· Cidade do Vaticano ·

Necessidade de um ecumenismo sapiencial

Coelet nosso contemporâneo

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02 fevereiro 2021

A tradição bíblica, na reconhecida pluralidade literária e teológica que a tece, alberga esquemas distintos para enfrentar as grandes crises do ser humano e para iluminar com esperança as estações de incerteza da história. Dois desses esquemas, muitas vezes apresentados como contrapostos entre si, são a apocalíptica e a sabedoria. Na verdade, ambos são discursos de crise, pois quer um quer outro se constroem como reação alternativa a uma conjuntura precisa. A sensibilidade apocalíptica, herdeira direta do profetismo, parte, porém, de uma visão linear do tempo que projeta o seu desfecho resolutivo no futuro, pois descrê das possibilidades efetivas de transformação do presente histórico, visto sobretudo como lugar para o exercício de perseverança na expectativa do que se revelará. Ao contrário, a visão do tempo plasmada pela sabedoria é capaz de integrar numa dinâmica de revisão crítica e construtiva mesmo as descontinuidades, as interrogações e os dilemas que emergem nas diversas passagens da história, acordando pacientemente a nossa competência crítica, dando uma profundidade reflexiva ao nosso olhar e desafiando-nos a um compromisso com a conversão efetiva do presente. A apocalíptica pratica uma radical contestação da história atual e projeta-se no que virá. Enquanto que a sabedoria não desiste da atualidade, procura ainda reorientá-la, diz-nos que ainda vamos a tempo, ainda podemos fazer alguma coisa e a terapêutica que propõe é o discernimento, a tomada ativa de consciência da nossa situação ou a meditação aprofundada do que vivemos à luz da globalidade do destino humano.

A sabedoria e um apocalipse prêt-à-porter


Na cultura contemporânea vemos triunfar, por vezes de um modo precipitado, uma «lógica do apocalipse», que só enganadoramente se aproxima daquele bíblico, com quem — é verdade — partilha um certo tipo de linguagem, mas que do ponto de vista dos conteúdos não pode ser mais oposto. De facto, a apocalíptica bíblica é uma gramática de esperança, enquanto que as múltiplas figurações de uma apocalíptica prêt-à-porter que encontramos hoje disseminadas na cultura, na política e na representação do mundo transmitida pelos média se afundam num nihilismo paralisante e autodestrutivo que o Papa Francisco denuncia com coragem na recente Encíclica Fratelli tutti. No diagnóstico do momento presente que o Papa ali realiza, alerta para o facto da história dar sinais de regressão, reeacendendo conflitos anacrónicos e formas de egoísmo que se consideravam superadas (cf. Ft, 11). Uma maneira perigosa de dissolver a consciência histórica é precisamente substituir a sabedoria por um caricatural apocalipse que substitui a mediação e o encontro pelo ódio e pelo caos. No lugar do pensamento crítico, o que vemos praticar é a manipulação e a desfiguração das grandes palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade do género humano para reutilizá-las depois como um mero instrumento de domínio (cf. Ft, 14). É neste contexto, agravado posteriormente pela pandemia, que nos abeiramos do Livro de Coelet, para escutar o seu ensinamento. Ora, uma coisa deve para nós ser clara desde o princípio: se quisermos verdadeiramente investir na construção da fraternidade e da amizade social temos de declarar Coelet nosso contemporâneo.

Para que serve a sabedoria


«Dediquei-me a investigar e a usar a sabedoria para explorar tudo o que se faz debaixo do céu» (Ecl 1, 13). Desde as suas primeiras linhas, o livro de Coelet explica que toma a vida, esta nossa vida concreta que se desenrola debaixo do sol, como matéria da sua investigação. É à história propriamente dita que o autor aplica o seu coração — sede da inteligência —, para perscrutar a realidade nas suas áridas contradições, incoerências e limites, mostrando quanto é a vã a ilusão prometaica que a história faz de si mesma, quando se crê investida de força, de conhecimento absoluto e de poder, e esconde as suas vulnerabilidades e fraquezas. Coelet é um austero mestre porque recusa o caminho da condescendência, mas é um mestre verdadeiro, porque não aborda a vida como se ela fosse uma ficção ou uma ideologia. Antes, acredita no valor da experiência, no fazer e refazer da existência em todas as suas estações, no gigantesco passo de civilização que representa, por exemplo, o reconhecimento da vulnerabilidade que nos fere e da necessidade de perdoar e de ser perdoado, reconhecendo a própria ambiguidade que nos habita. Coelet é um austero mestre, mas não usa a desconstrução como uma arma: usa-a sim como um instrumento de preparar a terra. Não se trata de arrancar, mas de semear. Semear um visão honesta do que em nós resta por fazer, por aclarar e por decidir até ao fim. Mostrando como somos atravessados por tempos tão diversos, que é preciso hospedar com esperança, numa interminável aprendizagem, e escutar com profecia. O tempo não é apenas uma clepsidra que nos esvazia, não è apenas o krónos que nos devora. O tempo é «o nosso momento», a nossa oportunidade para crescer, maturar, para aprender a viver com sabedoria. Por isso Coelet assegura: «Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de lançar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz» (Ecl 3, 1-8).

As três crises, segundo Coelet


Poderíamos penso, sem naturalmente pretender esgotar a notável complexidade hermenêutica desta obra, identificar em Coelet três teses fundamentais. E, por sua vez, constatar que estas teses vêm ao nosso encontro iluminando três faces da crise antropológica, e também cultural, de que hoje se fala menos devido à situação de emergência sanitária que vivemos, mas que ganhamos em não esquecer.

1. A crise da memória e da transmissão


A primeira tese é que se trata de uma ingenuidade pensar que o caminho histórico se faz por saltos de progresso e que ganhamos sim em desmontar criticamente a mistificação que se faz da inovação e da novidade como automaticamente superiores (cf. Ecl 1, 4-11). Pelo contrário, o sábio observa que o curso do sol recomeça em cada dia, que o vento parte e retorna, que os rios desaguam no mar sem que o nível do oceano se altere, que a estrutura cósmica do mundo tem uma estabilidade que deveria fazer o ser humano pensar.

O nosso problema é que as gerações se sucedem sem uma efetiva aliança que os una. O saber que os mais velhos transportam é apressadamente considerado ultrapassado e inválido. Somos sociedades que não querem ouvir a voz dos velhos, sociedades devoradas pela amnésia. Escreve Coelet: «Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois» (Ecl 1, 11). Hoje todos corremos, mas sem passarmos o testemunho, sem dizermos ao outro que lhe cabe correr por nós e em nosso nome, sem investi-lo desse capital de confiança que lhe permitirá ser. Esta crise da memória e da transmissão vive-se a todos os níveis: na família, nas instituições, na sociedade no seu conjunto.

Na era da comunicação fica tanto por dizer, porventura o essencial. Vivemos mergulhados em mensagens, mas adoecidos por uma afasia, uma incapacidade de interpretar a vida em profundidade e de estabelecer, de forma explícita, os seus nexos. Cada geração é como se proviesse do nada. Não raro, as novas gerações olham para trás e não identificam testemunhas, transmissores, mediadores para a passagem que devem fazer de uma margem a outra. Agravado pelo surto tecnológico que carateriza o nosso tempo, somos todos um pouco como árvores sem raízes. Erradamente pensamos que somos os antepassados de nós mesmos e quebramos assim o fio precioso da tradição. Daí a inadiável urgência de relançar uma aliança intergeracional. A transmissão revela-nos não o que podemos aprender, mas aquilo que somos. Explica-nos claramente que nós não estamos na origem de nós próprios, mas que somos aquilo que recebemos dos outros, somos expressão do dom, uma preciosa herança que nos transcende. Transmitir consiste em integrar o ser humano numa história. É dizer-lhe: tu és isto, tu és parte de um passado ou de um futuro, tu és coprotagonista de uma comunidade e de uma história comum.

2. A crise dos modelos de felicidade


A segunda tese do Livro de Coelet é a de que é insensato fundar a busca de realização numa visão materialista, utilitária e hedonista da vida. E o sábio refere o exemplo da sua própria história: «Fiz para mim obras magníficas; edifiquei para mim casas; plantei para mim vinhas. Fiz para mim hortas e jardins... Fiz para mim tanques de águas... Adquiri servos e servas... Amontoei também para mim prata e ouro, e tesouros dos reis e das províncias. E fui engrandecido, e aumentei mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém» (Ecl 2, 4-9). Mas quando se reduz a existência à sua estrita materialidade chega o momento, como confessa Coelet, em que se compreende que «tudo era vaidade e aflição de espírito, e que proveito nenhum havia debaixo do sol» (Ecl 2, 11). A sabedoria de Coelet revela assim a crise dos modelos de felicidade assentes no bem-estar material. Falta uma visão integral da vida e que é necessariamente uma visão sapiencial que abrace a existência humana na sua inteireza. A nossa sociedade declarou como um tabu a doença, o sofrimento, o envelhecimento ou a morte. Mitifica o sucesso, a beleza, uma ideia superficial de juventude. Nesse sentido a denúncia de Coelet é muito atual, pois em sociedades de consumo como as nossas tornamo-nos facilmente analfabetos da vida e das suas expressões fundamentais. Numa sociedade vista como um mercado facilmente nos esquecemos daquilo que não se compra nem se vende. A felicidade, de facto, não é um automatismo, mas uma construção sapiencial. É uma outra visão mais ampla e abrangente do que aquela que possuímos. Muitas vezes é a vulnerabilidade o nosso inesperado mestre, pois nos revela a nossa condição, aquilo que preferimos não ver.

3. A crise de maturação ou a prova do tempo


A terceira tese de Coelet é a de que precisamos compreender o que seja o tempo, tanto na sua precariedade (pois nascemos e morremos, tudo tem um princípio e um fim), como na sua oportunidade (pois é enquanto temos tempo que se pode atuar: «Antes que se rompa o cordão de prata, e se quebre o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se quebre a roda junto ao poço, e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu» — Ecl 12, 6-7). Ou, como diz Coelet noutra passagem, «para aquele que está entre os vivos há esperança» (Ecl 9, 4). O tempo não nos pode apenas consumir sem que através dele nos encaminhemos para a consumação da promessa. Nesse sentido, podemos dizer que Coelet ilumina a crise de maturação porque passa o homem contemporâneo que resiste a aceitar a verdadeira natureza do tempo. A conclusão de Coelet é que há um tempo para tudo, e a vida nos pede uma visão poliédrica e integradora, capaz de espelhar a totalidade. A existência não está imunizada. Ela não é conduzida por um determinismo que a torna indiferente às circunstâncias. É uma ilusão pensar que temos tudo sob controle. Mas, no fundo, a proposta de Coelet é teológica: ele afirma que há o tempo de Deus que ultrapassa e muitas vezes revoluciona a previsibilidade do tempo humano. Muitas vezes o homem não chega a perceber plenamente o sentido e as ligações de tudo aquilo que acontece. O sentido do tempo na sua duração total excede o nosso olhar, pertence ao plano do mistério. E não podemos perder o sentido do mistério. A vida é maior do que a expressão da existência individual ou da de uma época. Não nos basta um conceito de tempo linear, ininterrupto, mecanizado, puramente histórico. O continuum homogéneo do tempo que a teoria do progresso desenha não conhece a rutura trazida pela novidade surpreendente do Espírito. Contudo, o momento presente não é apenas uma passagem horizontal, quantitativa, na perspetiva de uma realização entre este instante e o que lhe sucede. Mas o presente tem também um sentido vertical que requalifica o tempo, abrindo-o à eternidade. É o tempo qualitativo, epifânico. É o tempo da Promessa e da Salvação.

Por um ecumenismo sapiencial


Por tudo o que dissemos já, Coelet não só é um nosso contemporâneo, mas é também um mestre do ecumenismo: de um ecumenismo sapiencial. A fé que as religiões representam não é, nem pode ser uma espécie de escapismo que magicamente ignora ou passa ao lado dos nós cegos da existência, das suas expectativas, fadigas e deceções. As religiões, na sua arquitetura, integram uma sapiencial observação da vida e dos seus acontecimentos. No mundo de hoje, temos especialistas de todo o género, tornámo-nos uma sociedade de peritos, mais do que nunca a técnica e a ciência impõem os seus padrões. Mas faltam-nos mestres capazes de fazer uma síntese, competentes na arte de iluminar um sentido para aquilo que vivemos. Abundam os saberes, mas escasseia a sabedoria. Porém, o que ilumina, argamassa e alicerça a vida é necessariamente uma sabedoria. A sabedoria significa não um conceito, mas uma experiência integral da própria vida; um olhar de conjunto que abarque não apenas a parte, mas o todo; não apenas o indivíduo, mas a comunidade; não apenas o que fomos, mas o que somos e seremos. Ora, as religiões representam, nesse sentido, um património inalienável de sabedoria colocado ao serviço do humano. Recorda o Papa Francisco na conclusão da Encíclica Fratelli tutti: «A partir da nossa experiência de fé e da sabedoria que se vem acumulando ao longo dos séculos e aprendendo também das nossas inúmeras fraquezas e quedas, como crentes das diversas religiões sabemos que tornar Deus presente é um bem para as nossas sociedades. Buscar a Deus com coração sincero, desde que não o ofusquemos com os nossos interesses ideológicos ou instrumentais, ajuda a reconhecer-nos como companheiros de estrada, verdadeiramente irmãos» (Ft, 274 ). Talvez nós próprios, homens e mulheres religiosos, pertencentes a tradições diversas, possamos juntos fazer mais quanto à curiosidade, ao conhecimento e à valorização do imenso repositório de sabedoria que cada religião representa. E possamos investir mais num ecumenismo sapiencial.

O revelar-se do próprio Deus


A sabedoria deve entender-se como a qualificação da vida humana que se confronta com as grandes questões da existência numa abertura ao mistério, que a poetisa norte-americana Emily Dickinson chamava «aquela imensidão não se pode perder». Num dos seus poemas, Dickinson desafiava deste modo o leitor: «Debaixo! Explora-te a ti mesmo! /Pois dentro de ti encontrarás/o continente desconhecido». Sem essa abertura ao transcendente, sem essa exploração do divino que nos atravessa, como declara Coelet, «tudo é vaidade» (Ecl 1, 2). O termo «vaidade», tão repetido nesta obra bíblica, tem um uso metafórico específico que visa alertar para a inconsistência, o non-sense, muitas vezes o estranho teatro do absurdo em que a condição humana se pode tornar quando se fecha apenas num horizonte de realização intra-histórica. Viver assim é «vaidade», é aceitar correr inutilmente atrás do vento (Ecl 1, 14). Pois ao Ser Humano não basta a gestão das questões penúltimas, nem estas podem jamais substituir o confronto com o horizonte das questões últimas. A conclusão de Coelet é, por isso, a seguinte: «Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o homem» (Ecl 12, 13).

Na verdade, a sabedoria não é apenas, do ponto de vista da fé bíblica, uma ética da existência humana sobre este mundo. Não é por acaso que num determinado momento da revelação bíblica se passa a falar de «sabedoria» como uma qualidade divina. A sabedoria outra coisa não é que o revelar-se do próprio Deus, do Seu Espírito que atravessa e impregna de energia santificante a história e os acontecimentos. O discurso da sabedoria faz-nos assim transitar da ética para a mística.

José Tolentino de Mendonça
Arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana