· Cidade do Vaticano ·

Os desafios da “Fratelli tutti”

Entre a urgência e o desejo

«José revela-se aos seus irmãos» (1816-1817, Alte Nationalgalerie, Berlim)
03 novembro 2020

Uma narrativa bíblica crucial para a construção de uma teologia da fraternidade é aquela que nos vem contada no capítulo 37 do Livro do Génesis. Jacó envia o seu filho José até ao campo para saber como estavam os irmãos, ocupados na atividade pecuária que servia de sustento à família. E um elemento, entre tantos outros interessantes desta conhecida narrativa, é o facto de José não encontrar imediatamente os irmãos. De facto, a fraternidade não é um mero automatismo do sangue ou da geografia familiar em que se nasce. Desde a história de Caim e de Abel (Gn 4, 1-16), a Bíblia faz-nos saber que a fraternidade é, antes, uma escolha ética em que nos temos de comprometer, uma decisão existencial e espiritual que de forma muito concreta ou aceitamos ou recusamos. José anda errante pelos campos e um homem que o vê pergunta: «o que procuras?». Ele dá uma resposta que, no fundo, serve também para explicar as nossas procuras e aquelas do mundo hodierno. José responde: «estou à procura dos meus irmãos»  (Gn 37, 16). Ora, é precisamente desta procura que a Encíclica fala.

A urgência da fraternidade

Antes de tudo, a Fratelli tutti é um texto assinalado pela urgência. A urgência pode ser, por exemplo, colhida já no capítulo primeiro, intitulado «As sombras de um mundo fechado». O Papa Francisco ajuda-nos a olhar para o mundo à nossa volta propondo um diagnóstico essencial do momento histórico que estamos a viver. E não é um momento fácil. Vem-me ao pensamento o título de uma peça do escritor Peter Handke, Prémio Nobel da Literatura 2019: «A Hora em que Não Sabíamos Nada Uns dos Outros». Contra esse estado de coisas, o Papa levanta profeticamente a sua voz. E deixa o aviso: «a história atual dá sinais de regressão»  (Ft 11). De facto, não só assistimos ao reacender de uma conflitualidade que pensávamos superada quer no plano internacional, quer no interno das comunidades nacionais, como vemos grassar «uma perda do sentido da história»  (Ft 13), que abre de novo o caminho a lógicas de desagregação, descarte e domínio. O primeiro a ser ignorado é o bem comum, pois o que se constata na experiência de globalização vigente é o triunfo das ambições dos mais fortes e a precarização crescente das regiões e dos grupos humanos vulneráveis. Como nos é recordado, «a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos» (Ft 12). Pelo contrário, «encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência». Basta ver como os direitos humanos não são ainda suficientemente universais; como continuamos a habitar a casa comum como consumistas desenfreados em vez de investirmos em gerar equilíbrios no ecossistema; como não nos preocupamos o suficiente em qualificar eticamente o progresso tecnológico, tornando-o um instrumento ao serviço da pessoa humana em vez de ser uma ulterior forma de manipulação e de assimetria social; ou como, perante o flagelo da pandemia que afeta o mundo, resistimos a reconhecer que estamos todos no mesmo barco e que ninguém se salva sozinho. Qual é o resultado desta cegueira? O Papa Francisco é inequívoco: «no mundo atual, esmorecem os sentimentos de pertença à mesma humanidade; e o sonho de construirmos juntos a justiça e a paz parece uma utopia doutros tempos» (Ft 30). Em resumo: falta um projeto comunitário capaz de nos unir a todos.

A fraternidade: um projeto para todos

O que o Papa Francisco propõe é que esse projeto possa ser a fraternidade e a amizade social. E fá-lo de um modo bem explícito: «Entrego esta encíclica social como humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras» (Ft  6). De facto, da tríade liberdade, igualdade e fraternidade, que representa o ideário da modernidade, as nossas sociedades integraram as duas primeiras, mas deixaram de fora a fraternidade como se fosse um assunto estritamente privado, sobre o qual não é possível construir um consenso social. Porém, como afirma o Papa Francisco, sem a fraternidade, a visão da liberdade e da igualdade correm o risco de se tornarem tragicamente inconclusivas e abstratas, situação que podemos bem verificar. O reconhecimento da fraternidade é, por isso, uma das tarefas atuais mais prementes, que deve envolver todos os atores, da política à economia, da cultura às religiões. Comentando a parábola evangélica do bom samaritano, o papa diz: «cada dia é-nos oferecida uma nova oportunidade, uma etapa nova. Não devemos esperar tudo daqueles que nos governam; seria infantil. Gozamos dum espaço de corresponsabilidade capaz de iniciar e gerar novos processos e transformações. Sejamos parte ativa na reabilitação e apoio das sociedades feridas». (Ft  77) As palavras-chave são começar e recomeçar. A fraternidade é colocada nas nossas mãos como um desafio inexcusável.

Card. José Tolentino de Mendonça