· Cidade do Vaticano ·

Num filme documentário

A surpresa de Francisco

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05 janeiro 2021

O bispo de Roma em visita a habitações particulares, prisões, hospitais e casas de acolhimento para se encontrar com doentes, migrantes, toxicodependentes, prisioneiros, ex-prostitutas, e para falar com eles, como faria um amigo da porta ao lado ou como um simples pároco; muitas vezes sentado à mesa, com uma bebida ou um café, enquanto brinca com crianças e idosos, gerando emoções, lágrimas de alegria, risadas, mas também momentos de oração e reflexão. Uma série de imagens comovedoras, muitas das quais nunca vistas pelo público televisivo, ritma Solo Insieme — La sorpresa di Francesco, um filme documentário de Gualtiero Peirce, transmitido pela Raitre a 4 de janeiro, às 23h15.

Escrito com Orazio La Rocca, vaticanista de longa data, foi realizado com imagens do Centro televisivo do Vaticano, a maioria das quais inéditas e conservadas nos arquivos do Vatican media. As músicas de monsenhor Marco Frisina e a voz de Nicole Grimaudo acompanham os vários momentos da história, que se inspira na já histórica imagem do Papa Francisco na solidão da praça de São Pedro, a 27 de março passado, quando debaixo da chuva torrencial disse ao mundo que agora mais do que nunca, no tempo da pandemia, os homens já não podem «ir em frente cada qual por si mesmo, mas só juntos», como recorda precisamente a primeira parte do título. A segunda, ao contrário, refere-se às Sextas-feiras da misericórdia, criadas em 2015 durante o Jubileu a ela dedicado: a partir de então, em várias circunstâncias, o Pontífice encontrou-se com os mais necessitados, em especial com os residentes na “sua” diocese, apresentando-se inesperadamente, sem ser anunciado nem esperado: como por exemplo em Torre Spaccata, entre idosos e doentes em estado vegetativo; na ala de neonatologia do hospital San Giovanni; em Boccea, na Aldeia sos para crianças em situação de dificuldade; na Ardeatina, na Fundação Santa Lúcia, centro especializado em reabilitação neurológica; no bairro Eur, onde está a Casa de Leda, uma residência confiscada à criminalidade organizada, que hoje acolhe encarceradas com filhos menores.

Acompanhado pelo arcebispo Rino Fisichella — presidente do pontifício Conselho para a promoção da nova evangelização, entrevistado no filme documentário por ter guiado a experiência das Sextas-feiras da misericórdia — o Papa Bergoglio abraçou, falou e acariciou em silêncio; olhou, mas sobretudo ouviu histórias de dor e de renascimento, encontrando também a alegria e o sorriso nos olhos de quantos o acolheram no próprio lar casa ou numa casa de acolhimento, numa comunidade de recuperação, nos lugares da solidariedade que hospedam os mais marginalizados.

Uma escolha que cancelou as distâncias, dando aos gestos e ao ensinamento de Francisco o significado mais completo e autêntico da palavra “misericórdia”. Como quando, em agosto de 2016, visitando no bairro popular de Pietralata uma estrutura para mulheres resgatadas da rua pelos voluntários da Comunidade Papa João xxiii — fundada pelo padre Oreste Benzi — lhes pediu perdão pela violência infligida até por quem se professa cristão.

Gianluca Biccini