· Cidade do Vaticano ·

“Fratelli tutti”, um texto universal dirigido ao coração de cada pessoa

Para contemplar o mundo é preciso entrar nele

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22 setembro 2020

Num recente tweet enviado através da conta Pontifex, o Papa Francisco quis recordar que «O crente contempla o mundo não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres».

Apesar da sua necessária brevidade, o texto é tão denso que é muito imprudente, com um artigo de jornal, ter a pretensão de esgotar todo o seu tesouro de significados escondidos, mas vale a pena destacar alguns dos seus aspetos.

Em primeiro lugar, o Papa convida-nos a contemplar o mundo. Isto pode surpreender quem está habituado a olhar para o mundo com sentimentos mistos de medo e desconfiança, que levam a atitudes de defesa e de julgamento.

Não, não olhar, diz o Papa, mas contemplar. O termo escolhido é particular, exato, exigente. Há poucos dias, neste jornal, o teólogo Giovanni Cesare Pagazzi recordou a primeira carta pastoral do cardeal Martini, há 40 anos novo arcebispo de Milão, sobre a “dimensão contemplativa da vida”, concentrando-se no significado etimológico do verbo para quem «a contemplação é uma atividade que visa o céu, o depois, o além, a profundidade... em relação àquilo que normalmente está disponível. O que na vida é comum e diário seria superficial, enquanto que a contemplação aspira à profundidade ou à altura. Ao contrário, afirmar que a vida é inteiramente contemplável significa admitir a profundidade do que emerge na superfície de todos os dias».

Este é o ponto de partida também da redação deste jornal, «L’Osservatore Romano» que, todos os dias, não quer olhar mas “contemplar” o mundo, indo além do que sobressai na superfície e procurando ser “inteligente”, intus-legere. Deste ponto de vista, o projeto que nas próximas semanas levará a um reinício do diário também na edição em papel, move-se precisamente nesta linha, privilegiando a dimensão do aprofundamento sobre aquela do simples noticiário.

Portanto, ler dentro, exatamente como o Papa pede no seu tweet. O que significa que «o mundo não se contempla como alguém que está fora dele, mas dentro»? A imagem, frequentemente utilizada em função do mistério da Igreja, é a dos vitrais: permanecendo fora de uma igreja não se capta a beleza de um vitral, mas entrando na igreja (e na Igreja), os vitrais brilham em todo o seu esplendor graças à luz que passa através deles. Só entrando na vida da Igreja é possível apreender toda a sua profundidade e riqueza, caso contrário corre-se o risco de a julgar aplicando categorias que não têm em consideração esta complexidade e de a reduzir a uma realidade meramente humana, sociopolítica, a uma “ong caritativa”, como Francisco repetiu frequentemente, desde o início do seu pontificado. Contudo, neste tweet o Papa não fala da Igreja mas do mundo e convida o crente a atravessá-lo, a entrar nele para o contemplar a partir de dentro. E o crente não pode deixar de o fazer, não só porque é o Papa que o pede, mas porque foi isto que Deus fez em Jesus. É o mistério da Encarnação, cerne da fé cristã. Deus não ficou fora do mundo por Ele criado, não parou para o admirar como se fosse um “espetáculo”, mas mergulhou nele, imergindo-se até ao abismo mais profundo, à morte e à morte de cruz, para fazer resplandecer aquele desígnio de amor inscrito no ato da criação. Projeto de amor constituído pelos “laços” de que o Papa fala: laços verticais, entre nós homens e o Pai Criador, e laços horizontais, que nos unem a todos os seres, em primeiro lugar o laço da fraternidade. Este é o tema da nova carta encíclica do Papa, da qual até agora o mundo conhece apenas as duas primeiras palavras, tiradas de uma citação de São Francisco de Assis: «Fratelli tutti» (“Todos irmãos”). Este é um nó, o dos vínculos, central para o Papa, que o abordou muitas vezes; e também na sua Mensagem para o dia mundial das comunicações sociais convidou os homens a redescobrir o gosto pela narração de histórias, daqueles “tecidos” que mantêm unidos os fios que ligam todas as existências umas às outras no espaço, assim como todas as gerações no tempo.

É sobretudo este o caminho da kenosis de Jesus, que se fez homem e viveu a condição humana em todas as suas dimensões. O crente, a Igreja, são convidados a fazer o mesmo; não podem agir de outro modo. É muito significativo o detalhe que, no Evangelho de Mateus, Jesus usa o termo “irmãos” para indicar os seus amigos na última página, no final, depois da sua paixão e morte, quando ressuscita e diz: «Ide dizer aos meus irmãos que partam para a Galileia, lá me verão» (Mt 28, 10). Quer dizer que ser “irmãos/irmãs” não é unicamente uma condição inicial, uma condição “herdada”, dado que todos têm uma origem comum na criação de Deus, mas é inclusive um processo, uma meta que deve e pode ser conquistada, mas contanto que compartilhemos em tudo, “a partir de dentro”, a vida dos outros seres aos quais já estamos unidos. Significa carregar a cruz (e por conseguinte também morrer) por amor aos outros seres. Portanto,  podemos dizer “irmãos/irmãs”, unicamente se tivermos contemplado o mundo a partir de dentro, não se tivermos olhado para ele de fora, como um espetáculo para julgar e talvez condenar.

Andrea Monda