· Cidade do Vaticano ·

O cardeal Cláudio Hummes falou sobre a Universidade católica e a Conferência eclesial da Amazónia

Conversão pastoral
e inclusão ecológica

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09 dezembro 2020

Numa entrevista concedida a «L’Osservatore Romano», o cardeal Cláudio Hummes, presidente da nova Conferência Eclesial da Amazónia (Ceama), arcebispo emérito de São Paulo, prefeito emérito da Congregação para o clero e até há poucas semanas presidente da Rede Eclesial Pan-Amazónica (Repam), manifestou o seu pensamento sobre o Sínodo para a Amazónia que teve lugar há um ano, a nova Conferência eclesial, a Universidade católica da região e a encíclica Fratelli tutti. Apresentamos a seguir as suas interessantes opiniões e reflexões.

Um ano após o Sínodo para a Amazónia, o que significa para Vossa Eminência este evento e quais são as suas projeções para o futuro?

Penso, antes de mais nada, que o Sínodo ofereceu a toda a Igreja um conhecimento mais real e acolhedor dos povos originários, da sua cultura, identidade, história e visão do mundo, bem como da sua importância insubstituível para toda a família humana e, de forma especial, para a Igreja. Em segundo lugar, o Sínodo mostrou que é possível construir novos caminhos para a Igreja através da conversão pastoral e da inclusão ecológica (cuidar da casa comum) e mediante um processo que consiste em abater muros e construir pontes e, através destas pontes, chegar às periferias do mundo para ouvir, ouvir e voltar a ouvir, desaprender, aprender e depois reaprender, num processo, para construir o futuro com as populações locais, inculturando e encarnando o Evangelho nas culturas, num diálogo inter-religioso e intercultural, com paixão e audácia. Podemos chamar a tudo isto «construção de uma Igreja mais sinodal e misericordiosa, com uma clara opção preferencial pelos pobres». Em terceiro lugar, o Sínodo reafirmou o que o Papa Francisco propõe na Laudato si’ e na Evangelii gaudium sobre o cuidado da casa comum, especialmente da Amazónia, neste tempo de grave e urgente crise climática e ecológica.

Quais são, na sua opinião, o espaço e a transcendência eclesiológica e sociológica da Ceama? É um novo modelo de conferência mais próximo ao pensamento de Francisco?

A conferência eclesial da Amazónia é algo novo, que interpela toda a Igreja. Obviamente inclui bispos, mas também outras pessoas, como sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos, leigas e, com particular ênfase, representantes indígenas. Tem caráter de conferência, por desejo explícito do Papa Francisco, e por isso não é apenas um secretariado, nem uma comissão de outro organismo. Possui uma caraterística mais sinodal do que as outras conferências da Igreja. Ainda é jovem, modesta, mas muito animada.

Que lugar ocupará a Universidade católica da Amazónia no contexto das duas perguntas anteriores?

A criação de uma Universidade católica amazónica foi desejada pelo Sínodo. Todos sabemos que a educação e a escolarização são fundamentais para o desenvolvimento integral da família humana. No entanto, o projeto para a Amazónia é que deve ser uma instituição educacional inculturada que acolha e desenvolva a cultura e o conhecimento ancestral, construindo os seus procedimentos e projetos educacionais com a própria população do território.

Tendo em consideração o que já dissemos até aqui, qual é na sua opinião o fio condutor mais importante entre «Laudato si’», «Querida Amazonia» e «Fratelli tutti»?

É a fidelidade na inclusão de todos os seres humanos envolvidos, e também do território, a “casa comum”. É não aceitar que alguém fique para trás ou deixe de ser reconhecido como igual. Somos todos irmãos. Tudo está interligado!

Marcelo Figueroa