· Cidade do Vaticano ·

Da Terra e do povo

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Homenagem ao bispo Pedro Casaldáliga Plá

18 agosto 2020

«Chamar-me-ão subversivo. E lhes direi: eu o sou. Por meu povo em luta, vivo. Com meu povo em marcha, vou». É o início de um poema de Pedro Casaldáliga Plá, bispo prelado emérito de São Félix, no Estado do Mato Grosso, falecido com 92 anos  no dia 8 de agosto em Batatais (São Paulo), devido a problemas respiratórios agravados pela doença de Parkinson da qual sofria há anos. E dom Pedro Casaldáliga foi realmente poeta e sobretudo “subversivo”, quando em 1968, missionário claretiano, deixou a Espanha natal e partiu definitivamente para o Brasil, escolha radical de vida e de fé; e quando, poucos dias depois de ter sido nomeado bispo (por Paulo vi, que sempre o defendeu), escreveu a sua primeira carta pastoral, Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social, que se tornou um texto profético, manifesto de denúncia para tutela dos povos indígenas, do meio ambiente, das mulheres, contra a pobreza, a escravatura, a marginalização, os latifundiários, a ditadura. Era o dia 10 de outubro de 1971 e o Brasil, cujo presidente da República era o general Emílio Garrastazu Médici, vivia um dos períodos mais difíceis da sua história, caracterizado pela violência e repressão. Dom Pedro ergueu-se como baluarte dos direitos dos mais frágeis e indefesos, em particular dos índios e dos camponeses sem terra: «Estas páginas, escreve na sua carta, são simplesmente o grito de uma Igreja amazônica, a prelazia de São Félix, no noroeste do Mato Grosso, contra o latifúndio e a marginalização social institucionalizada “de facto”. Por dever de pastores e por solidariedade humana», o silêncio já não pode ser tolerado. Dizer a verdade é «um serviço», o seu objetivo «libertar-nos».

Há quase 50 anos Pedro Casaldáliga Plá criou o sulco entre o antes e o depois, chamou a Igreja local para denunciar «erros e omissões», porque o ponto de referência é «o Evangelho» e também «o Vaticano ii, Medellín, o último Sínodo», o de 1971, dedicado ao tema O sacerdócio ministerial e a justiça no mundo. Citando um dos textos sinodais, ressalta que «o testemunho (função profética) da Igreja no mundo terá pouca ou nenhuma validade, se não demonstrar ao mesmo tempo a sua eficácia no compromisso pela libertação dos homens também neste mundo». Por outro lado, «a Igreja pode fazer todo o esforço para defender a verdade da sua mensagem mas, se não a identificar com um amor dedicado à ação, esta mensagem cristã corre o risco de já não oferecer qualquer sinal de credibilidade ao homem de hoje». A divulgação da carta pastoral — segundo o sociólogo José de Souza Martins «um dos documentos mais importantes da história social do Brasil» — foi proibida pela polícia federal e dom Pedro Casaldáliga foi ameaçado de morte (em 11 de outubro de 1976, numa prisão, uma bala provavelmente destinada a ele atingiu e matou o sacerdote jesuíta João Bosco Burnier, que estava em sua companhia) e de expulsão do país. Mas ele nunca partiu.

Nascido em Balsareny, na Catalunha, a 16 de fevereiro de 1928, de uma família de agricultores, em 1943 entrou na congregação dos Missionários, filhos do Coração Imaculado de Maria (Claretianos). Foi ordenado sacerdote em 31 de maio de 1952 em Montjuïc, Barcelona, e em 1968 transferiu-se como missionário para o Brasil. Paulo vi nomeou-o prelado de São Félix do Araguaia a 27 de agosto de 1971, ordenando-o bispo no dia 23 de outubro seguinte. Desde então, num Mato Grosso marcado pelo analfabetismo e pela marginalização social, onde os latifundiários eram os senhores, dom Pedro tornou-se “teólogo da libertação”, “profeta dos pobres”, “bispo do povo”. «Aqui, dizia, mata-se e morre-se mais do que se vive. Aqui, matar ou morrer é mais fácil, ao alcance de todos, do que viver». O seu objetivo era um modelo de Igreja comprometida, em ação, através de pequenas comunidades de base, espalhadas pelas estradas, com estrutura participativa, corresponsável e democrática. Neste sentido, observa o teólogo Juan José Tamayo, Pedro Casaldáliga «é um exemplo de globalização a partir de baixo, das vítimas, ou seja, da alterglobalização da esperança perante o pessimismo instaurado na sociedade». Uma existência despendida pelas causas de libertação dos povos oprimidos que, dizia dom Pedro, «são mais importantes do que a minha própria vida».

Na exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazonia, o Papa Francisco cita um dos seus bonitos poemas: «Flutuam sombras de mim, madeiras mortas. Mas a estrela nasce sem censura sobre as mãos deste menino, especialistas que conquistam as águas e a noite. Bastar-me-á saber que Tu me conheces inteiramente, ainda antes dos meus dias». Navegando ao longo do Tocantins amazônico, ler as águas como um sonho, tendo o Senhor como guia: a Terra e Deus. Para dom Pedro Casaldáliga Plá, verdadeiramente um todo indissolúvel.

 Giovanni Zavatta