· Cidade do Vaticano ·

Carta da Congregação para as Igrejas orientais aos bispos do mundo inteiro

Para não desviar o olhar

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16 março 2021

Para não desviar o olhar e não ignorar as situações de necessidade e dificuldade de numerosos irmãos e irmãs, este ano devemos ser generosos como nunca por ocasião da Coleta “pro Terra Sancta”, dado que a pandemia de Covid-19 atingiu duramente aqueles territórios: escreveram na seguinte carta aos bispos do mundo inteiro, em nome do Papa Francisco, o cardeal Leonardo Sandri, prefeito da Congregação para as Igrejas orientais, e o secretário arcebispo, Giorgio Demetrio Gallaro.

Cada Semana Santa tornamo-nos idealmente peregrinos a Jerusalém e contemplamos o mistério de nosso Senhor Jesus Cristo, Morto e Ressuscitado. O Apóstolo Paulo, que fez uma experiência viva e pessoal deste mistério, na Carta aos Gálatas chega a dizer: «O Filho de Deus amou-me e entregou-se por mim!» (Gl 2, 20). O que o Apóstolo vivenciou é também o fundamento de um novo modelo de fraternidade que deriva da obra de reconciliação e de pacificação realizada pelo Crucificado entre as nações, como São Paulo escreve na Carta aos Efésios.

Ao longo de 2020, o Papa Francisco quis recordar-nos as consequências deste dom de reconciliação e fê-lo através da encíclica Fratelli tutti. Com este texto o Papa, a partir do testemunho profético proposto por São Francisco de Assis, quer ajudar-nos a ler, à luz do princípio de fraternidade, todas as nossas relações e os âmbitos da nossa vida: religiosos, económicos, ecológicos, políticos, comunicativos. O fundamento do nosso ser todos irmãos e irmãs está precisamente no Calvário, o lugar onde, através da máxima dádiva de amor, o Senhor Jesus interrompeu a espiral de inimizade, rompeu o circulo vicioso do ódio e abriu para cada homem e cada mulher o caminho da reconciliação com o Pai, entre todas as pessoas, com a própria realidade da criação.

As ruas desertas ao redor do Santo Sepulcro e da Antiga Jerusalém ressoaram na Praça de São Pedro vazia e molhada pela chuva, atravessada pelo Santo Padre Francisco a 27 de março de 2020, a caminho do Crucifixo: diante dele, o mundo inteiro pôs-se como que de joelhos, suplicando o fim da pandemia e fazendo com que todos se sentissem irmanados pelo mesmo mistério de dor.

Portanto, foi um ano de provação também para a Cidade Santa de Jerusalém, para a Terra Santa e para a pequena comunidade cristã que vive no Médio Oriente, que quer ser luz, sal e fermento do Evangelho. Em 2020 os cristãos daquelas terras sofreram um isolamento que os fez sentir ainda mais distantes, separados do contacto vital com os irmãos provenientes de vários países do mundo. Sofreram a perda do trabalho, devida à ausência de peregrinos, e a consequente dificuldade de viver dignamente e prover às próprias famílias e filhos. Em muitos países o persistir das guerras e das sanções agravaram os efeitos da própria pandemia. Além disso, faltou também uma parte da ajuda económica que a Coleta pro Terra Sancta garantia todos os anos, por causa das dificuldades de a fazer em muitos países em 2020.

O Papa Francisco propôs a todos os cristãos a figura do Bom Samaritano como modelo de caridade activa, de amor empreendedor e solidário. Estimulou-nos também a refletir sobre as várias atitudes das personagens da parábola, para superar a indiferença de quem vê o irmão ou a irmã em dificuldade e passa adiante: «Com quem te identificas? É uma pergunta sem rodeios, direta e determinante: a qual deles te assemelhas? Devemos reconhecer a tentação que nos rodeia, de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais frágeis. Digamos que crescemos em muitos aspetos, mas somos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, a passar à margem, a ignorar as situações até que elas caiam diretamente em cima de nós» (Fratelli tutti, 64).

A Coleta pro Terra Sancta de 2021 seja para todos uma ocasião para não desviar o olhar, para não passar adiante, para não ignorar as situações de necessidade e de dificuldade dos nossos irmãos e das nossas irmãs que vivem nos Lugares Santos. Se faltar este pequeno gesto de solidariedade e de partilha (São Paulo e São Francisco chamá-lo-iam de “restituição”), será ainda mais difícil para muitos cristãos daquelas terras resistir à tentação de deixar o próprio país, será difícil apoiar as paróquias na sua missão pastoral e continuar a obra educativa através das escolas cristãs e do compromisso social a favor dos pobres e dos que sofrem. Os sofrimentos de numerosos deslocados e refugiados que tiveram de deixar as suas casas por causa da guerra necessitam de uma mão estendida e amiga para derramar sobre as suas feridas o bálsamo da consolação. Não se pode, enfim, desistir de cuidar dos Lugares Santos, que são o testemunho concreto do mistério da Encarnação do Filho de Deus e da oferenda da sua vida feita por amor a nós e pela nossa salvação.

Num cenário tão difícil, marcado pela ausência de peregrinos, sinto o dever de fazer minhas mais uma vez mais as palavras que o Apóstolo das nações dirigiu aos Coríntios há dois mil anos, convidando-os à solidariedade que não se baseia em motivações filantrópicas, mas cristológicas: «Vós conheceis a bondade de nosso Senhor Jesus Cristo. Sendo rico, fez-se pobre por vós, a fim de vos enriquecer através da sua pobreza» (2 Cor 8, 9). E depois de ter recordado o princípio de igualdade, de solidariedade e de intercâmbio dos bens materiais e espirituais, o Apóstolo acrescenta palavras eloquentes, hoje como então, e que não necessitam de qualquer comentário: «Tende presente isto: quem semeia pouco, recolherá pouco e quem semeia com abundância, recolherá com abundância. Cada qual dê segundo o impulso do seu coração, sem tristeza nem constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria. De resto, Deus tem o poder de vos cumular com toda a espécie de benefícios para que, tendo sempre e em todas as coisas o necessário, possais cumprir generosamente toda a espécie de boas obras» (2 Cor 9, 6-8).

A Vossa Excelência, aos sacerdotes, aos religiosos, às religiosas e aos fiéis, que se empenham para o bom êxito da Coleta, em fidelidade a uma obra que a Igreja pede a todos os seus filhos que se cumpra segundo as modalidades conhecidas, tenho a alegria de transmitir o profundo reconhecimento do Santo Padre Francisco. E enquanto invoco abundantes bênçãos divinas sobre esta Diocese, apresento as saudações mais fraternais no Senhor Jesus.