· Cidade do Vaticano ·

Dia mundial dos pobres

A coragem necessária neste tempo de incerteza

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17 novembro 2020

Kalòs kìndinos, repetia a antiga sabedoria grega: “O perigo, o risco, é belo”. À sua maneira, também o Papa Francisco repetiu este conceito ontem de manhã, comentando a parábola dos talentos: «Servos bons, no Evangelho, são aqueles que arriscam. Não se mostram exageradamente cautelosos e precavidos, não conservam intacto o que receberam, mas usam-no. Com efeito o bem, se não se investir, perde-se, já que a grandeza da nossa vida não depende de quanto amealhamos, mas do fruto que produzimos. Quantas pessoas passam a vida só a acumular, pensando mais em estar bem do que em fazer o bem! Como é vazia, porém, uma vida que se preocupa das próprias necessidades, sem olhar para quem tem necessidade! Se temos dons, é para nós sermos dom para os outros. [...] Arriscar: não há fidelidade sem risco. Ser fiel a Deus é gastar a vida».

Portanto, Kalòs kìndinos. Mas desde os tempos antigos até aos nossos dias algo aconteceu, ao longo do caminho tortuoso do pensamento, tanto o “alto”, filosófico, como o “baixo”, o pensamento comum. A verdade é que hoje o “dogma” vencedor é o da certeza e da segurança de que São Paulo fala na carta aos Tessalonicenses, citada pelo Papa: «E quando disserem: “Paz e segurança”, sobrevir-lhes-á repentinamente a destruição, como as dores à mulher grávida. E ninguém escapará». O texto bíblico e o Papa advertem contra a ilusão desta atitude que evita a emoção do risco em nome da certeza animadora, mas não há nada a fazer: no Ocidente florescente, saudável e seguro do pós-guerra o único pensamento dominante é aquele que identifica a verdade com a certeza, de modo que a única dimensão que tem o direito de poder dizer a “verdade” é a científica. Quem frequenta as salas de aula, depois de poucos dias pode fazer esta simples observação: para as jovens gerações, “verdadeiro” é igual a certo, seguro, experimentável, reproduzível. Assim, desvanece até o conceito de “certo”, que é inevitavelmente confundido com o de “correto” ou, pior, de “legal”. O legalismo de quem procura seguranças para evitar riscos já estava presente na época de Jesus e ainda hoje esta atitude ganha raízes entre os cristãos. Também por este motivo, ontem, na sua homilia, o Papa voltou a advertir contra a tentação de «se colocar na defesa, prendendo-se apenas à observância das regras e ao respeito dos mandamentos. Aqueles cristãos “comedidos” que nunca dão um passo fora das regras; nunca, porque têm medo de arriscar. E – permiti-me a imagem – as pessoas que estão de tal modo atentas a si mesmas que nunca arriscam... começam na vida um processo de mumificação da alma, e acabam como múmias. Isto não basta! Não basta observar a regras; a fidelidade a Jesus não consiste apenas em não cometer erros!». Contudo, pelo menos aparentemente, hoje em dia o pensamento vencedor é precisamente este: verdadeiro igual a certo. Um pensamento que quiser separar-se desta redução do conceito de verdade, como na Itália, por exemplo, o do professor Silvano Petrosino, da Universidade Católica, terá muita dificuldade em propagar-se. Para o professor milanês, a sabedoria antiga, e a bíblica em particular, tem um conceito muito mais amplo de verdade, que não coincide com a certeza mas com a fecundidade (que não é a mesma coisa que fertilidade). E é precisamente a parábola dos talentos que o demonstra. O servo “mau” tem medo do risco, das incertezas dos mercados, e agarra-se à única certeza que pensa possuir, aquele único talento que lhe foi concedido pelo seu senhor (que lho deu, investindo nele). E a sua “não-escolha” permanecerá inevitavelmente infecunda, enquanto os outros são os verdadeiros servos fiéis, porque se puseram em jogo e interpretaram o seu papel com coragem e liberdade, revelando-se fecundos.

Esta parábola, tal como as outras do Evangelho, diz muito precisamente hoje, «nestes tempos de incerteza e fragilidade», como o Papa os definiu ontem. Com efeito, se olharmos para o nosso tempo, vemos a sociedade abalada nas suas profundezas exatamente porque todas as seguranças desabaram; a pandemia coloca em crise todos os tipos de certeza, até a científica. Se nos obstinarmos em procurar certezas, o risco é a loucura; deste ponto de vista, até os meios de comunicação, bombardeando-nos com dados e estatísticas, parecem refletir o desconcerto e a desorientação geral. Talvez porque tenhamos que rever o nosso conceito de verdade, o que é verdadeiramente fiável. Talvez tenhamos que pensar que esta “ruína” que nos atingiu repentinamente na verdade é fértil, dado que se assemelha às “dores” de uma mulher grávida e que portanto gera, contém em si, uma via paradoxal de crescimento e de salvação. Mas para o compreender temos que investir na fantasia e criatividade, correndo o risco de mudar até as próprias regras de vida, às quais estamos demasiado apegados, como àquele único talento que acabamos por idolatrar conservando-o debaixo da terra, exatamente como uma múmia.

Andrea Monda