· Cidade do Vaticano ·

Uma terra que volta a viver

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09 março 2021

No voo de regresso de Bagdad para Roma, não se pode deixar de pensar na rota seguida por Abraão quando partiu de Ur dos Caldeus para uma terra prometida onde a sua numerosa descendência iria florescer. Observando da janela, impressiona a dureza do território atravessado, na sua maioria deserto, e por isso a beleza vital dos cursos de água sobressai ainda mais. É o duro e extremo encanto da Mesopotâmia, terra “no meio dos rios”, os dois grandes rios: Eufrates e Tigre, que atravessa Bagdad. Esta mesma imagem, os rios, que nos acompanharam no início da viagem, acompanha-nos também no final: a água que traz vida e o deserto a morte, ao redor.

O primeiro rio que encontrámos foi aquele de sangue que correu da igreja de Nossa Senhora da Salvação, teatro em 2010 do massacre de 48 cristãos durante a Missa, e fomos ajudados pela profecia de Ezequiel, que viveu e está enterrado nessa terra, com imagens de um rio que jorra do templo com águas poderosas que «onde chegarem, curam, e em toda a parte haverá vida» (Ez 47, 9). A cena da entrada do Papa Francisco naquela igreja, na sexta-feira à tarde, aspergindo-a com água benta, recordou aquela imagem de renascimento, aliás de ressurreição.

Esta é a imagem, a sensação que permanece no final desta viagem tão densa de episódios, sugestões, significados: uma sensação de ressurreição. Aqui vem de novo em socorro o profeta “dono de casa”, Ezequiel, que previu a morte e a ressurreição naquela terra e a narrou com imagens poderosas: o vale cheio de ossos secos que voltam à vida ao ouvir a sua profecia «eis o que vos declara o Senhor Javé: vou fazer reentrar em vós o sopro da vida para que revivais. […] Profetizei, pois, assim como tinha recebido ordem. […] Vem, espírito, dos quatro cantos do céu, sopra sobre esses mortos para que revivam [...] Assim diz o Senhor, o Eterno: eis que vos abrirei as vossas sepulturas, e vos farei sair dos vossos sepulcros, ó meu povo, e vos reconduzirei à terra de Israel» (Ez 37, 5-10.)

O que o mundo inteiro viu durante os três dias da viagem papal no Iraque foi uma cena grandiosa, de ressurreição, poderosa como só a alegria o pode ser. Uma terra desolada, devastada pela guerra e pelo terrorismo, abandonada pelo resto do mundo, que recomeça a respirar, a vibrar, a levantar-se, a caminhar. O arcebispo dos Caldeus Bashar Matti Warda, no final da missa no estádio de Erbil, expressou-o eficazmente numa frase, onde mais de dez mil pessoas acolheram calorosamente a chegada do Bispo de Roma: «Santo Padre, agradecemos a sua coragem. A sua coragem flui agora dentro de nós». Coragem como um rio que, à medida que corre, traz vida onde outrora dominava a morte. Este é o primeiro dos efeitos (serão muitos, aqui a profecia é fácil) que a viagem do Papa Francisco desenvolverá nos tempos vindouros.

Andrea Monda