biliões de dólares, ainda não começaram. Além do grave fenómeno da corrupção e de vários outros fatores, as sanções, em particular, têm um efeito negativo em tudo isto. Para este trabalho de reconstrução e recuperação económica, há necessidade de uma intervenção poderosa e urgente por parte da comunidade internacional. A Síria não terá paz sem reconstrução e arranque económico. «Desenvolvimento é o novo nome da paz», escreveu o Papa São Paulo vi na Encíclica Populorum Progressio de 1967. E o Papa Francisco, na Encíclica Fratelli tutti, n. 126, citando a Centesimus annus do Papa São João Paulo ii, fala da necessidade de assegurar o «direito fundamental dos povos à subsistência e ao progresso». Se me é permitido fazer meu e parafrasear o título de um romance que surgiu há alguns anos, The peace like a river (“A paz como um rio”), há necessidade de um “rio” de ajuda destinado à reconstrução de hospitais, escolas, fábricas e várias infraestruturas.

Qual é o papel da Igreja neste contexto?

Um enorme desafio para as várias religiões presentes na Síria, em particular as religiões cristã e muçulmana, é reconciliar e remendar o tecido social, danificado por estes longos anos de guerra. A Igreja, além disso, está ativa no terreno com uma vasta rede de projetos humanitários abertos a todos, sem diferenças étnico-religiosas, graças à ajuda de várias instituições de caridade de todo o mundo. Poderíamos dizer que é o trabalho do “bom Samaritano”.

Como se vive este período da Quaresma e com qual horizonte?

Procura-se viver esta “Quaresma” em conjunto com o povo, que dura, sem interrupção, há 10 anos, à espera de poder entrever o fim do túnel e um vislumbre da recuperação da Síria, uma “ressurreição” deste país.

Qual é o seu desejo, o seu apelo para este país?

Uma jornalista síria, com o pseudónimo de Waad Al-Kateab, escreveu no «The New York Times» a 7 de fevereiro de 2020 um artigo intitulado: «We are left to face death alone» (“Somos deixados sozinhos a enfrentar a morte”). E o Papa Francisco, a 9 de janeiro de 2020, por ocasião da troca de bons votos de Ano Novo com o Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, disse: «Refiro-me, antes de mais nada, à cortina de silêncio que corre o risco de encobrir a guerra que devastou a Síria durante a última década». A Síria, nestes longos anos de guerra, perdeu a paz, perdeu pessoas, perdeu jovens, perdeu cristãos. Muitas pessoas perderam e estão também a perder a esperança. Poderia ser comparada com o infeliz da parábola do “bom Samaritano”: atacada por ladrões, assaltada e deixada meio morta e humilhada na berma da estrada. Ela está à espera de ser reabilitada social e economicamente, e de ver a sua dignidade reconhecida. Por isso, dirijo um agradecimento especial a todos os “bons samaritanos”, alguns dos quais até perderam a vida para lhe demonstrar a sua generosa solidariedade: são instituições humanitárias internacionais, organizações religiosas, indivíduos. Não deixemos morrer a esperança!

Massimiliano Menichetti