· Cidade do Vaticano ·

O trabalho da organização sem fins lucrativos “Hop e” no Brasil contra a Covid

Onde quer que haja um irmão à espera de ajuda

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12 janeiro 2021

Os olhares cruzaram-se pela primeira vez num encontro muito rápido entre a clínica Mangiagalli e o vaivém de ambulâncias no pátio da policlínica de Milão: ela, Elena Fazzini, fundadora e responsável de “Hope”, organização sem fins lucrativos sediada em Milão, altamente especializada em projetos humanitários para a saúde e a educação; e ele, Paolo Taccone, diretor médico de cuidados intensivos no mesmo hospital, desde fevereiro em primeira linha na batalha contra a Covid-19. E se é verdade que alguns encontros mudam a vida, os deles salvaram centenas de pessoas: os numerosos pacientes curados, quando as últimas esperanças desvaneciam, com equipamentos médicos que, através de Hope, foram importados para a Itália e depois, em tempo recorde, doados a hospitais na luta contra o vírus. O extraordinário espírito de sacrifício com que trabalharam e a eficiência das suas intervenções distinguiu Hope a tal ponto que até o Papa Francisco sugeriu que à equipe de Elena fosse confiada a responsabilidade de orientar os esforços de socorro a alguns hospitais nos confins da terra: Brasil, Líbano e, logo que Elena e a sua organização humanitária puderem contar com os recursos necessários, a Amazónia e a Índia.

São muitos os recantos do planeta onde há sofrimento e dor; em cada terra há um irmão à espera da nossa ajuda. Em lugares fronteiriços, unidos pela necessidade urgente de ventiladores pulmonares, ultrassons, monitores e outros aparelhos médicos que salvam vidas, levar ajuda significa dar esperança deveras concreta de vida e de cuidados. Paolo, que há poucos meses era médico reanimador que trabalhava em unidades de terapia intensiva na luta à Covid-19 em Milão, agora é também especial embaixador voluntário de Hope, pronto para levar a tecnologia da saúde onde quer que seja necessária. As pessoas morrem de coronavírus, mas um ventilador mecânico e um médico formado na sua utilização podem fazer a diferença: é por isso que Hope oferece, além dos dispositivos de saúde, a formação especializada necessária para fazer o melhor uso da tecnologia. Para atuar da melhor forma possível, organizar missões em lugares remotos, onde muitas vezes é difícil chegar, e em condições logísticas complexas, é necessária uma certa capacidade para enfrentar eventos e incidentes inesperados, para os quais tem sido útil a experiência de Elena, consolidada em organizações humanitárias, bem como o grande desejo de se dedicar gratuitamente ao serviço do próximo: qualidade que atraiu Paolo a esta aventura. «Lembrar-me-ei sempre do telefonema de 15 de fevereiro, com o qual Elena, respondendo ao nosso apelo desesperado por ventiladores, repentinamente não disponíveis, com incrível energia e determinação restituía confiança a todos nós. Este é também o espírito que me levou a escolher a profissão médica», afirmou Paolo. Da policlínica de Milão e do hospital San Gerardo de Monza, com os primeiros 18 ventiladores, continuando com os de Bergamo, Brescia, Pavia e Como, todos os hospitais da Lombardia receberam o equipamento necessário. «Foi uma luta contra um vírus invisível, mas também contra o tempo, poder levar ajuda tangível em apenas uma semana, com todas as complicações de uma experiência nunca vivida antes». Dois seres humanos, como todos nós com muitos receios e dúvidas perante a escuridão de um período tão incerto, escolheram fazer a sua parte para o bem da comunidade humana, a única em que todos nos reconhecemos. E assim, silenciosamente, sem qualquer heroísmo ostentado, a sua rotina diária transformou-se na busca de meios e recursos para recuperar aparelhos salva-vidas e depois transferi-los para as estruturas hospitalares. Em seguida, a fase de formação do pessoal médico para a utilização dos aparelhos.

Como organização humanitária, especializada em projetos de saúde e educação na Itália e no Médio Oriente, e preparada para trabalhar em contextos de emergência, desde fevereiro Hope destacou-se como um dos principais protagonistas capazes de implementar ações específicas em resposta ao sos dos hospitais com maiores dificuldades no tratamento de doentes atingidos pela epidemia de coronavírus. Centenas de milhares de dispositivos de proteção para os profissionais da saúde e a população, e mais de 170 aparelhos médicos salva-vidas, mas também prestação de serviços ao pessoal médico e oferta de meios às famílias dos doentes em dificuldades concretas. Pela segunda vez, nesta nova emergência, a mobilização foi rápida e, agora, incansavelmente, os voluntários chegam onde há necessidade — hospitais, paróquias e famílias em situações difíceis — levando respiradores pulmonares, máscaras, computadores e alimentos. Contudo, a missão que melhor demonstra a amplitude da solidariedade humana viu Hope protagonista da maior operação italiana a favor dos hospitais brasileiros, através da compra e doação de 18 unidades de terapia intensiva equipadas com ventiladores pulmonares de alta tecnologia e ecógrafos portáteis para o diagnóstico e tratamento da Covid-19, com um valor superior a um milhão de euros, obtido graças ao precioso apoio de doadores particulares e associações filantrópicas, incluindo a Fundação europeia Guido Venosta, de Giuseppe Caprotti.

A iniciativa nasceu em resposta ao apelo do Papa Francisco através do seu esmoler, cardeal Konrad Krajewski, que confiou a Elena a missão no então segundo país do mundo por número de contágios e mortes. Como testemunho do grande trabalho realizado, uma nova unidade de terapia intensiva chamada Unidade intensiva Papa Francisco & Hope Onlus foi inaugurada no hospital São Lucas, em Porto Alegre, com um gesto que manifesta a gratidão de toda a vasta comunidade local. Nesta longa viagem da esperança, Paolo Taccone foi acompanhado pelo ex-dirigente do Banco mundial, Antonio Guizzetti, que também é voluntário de Hope. Juntos viajaram milhares de km até às estruturas mais desfavorecidas, de difícil acesso, também de um ponto de vista logístico. Com efeito, alguns destes hospitais encontram-se em recantos remotos do país e oferecem serviços de saúde num raio de quinhentos km, cobrindo assim as áreas habitadas pela população amazónica. Receberam os equipamentos médicos os centros que estavam desprovidos, geridos principalmente por várias ordens religiosas, que oferecem cuidados gratuitos a todos: o hospital Santa Casa da Misericórdia em Goiânia, o hospital de maternidade Dom Orione em Araguaiana, a sociedade beneficente São Camilo em Crato, o hospital São José em Aracaju, o hospital São Francisco na Providência de Deus, no Rio de Janeiro, e o hospital São Lucas em Porto Alegre. Todos foram doados, sem nada exigir em troca. «Não foi absolutamente fácil encontrar doadores prontos a apostar numa missão quase impossível — admite Elena, na véspera da sua partida para a próxima missão, no Líbano — mas no Brasil, na Índia e no Líbano, há milhares de pessoas esquecidas, que a epidemia corre o risco de tornar invisíveis: pelo contrário, esta deve ser a ocasião para despertar em todos uma humanidade e uma força hoje adormecidas. Pois cabe a nós e às novas gerações capitalizar a necessidade de uma relação com o outro, renovando o nosso olhar sobre o próximo: um olhar que restitua sentido e esperança à vida de todos os dias».

Silvia Camisasca