· Cidade do Vaticano ·

Todos irmãos, até aqueles “a mais”

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20 outubro 2020

O texto da carta encíclica Fratelli tutti, a terceira do Papa Francisco, publicada a 4 de outubro, suscitou, como era previsível, uma série de reações diferentes, muito diversificadas. Há também uma notícia, que vem do além-mar, que não se pode definir “reação”, mas sobretudo sintoma de quanta necessidade existe hoje de redescobrir o próprio significado de fraternidade, até no seu sentido mais estrito e literal. Trata-se de uma campanha publicitária que neste período se mostra ao longo das ruas e nas paredes dos edifícios no Canadá e nos Estados Unidos, e que realça uma mentalidade, uma visão do mundo, marcada pelo fechamento gerado pelo medo da alteridade e pela falta de confiança, que o texto do Papa convida a superar com «um coração aberto ao mundo inteiro», como reza o título do capítulo quatro de Fratelli tutti. O tema abordado pela campanha promovida pela associação OnePlanetOneChild é precisamente o da fraternidade, visto em termos muito simples (de resto, é o objetivo da publicidade, impressionar com uma única mensagem). O cartaz em questão mostra um rosto, o de uma bonita criança negra com a boca e os grandes olhos bem abertos, e em baixo uma frase grande, clara e simples: «O maior dom de amor que podes dar ao teu primeiro filho é não teres outro». Não pode existir oposição mais forte do que esta: se o Papa diz «irmãos, “todos irmãos”», a associação “Um-Planeta-de-Filhos-Únicos» responde com “nenhum irmão”, porque dois já é demais. Caim venceu.

No número 19 da encíclica, o Papa afirma: «A falta de filhos, que provoca um envelhecimento da população, juntamente com o abandono dos idosos numa dolorosa solidão, exprimem implicitamente que tudo acaba connosco, que só contam os nossos interesses individuais», citando depois uma amarga reflexão pronunciada no discurso ao Corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, a 13 de janeiro de 2014: «Objeto de descarte não são apenas os alimentos ou os bens supérfluos, mas muitas vezes os próprios seres humanos». Portanto, existem os “filhos descartados”, os que são diferentes e menos afortunados do que os “filhos programados”: outro cartaz da mesma associação mostra um casal alegremente sentado no chão, encostado à parede da casa, ainda com o traje da festa, e ao lado a escrita, em letras garrafais, que reza: “We’re planning one!”, “Programamos um”. O filho como produto de laboratório, segundo a lógica do “bom o primeiro!”, que é também o último.

Trata-se de duas visões do homem e da vida diametralmente opostas, a do produto e a do dom, e ambas giram em volta do tema, neste ponto escorregadio, do amor, levantando a questão sobre qual é o maior amor. Para os criativos da publicidade, a mensagem a transmitir é que o maior amor se manifesta em termos negativos, em não fazer algo, em não gerar (outra) criança, precisamente porque seria “outra” e, portanto, “a mais”. Para os cristãos a verdade é o oposto, o amor é positivo, efusivo, inclusivo e generativo, e existe uma ligação estreita com a vida, entendida não como “risco” a evitar, mas a correr, impelido pela força de um dom excedente a fazer circular: «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13).

Andrea Monda