· Cidade do Vaticano ·

A Rádio Vaticano completa 90 anos

Recordar para gerar o futuro

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16 fevereiro 2021

Hoje a Rádio Vaticano completa 90 anos. Os aniversários são sempre tempo de balanços, de programas. Recordar faz-nos bem, pois só mantendo vivo o passado podemos construir algo novo, que não se funde na areia. A nossa história, as nossas histórias, são os nossos alicerces.

Recordar faz-nos bem, pois só assim podemos traçar o rumo sem cair na cilada de quantos (como dizia Kierkegaard) o confundem com o menu do dia.

Recordar significa, por um lado, valorizar a riqueza do passado e, por outro, gerar o futuro.

A riqueza da Rádio Vaticano, que hoje celebramos, é a sua abertura ao mundo, tão diferente e no entanto único, unido, interligado.

É a catolicidade no verdadeiro sentido da palavra.

O que a distingue é a consciência, gravada no seu Adn, de ser uma grande comunidade internacional, multicultural; unida pelo seu serviço à missão do Papa, pela tarefa de levar a sua palavra ao mundo, nas línguas do mundo.

É a credibilidade, a identidade bem definida, o facto de ser um ponto de referência.

É a atenção a quem não tem voz, às situações esquecidas, ao respeito pela pluralidade das culturas e das opiniões.

A fé — repete com frequência o Papa Francisco — transmite-se em dialeto.

E a Rádio Vaticano fala realmente a língua do ouvinte, como São Paulo vi nos exortou a fazer. É a emissora internacional que fala mais línguas no mundo (41), preservando a sua linguagem digital contra o nivelamento de uma comunicação sem profundidade.

Esta é a sua fronteira.

Hoje podemos contentar-nos com o paradigma tecnocrático ou podemos procurar construir, exatamente através da comunicação, um mundo mais à medida do homem.

Podemos contentar-nos com uma ligação estéril, ou podemos procurar uma comunicação autêntica.

Podemos acreditar na conversa sincera que leva à partilha, ou no marketing das opiniões, dos slogans.

Neste sentido, o método da rádio pode ser uma medida, um parâmetro de comparação.

A rádio é uma grande escola de jornalismo. Sabe usar as palavras certas. Sabe combinar os reflexos rápidos com as reflexões.

Neste sentido, a era digital não sanciona o fim da rádio. Muito pelo contrário.

O projeto das rádios na web, que começa hoje, transforma os nossos programas, em diferentes línguas, em verdadeiras rádios, cada uma com a própria programação. E faz de cada smartphone um pequeno rádio.

Graças às novas tecnologias a rádio, embora permaneça um meio de baixa definição, aperfeiçoou a sua capacidade de chegar a todos, e de narrar em profundidade.

Mas não renunciou à sua essência.

A rádio é positiva porque entra em profundidade, porque se ouve a voz. As pessoas concentram-se na voz. O rádio não tem pressa. Pede atenção. Respeita as palavras, deixa que elas falem.

Onde a civilização das imagens acaba por confundir realidade e ficção, a rádio não ocupa a cena, narra-a. Não cria cenografias, encontra-as.

Eis o paradoxo: que contudo precisamos da profundidade da palavra. A certas imagens faltam a sombra, a consistência, a capacidade evocativa da palavra nua.

Já conhecemos o sucesso dos podcasts.

Vimos que até as redes sociais mais recentes procuram na palavra falada o segredo de um novo início.

A palavra pronunciada e ouvida é um antídoto muito forte contra a deriva mortal da preguiça telemática.

No que se refere à informação, a fronteira da Rádio Vaticano consiste em ser a primeira fonte do magistério do Papa e o depósito de uma memória coletiva. Consiste em criar com Pedro, ao redor de Pedro, não uma torre de Babel mas uma comunhão de pedras vivas, um edifício de pedras vivas (cf. 1 Pd 2, 5).

A sua tarefa é aquela que São Paulo descreve na Carta aos Romanos (Rm 10, 18): «A sua voz percorreu toda a terra, as suas palavras chegaram até aos confins do mundo».

A sua ambição suave consiste em fazer com que as numerosas pessoas que a seguem, e hoje são milhões inclusive através da web e das redes sociais, se sintam protagonistas na linha da frente da aventura coletiva que é a história que se faz, e que precisa de uma leitura cristã para ser compreendida. Em síntese, consiste em envolvê-las, em vez de deixar que sejam simples espectadoras.

O objetivo futuro não é apostar numa bulimia de ideias brilhantes, nem cultivar a obsessão com resultados imediatos, mas também não é ceder à tentação de pensar que partilhar é facultativo. É aspirar (para além dos dados puramente numéricos da audiência) a continuar a ser um ponto de referência, capaz de interrogar, despertar as consciências e surpreender, procurando uma verdadeira partilha, uma comunhão.

É passar da lógica da transmissão à da relação; fazer falar as periferias a partir do centro, da origem da informação do Vaticano, construir uma rede fundamentada na Palavra.

Paolo Ruffini