· Cidade do Vaticano ·

Na comemoração dos fiéis defuntos, o Santo Padre convidou a olhar para o alto

A esperança cristã, dom que devemos pedir

cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg
03 novembro 2020

Na tarde de 2 de novembro, comemoração de todos os fiéis defuntos, o Santo Padre visitou o cemitério teutónico, lugar de sepultamento na Cidade do Vaticano, em cuja igreja presidiu à santa Missa. Publicamos a seguir a breve homilia que o Pontífice proferiu nessa circunstância.

Job derrotado, ou melhor, acabado na sua existência, por causa da doença, com a pele arrancada, quase a ponto de morrer, praticamente sem carne, Job tem uma certeza e di-la: «Sei que o meu Redentor está vivo e finalmente aparecerá sobre a terra!» (Jb 19, 25). No momento em que Job está mais em baixo, mais em baixo, recebe aquele abraço de luz e calor que o tranquiliza: verei o Redentor. Vê-lo-ei com estes olhos. «Eu mesmo o contemplarei, os meus olhos o verão e não os olhos de outro» (Jb 19, 27).

Esta certeza, quase no momento conclusivo da vida, é a esperança cristã. Uma esperança que é um dom: não a podemos ter. É uma dádiva que devemos pedir: “Senhor, dá-me esperança!”. Existem tantas situações negativas que nos levam ao desespero, a acreditar que tudo será uma derrota final, que depois da morte não há nada... E a voz de Job volta, volta: «Sei que o meu Redentor está vivo e finalmente aparecerá sobre a terra [...] eu mesmo o contemplarei», com estes olhos.

«A esperança não desilude» (Rm 5, 5), disse-nos Paulo. A esperança atrai-nos e dá sentido à nossa vida. Não vejo o além, mas a esperança é o dom de Deus que nos atrai para a vida, para a alegria eterna. A esperança é uma âncora que temos do outro lado e, agarrados à corda, sustentamo-nos (cf. Hb 6, 18-20). «Sei que o meu Redentor está vivo e eu mesmo o contemplarei». Repitamos isto nos momentos de alegria e de tristeza, digamos assim na hora da morte.

Esta certeza é uma dádiva de Deus, pois nunca poderemos ter a esperança com as nossas próprias forças. Devemos pedi-la. A esperança é um dom gratuito que nunca merecemos: é doado, é concedido. É graça!

Depois, o Senhor confirma isto, esta esperança que não desilude: «Todo aquele que o Pai me dá, virá a mim» (Jo 6, 37). Eis a finalidade da esperança: ir ao encontro de Jesus. E «aquele que vem a mim, não o rejeitarei, pois desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou» (Jo 6, 37-38). O Senhor receber-nos-á lá, onde está a âncora. A vida na esperança é viver assim: agarrados, com a corda na mão, fortes, conscientes de que a âncora está lá. E esta âncora não desilude, não desilude.

Hoje, no pensamento de muitos irmãos e irmãs que partiram, far-nos-á bem olhar para os cemitérios, olhar para o alto. E, como Job, repetir: «Sei que o meu Redentor está vivo, Eu mesmo o contemplarei, os meus olhos o verão e não os olhos de outro». E esta é a força que nos dá esperança, este dom gratuito que é a virtude da esperança. Que o Senhor a conceda a todos nós!