· Cidade do Vaticano ·

Documento da Pontifícia Academia para a vida «A velhice: o nosso futuro»

Medida da civilização
de uma época

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23 fevereiro 2021

Na manhã de 9 de fevereiro, em streaming da Sala de imprensa da Santa Sé, foi apresentado o documento da Pontifícia Academia para a vida (Pav) La vecchiaia: il nostro futuro. La condizione degli anziani dopo la pandemia.  [A velhice: o nosso futuro. A condição dos idosos após a pandemia]. Publicamos o texto integral da intervenção do arcebispo presidente da Pav e um resumo do pronunciamento da professora Etsuko Akiba, académica ordinária da Pav, em ligação do Japão. Trata-se de uma reflexão sobre os ensinamentos a extrair da tragédia causada pela Covid-19 e suas consequências, que retoma aquela já iniciada pela Pav com a Nota de 30 de março de 2020 (Pandemia e Fraternidade Universal), continuada com a Nota do dia 22 de julho seguinte (A «Humana Communitas» na era da Pandemia. Reflexões inatuais sobre o renascimento da vida) e com o documento conjunto com o Dsdhi (Vacina para todos. 20 pontos para um mundo mais justo e saudável) de 28 de dezembro passado. A intenção é propor o caminho da Igreja, mestra em humanidade, a um mundo transformado pela pandemia, a mulheres e homens em busca de um significado e de uma esperança para a sua vida.

Permiti, antes de mais, que agradeça ao Papa Francisco a instituição do Dia mundial dos avós e dos idosos, a ter lugar todos os anos no dia 25 de julho, na festa dos santos Joaquim e Ana. É um convite aos crentes para que cresça neles e ao seu redor uma nova sensibilidade para com os avós e os idosos. Várias vezes os Papas recentes intervieram para chamar de novo a atenção de todos para as pessoas idosas. Basta recordar a Carta aos idosos de São João Paulo ii, algumas intervenções preciosas de Bento xvi e o intenso magistério do Papa Francisco com a festa inesquecível dos idosos em Roma em 2017. O Papa, que não cessa de se opor àquela “cultura do descarte” que leva ao abandono dos idosos, exorta-nos de todas as formas a cuidar da rede de afetos e laços que unem as gerações, para que a família e a comunidade cristã sejam um lar acolhedor para todos, desde os pequeninos aos avós, e a transmissão da cultura e da fé entre gerações seja fluida e viva.

Com esta Nota, a Academia para a vida pretende enfatizar a urgência de uma nova atenção aos idosos, que nas últimas décadas têm aumentado numericamente em todo o mundo. Mas infelizmente não aumentou a proximidade a eles e muito menos uma compreensão adequada da grande revolução demográfica das últimas décadas. A pandemia da Covid-19 — cujas vítimas mais numerosas foram os idosos — revelou esta incapacidade da sociedade contemporânea de cuidar adequadamente dos seus idosos. Com a pandemia, aquela cultura de “descarte” que o Papa Francisco tem repetidamente recordado causou inúmeras tragédias aos idosos. Em todos os continentes, a pandemia atingiu antes de mais aqueles que são idosos. O número de mortos é brutal na sua crueldade. Até esta data fala-se de mais de dois milhões e trezentos mil idosos mortos de Covid-19, a maioria dos quais com mais de 75 anos. Um verdadeiro “massacre dos idosos”. E a maioria deles morreu em lares para a terceira idade. Dados de alguns países — Itália, por exemplo — mostram que metade das vítimas idosas de Covid-19 provêm de institutos e lares para a terceira idade, enquanto apenas 24% do número total de mortes dizem respeito aos anciãos que viviam em casa. Em síntese, 50% das mortes ocorreram entre os cerca de 300.000 hóspedes de lares e asilos, e só 24% atingiram os 7 milhões de idosos com mais de 75 anos que vivem em casa. O lar, mesmo durante a pandemia, com as mesmas condições, protegeu muito mais. E isto foi repetido na Europa e em muitas outras partes do mundo. Uma pesquisa da Universidade de Telavive sobre países europeus destacou a relação direta proporcional entre o número de camas nos asilos e o número de mortes de idosos. Em todos os países a proporção é sempre a mesma: à medida que o número de camas aumenta, aumenta também o número de vítimas idosas. Não acredito que isto aconteça por acaso. O que ocorreu, no entanto, torna impossível dispensar a questão dos cuidados aos idosos com uma busca imediata de bodes expiatórios, de culpados individuais. Por outro lado, um silêncio culpado e suspeito seria incompreensível.

Há uma necessidade urgente de reconsiderar a abordagem global da sociedade em relação aos idosos. Há muito a rever no sistema de cuidados e assistência aos idosos. A institucionalização dos idosos em lares de repouso, em todos os países, não garantiu necessariamente melhores condições de cuidados, especialmente para os mais frágeis. É necessário reconsiderar seriamente não só o que se refere às residências para idosos, mas ao inteiro sistema de cuidados para a vasta população de idosos que carateriza todas as sociedades de hoje. O Papa Francisco lembrou-nos que, da pandemia, não saímos da mesma forma: ou sairemos melhores ou piores. Depende de nós e de como começamos hoje a construir o futuro. Esta Nota — a terceira que a Academia emite em relação à pandemia — visa ajudar a construir um novo futuro para as pessoas mais idosas na sociedade.

É responsabilidade da Igreja assumir uma vocação profética que indique o amanhecer de um tempo novo. Não podemos deixar de nos comprometer com uma visão profunda que guie os cuidados da terceira e quarta idades. Devemo-lo aos nossos idosos, a todos aqueles que o virão a ser nos próximos anos. A civilização de uma época é medida pela forma como tratamos aqueles que são mais fracos e frágeis. A morte e o sofrimento dos idosos não pode deixar de representar um apelo a fazer melhor, diferente e mais. Devemos isso aos nossos filhos, àqueles que são jovens e estão no início da sua vida: educá-los na vida do Evangelho significa também ensinar-lhes que a fraqueza — até a dos idosos — não é uma maldição, mas uma forma de encontrar Deus no rosto de Jesus Cristo. A fragilidade, com os olhos do Evangelho, pode tornar-se uma força e um instrumento de evangelização.

A Igreja, mestra de vida, terá de reinterpretar cada vez mais — dentro de um mundo novo e em evolução — a própria vocação para ser um modelo e um farol para muitas famílias e para toda a sociedade, a fim de que quantos envelhecem sejam apoiados e ajudados a permanecer em casa e nunca abandonados.

Vincenzo Paglia


Recurso precioso do povo de Deus


Ainstituição do Dia mundial s avós e dos idosos, cuja primeira celebração terá lugar no centro do Ano da Família Amoris laetitia,  é um gesto coerente com o magistério precedente do Papa Francisco e com a sua eclesiologia popular e sinodal. Isto é demonstrado pela escolha de o anunciar em proximidade da festa da Apresentação de Jesus no templo, quando Simeão e Ana, iluminados pelo Espírito Santo, reconhecem e acolhem em Jesus o Messias. Os dois anciãos fazem parte daqueles anawins,  que aparecem nos primeiros capítulos do Evangelho de Lucas e formam o «povo humilde e pobre» que, segundo quanto diz o profeta Sofonias, «confiará no nome do Senhor» (Sf  3, 12). São, como os pastores reunidos à volta da gruta em Belém, pessoas periféricas na sociedade daquela época, mas centrais no desígnio de Deus, que se manifesta precisamente a eles.

Depois do Angelus do domingo 31 de janeiro, ressaltando que os avós e os idosos conservam «as raízes dos povos», o Santo Padre ofereceu uma chave para compreender mais profundamente esta nova iniciativa do seu pontificado. Como portadores e transmissores da sabedoria, da cultura e da experiência religiosa do povo, os idosos ajudam-nos a viver «a intensa experiência de ser povo, a experiência de pertencer a um povo» (Evangelii gaudium,  270). Com efeito, o Papa Francisco explicou — numa entrevista a Antonio Spadaro, que acompanha o volume Nei tuoi occhi è la mia parola  “A minha palavra está nos teus olhos” (2016) — que «a história é construída por este processo de gerações que se sucedem no âmbito de um povo», um processo que se realiza «com afinco, tendo em vista um objetivo ou projeto comum».  A partir desta categoria histórica e mítica de “povo”, caraterística da teología del pueblo , compreende-se melhor o papel dos idosos, quer na sociedade quer no seio do santo povo fiel de Deus.

Em continuidade com a Evangelii nuntiandi  e com as assembleias do episcopado latino-americano, Francisco aprofunda a eclesiologia conciliar do povo de Deus e contribui para o descrever a partir dos semblantes e das experiências dos homens e das mulheres. Os avós e os idosos (vocábulos que, no léxico de Francisco, em grande parte se sobrepõem) fazem parte integrante dele e são frequentemente aqueles que transmitem a «piedade popular», expressão de «um apurado sentido dos atributos profundos de Deus» (En , 48) e «a manifestação de uma vida teologal animada pela ação do Espírito Santo» (Eg,  125). O Papa acredita na força ativamente evangelizadora da piedade popular, considerando-a no entanto um património do qual se obtém demasiado pouco. Por isso, insiste sobre o valor da oração dos idosos e sobre a sua tarefa na transmissão da fé. Ou seja, identifica a missão específica deles no seio das comunidades eclesiais e, de certa forma, identifica para eles um espaço definido.

Reconhecer o valor eclesial da fé vivida pelos simples é uma das distinções deste pontificado, destinadas a modelar o porvir da Igreja. A opção de instituir os Dias mundiais dos pobres, dos avós e dos idosos estão em profunda sintonia, pois demonstram que pobres e idosos não são “clientes” da Igreja, mas uma parte relevante do laicado católico. É como se o Santo Padre nos ajudasse a olhar para campos que florescem e que não tínhamos reparado: um povo numeroso que acompanha a vida das nossas comunidades, amparando-as, e que demasiadas vezes até hoje ignoramos. Fitando o povo de Deus, enriquecido pela presença dos pobres e dos idosos, descobrimos que ele é mais vasto e diversificado, e abrimo-nos a uma visão menos pessimista ou entrincheirada da vida da Igreja. Nesta ótica, compreende-se melhor o acesso de indignação com que o Papa se refere ao que aconteceu nestes meses de pandemia, nomeadamente nos lares para idosos: «Não deviam morrer assim!», como se não fizessem parte do povo fiel de Deus.

Acrescentando a instituição do Dia da Palavra de Deus aos dois Dias acima mencionados, compreende-se que a eclesiologia do povo de Deus e a redescoberta da Bíblia estão ligadas num projeto que mergulha as suas raízes no Vaticano ii.

Além disso, é significativo que o Papa Francisco fale das avós na carta enviada ao cardeal Ouellet, a propósito da missão dos leigos (19 de março de 2016). Esta menção confirma a intuição de que ele considera os idosos — até quando são desprovidos de formação específica, mas estão arraigados no Evangelho — uma porção significativa do laicado católico. Como verdadeiros «protagonistas da história», os nossos antepassados oferecem-nos raízes, impedem-nos de ser desenraizados, especialmente — mas não só — no âmbito da família: «Elas foram a memória viva de Jesus Cristo nas nossas casas. Foi no silêncio da vida familiar que a maior parte de nós aprendeu a rezar, a amar, a viver a fé». No texto, o Papa fala da necessidade de preservar duas memórias, a da fé e a dos antepassados. São palavras que voltam frequentemente, quando o Pontífice fala dos idosos, e devem ser entendidas no mesmo contexto. Em 27 de janeiro, por ocasião do Dia da memória, Francisco dirigiu um apelo, afirmando que «recordar é expressão de humanidade. Recordar é sinal de civilização. Recordar é condição para um futuro melhor de paz e fraternidade» (Audiência geral ).

Memória e sonhos são o conteúdo do diálogo entre as gerações, do qual o Santo Padre fala com frequência, e as palavras que acabam de ser citadas são uma das possíveis declinações deste desejo. Preservar as raízes dos povos é um caminho necessário para compreender quais foram os sonhos (de paz, reconciliação, liberdade, democracia, respeito pelos direitos humanos...) que animaram a geração de quantos viveram os anos trágicos da segunda guerra mundial e foram testemunhas do Shoah, e para procurar decliná-los no futuro, imaginando uma palingénese análoga após a pandemia. É assim que os sonhos dos idosos sejam levados em frente como profecia pelas novas gerações.

Os idosos são os nossos companheiros na fé e sentinelas do futuro. A instituição do Dia a eles dedicado — que será celebrado de forma extraordinária uma vez por ano — convida a reconhecer o lugar privilegiado que lhes pertence no povo, nas nossas famílias e na vida comum das nossas comunidades, e a nutrir sentimentos de estima e gratidão para com eles. Não é questão de caridade nem de justiça (por mais que elas sejam necessárias): trata-se de honrar o pai e a mãe,  procurando compreender o valor da sua presença e do seu protagonismo na história.

di Alexandre Awi Mello
Sacerdote do Instituto secular  dos padres de Schönstatt secretário do Dicastério para os leigos,  a família e a vida


Um olhar sobre o Japão


A professora Etsuko Akiba, docente na Universidade de Toyama, no seu discurso durante a conferência de imprensa, denunciou «a indiferença da opinião pública pela morte dos idosos» no Japão. Pessoas com mais de 60 anos «representam 98 por cento de todas as mortes» por Covid, salientou, mas «o número de mortes fora dos hospitais está a aumentar dramaticamente». E «os meios de comunicação social japoneses não relatam a verdadeira condição da morte dos idosos, as suas vicissitudes particulares, onde e como morreram». Em suma, «a dor dos netos e dos familiares que perderam um ente querido não é partilhada pelo público em geral». De facto, nesta «indiferença pela morte dos idosos há uma séria discriminação» que tem na sua base uma «forte visão individualista».

Além disso, acrescentou, «a tendência entre as jovens gerações é aglomerar-se numa limitada área metropolitana central, para viver e trabalhar em arranha-céus. A vida escolar é dominada por uma visão educacional não orientada para os valores. O bullying é muito difundido». Muitos jovens isolam-se e infelizmente acabam por se suicidar.

É um facto que «gerações não dialogam umas com as outras» insistiu Etsuko Akiba. É por isso que existem iniciativas e projetos para criar uma ligação: tais como o Compact City Project na Prefeitura de Toyama ou o  Toyama Day Care System no qual idosos e  crianças deficientes vivem juntos.

«A guerra mundial contra a Covid-19 — concluiu — pode permitir que o Japão supere a mentalidade solitária de um país insular e alcançar uma perspetiva cosmopolita». E um grande apoio pode vir do «desenvolvimento da bioética global, promovido pela Pontifícia Academia para a Vida», inclusive como «instrumento para o trabalho missionário».