· Cidade do Vaticano ·

Projeto de um novo mundo

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Conversa com o Nobel da paz Muhammad Yunus, idealizador do microcrédito

14 julho 2020

A vacina contra a Covid-19 deve ser declarada “bem comum global”


«Quando soubermos para onde ir, chegar lá será muito mais simples». Muhammad Yunus, economista, prémio Nobel da Paz de 2006 e idealizador do microcrédito moderno, tem ideias bastante claras sobre o que fazer num mundo potencialmente alterado pela pandemia. Entretanto, proteger todos, o mundo inteiro, contra o vírus, graças a uma vacina que seja declarada “bem comum global”. Depois, simplesmente, projetar um mundo muito diferente.

O senhor salientou, em sintonia com o Papa, que após a crise da Covid-19 será necessário encontrar um novo modelo. Não podemos voltar atrás; nada será como antes. Na sua opinião, de que forma pode ser compreendida esta mensagem por quem está no poder?

Estou muito satisfeito por ver que o Papa Francisco pensa exatamente como eu. Voltar ao velho mundo seria um ato louco, porque o mundo de onde viemos é muito inóspito, aterrador, um mundo que se mata com o aquecimento global, a concentração da riqueza, a inteligência artificial que privava os seres humanos do trabalho. Nessa altura, tudo convergia e só restavam alguns anos antes do colapso do mundo inteiro. Do ponto de vista do aquecimento global, restava muito pouco tempo até que o mundo se tornasse invivível. O mesmo se aplica à concentração da riqueza, que é uma bomba-relógio despoletada que pode explodir política e socialmente, com raiva, e também à inteligência artificial, por causa da qual não haverá mais trabalho nem emprego para as pessoas. Não é o tipo de mundo ao qual gostaríamos de voltar. Esta é a questão. E o coronavírus fez-nos um grande favor, apesar de ter criado uma situação terrível para o planeta, porque parou a máquina na sua corrida para a morte. Portanto, hoje, pelo menos, não estamos a correr para lado nenhum. O comboio parou. Podemos apenas olhar à nossa volta, podemos sair do comboio que nos levava até um determinado destino e decidir para onde queremos ir a fim de encontrar certeza e segurança. Não queremos certamente voltar atrás: esta é a questão. Não voltar atrás significa que temos a oportunidade de ir para outro lugar.

É o que o senhor diz. Mas se as pessoas que estão nos altos escalões e aqueles que tomam as decisões não o aceitarem?

Bem, se as pessoas quiserem ir para outro lugar, aqueles que decidem não têm muita escolha. No final são as pessoas que decidem para onde ir. É a democracia. Se a opinião pública se tornar forte, não creio que isto possa ser ignorado. Procuro encorajar os jovens a olhar para a situação e depois tomar uma decisão. São os adolescentes que marcham pelas ruas atrás das bandeiras de “Fridays for Future”. Eles dizem ao mundo que estamos no caminho errado. Acusam os seus pais de serem irresponsáveis e de os empurrarem para um mundo onde não têm futuro. Digo-lhes: esta é a vossa oportunidade. Podeis construir o mundo que quiserdes. Por isso, uni-vos e fazei-o. Trata-se de convencer as pessoas em geral e os jovens em particular. É uma questão de comunicação. Se o Papa Francisco assumir a liderança, a mensagem torna-se imediatamente poderosa. As pessoas respeitam o seu pensamento a nível global, independentemente da própria afiliação religiosa. Recordemos o impacto que as suas opiniões tiveram nas negociações de Paris para se chegar a um consenso sobre a crise ambiental global. O seu apelo ao mundo ajudou a chegar ao Acordo de Paris. O Papa Francisco pode desempenhar um papel muito importante neste momento. Peço-lhe que desempenhe este papel com firmeza.

Numa recente palestra na Pontifícia Universidade Lateranense o senhor salientou que a retomada após a Covid-19 está cheia de oportunidades, mas apenas se passar por uma nova consciência social e ambiental, uma utilização da economia não como uma mera ciência para maximizar os lucros, mas como um instrumento para alcançar a felicidade dos indivíduos e da comunidade. Como podemos concretizar este objetivo?

Explicando às pessoas o que é este objetivo. O que estava errado, porque não devemos voltar atrás. As pessoas conhecem os perigos do velho mundo, mas não estão conscientes das oportunidades criadas pela crise do coronavírus para evitar esses perigos. Não creio que a economia praticada no mundo de hoje mereça ser definida ciência social. De social não tem nada. A sua única preocupação é a maximização do lucro pessoal. Não se preocupa com o interesse comum do povo. Preocupa-se apenas em como aumentar a riqueza das nações sem se perguntar quantas, ou quão poucas, pessoas recebem essa riqueza. Nem sequer está preocupada com a segurança do planeta. No máximo, podemos chamar a economia uma ciência dos negócios, não uma ciência social. A ciência social deve abordar os problemas da sociedade, o que é bom para as pessoas, o que é bom para o planeta, e deve apresentar ideias que melhorem a vida das pessoas e torne o planeta mais seguro. Para a consecução de um novo mundo, devemos redesenhar a economia e dar-lhe uma orientação social. Deve ser uma economia guiada pela consciência social e ambiental. A economia atual nunca reconheceu o interesse coletivo. Baseia-se apenas no próprio interesse. Se incluirmos o interesse coletivo na economia, ela torna-se imediatamente diferente. Precisamos de dois tipos diversos de economia, um para maximizar o lucro e outro para resolver os problemas comuns das pessoas, sem lucro pessoal. A mesma pessoa pode fazer as duas coisas. Não precisamos de duas pessoas diferentes para o fazer. Num tipo de economia uma pessoa cuida de si própria e no outro cuida dos demais e do planeta. Defino este novo tipo a economia social. Esta é a economia que se compromete a resolver os problemas das pessoas e do planeta sem qualquer intenção de lucro pessoal. Esta nova economia será a base para a construção do novo mundo.

O senhor lançou uma iniciativa por uma vacina que seja gratuita e acessível a todos. Como pensa que é possível afastar a pesquisa médica, especialmente em situações como esta, da lógica do lucro?

Deveríamos aprofundar mais a questão. Não é correto dizer que as empresas estão a gastar dinheiro para desenvolver a vacina. Na maioria dos casos são as universidades que contribuem com os seus conhecimentos e criatividade e os governos que pagam grandes somas de dinheiro para a pesquisa, especialmente a de vacinas. Por que deveriam as universidades renunciar ao seu direito? Por que deveria o governo renunciar ao seu direito? Não estou a negar às empresas um retorno justo dos seus investimentos. Podemos discutir a dimensão do investimento e qual deve ser o lucro justo. As empresas podem ser pagas para fazer da vacina um bem comum global. Mas a propriedade deve pertencer ao povo, não a uma empresa. Deve ser um bem open source, de modo a poder ser produzida em qualquer lugar, por qualquer pessoa, respeitando todos os requisitos regulamentares. Se quisermos torná-la acessível a pessoas de todo o mundo ao mesmo tempo, ela deve ser produzida em todo o mundo. Não apenas num ou dois lugares, como vemos que está a ser feito agora. Uma empresa já declarou que as primeiras vacinas produzidas serão entregues aos Estados Unidos, outra que as primeiras irão para a Europa. E quanto ao resto do mundo? Se não se der a vacina ao resto do mundo, haverá outro problema. Será criada imediatamente uma nova mega-atividade de produção e venda de vacinas falsas. Levará tempo para que a verdadeira vacina chegue a biliões de pessoas, e a dificuldade de acesso a ela conduzirá a esta situação. As pessoas nos países pobres serão vítimas deste comércio, uma vez que não podem competir com os principais fornecedores no mercado das vacinas genuínas. Antes que surja uma tal situação, o mundo deve declarar a vacina como um bem comum global. Ontem, fiz um apelo aos líderes mundiais, que também foi assinado por muitas pessoas importantes de todo o mundo. Repito este apelo aqui, a fim de pressionar os governos a fazer esta declaração o mais rapidamente possível: tornai a vacina para a Covid-19 um bem comum global. Peço ao Papa Francisco que apoie esta iniciativa com a sua poderosa voz.

Como disse o Papa, a pandemia não é apenas uma tragédia planetária, representa uma oportunidade para desenvolver um futuro diferente. Como imagina este futuro ou como vê o novo equilíbrio mundial?

Concordo plenamente com o que o Papa disse. Ele fez uma afirmação clara: não devemos voltar atrás. O Papa Francisco deve continuar a repeti-lo muito corajosamente para que todos o ouçam e as pessoas possam refletir e pôr em prática. Ele é agora a voz moral de todo o mundo. Por isso é muito importante que ele continue a insistir no assunto. Sim, é possível mudar este mundo. Os homens podem fazer o que quiserem. É a força da sua vontade que o tornará possível. Quando decidirmos não voltar atrás, devemos desenvolver políticas, instituições e estruturas para garantir que seguimos a direção justa e chegaremos lá rapidamente. Temos de pedir aos governos que canalizem os seus fundos de salvamento para o apoio a iniciativas destinadas a não voltar atrás em vez de acelerar o processo oposto. Os recursos não são um problema: alguns já foram mobilizados para fins errados. O compromisso é de os destinar à causa justa. Precisamos de um novo mundo construído por nós. Que tipo de mundo deve ser? É claro que deve ser um mundo muito diferente daquele do qual provimos. Não haverá aquecimento global no novo mundo. O Papa Francisco já falou sobre isto. Agora devemos torná-lo realidade. Não é simplesmente uma declaração feita pelo Papa: devemos todos unir-nos e traduzi-la em realidade. O novo mundo será um mundo com zero emissões líquidas de carbono. Será um mundo com uma concentração zero de riqueza. Será um mundo onde partilharemos a riqueza em vez de a monopolizarmos como fazemos hoje. Será um mundo com desemprego zero. O novo mundo será quase o oposto do mundo atual. Quando soubermos para onde ir, chegar lá será muito mais simples. Passar para o mundo novo, significa que devemos verificar quais são as atividades que causam o aquecimento global, a concentração da riqueza ou o desemprego. Devemos criar postos de controlo para evitar que as atividades erradas entrem neste novo mundo. Não podemos levar a economia dos combustíveis fósseis para o novo mundo. Devemos dizer: adotai energia renovável se quiserdes permanecer no setor energético. Se é uma empresa que produz poluição, digamos-lhe que adote atividades que criem uma economia circular.

Acha que isso pode acontecer?

Se nos decidirmos, pode acontecer. É uma questão de decidir. Estamos a enfrentar o maior desafio existencial. No momento em que a crise chegou ao seu auge, devemos propor as soluções mais ousadas.

Considera que a espiritualidade é importante para esta mudança, a força para provocar esta mudança?

Sim, é muito importante. O coronavírus mudou tudo, criando uma situação em que não nos podemos encontrar fisicamente. Somos forçados a permanecer fechados dentro das nossas casas e o distanciamento social tornou-se parte das nossas vidas. Sendo privados de proximidade física, isto torna-se uma boa oportunidade para alcançar a unidade espiritual.

Andrea Monda