· Cidade do Vaticano ·

O Papa e o meu pai unidos pelo mesmo sonho

Encontro com o Papa Francisco a 12 de março de 2018

Entrevista a Bernice Albertine King

30 junho 2020

A comunidade afro-americana celebrou o Juneteenth, dia que comemora o fim da escravidão, proclamado a 19 de junho (June Nineteenth) de 1865, quando soldados da União chegaram a Galveston, Texas, e decretaram o fim da Guerra civil. Este aniversário, que para milhões de negros na América é reconhecido como o Freedom Day, foi vivido este ano num clima particular devido aos protestos desencadeados pelo bárbaro assassinato de George Floyd, afro-americano, por um agente de polícia. Sobre o compromisso com a igualdade, a cultura da paz e o valor da não-violência, “L’Osservatore Romano” e Vatican News entrevistaram Bernice Albertine King, filha de Martin Luther King jr. Uma apaixonada ativista dos direitos humanos, como o seu pai, e presidente do King Center em Atlanta, Bernice Albertine vê uma grande sintonia entre o seu pai e o Papa Francisco, que encontrou duas vezes no Vaticano, em 2018.

Não só os Estados Unidos, mas o mundo inteiro ficou chocado com a morte de George Floyd. Pensa que desta vez aquela mudança, que já deveria ter acontecido após tantas mortes de afro-americanos, pode finalmente ocorrer?

Penso que o mundo já estava sob tensão suficiente devido à pandemia de Covid-19 e por isso o vídeo que mostrou como George Floyd foi assassinado de forma tão cínica e cruel tornou-se uma verdadeira e incisiva acusação contra a América e o mundo. Milhões parecem ter-se apercebido, em todo o mundo — como o meu pai costumava dizer — que estamos perante a urgência feroz do “agora”. As forças da ordem, bem como organizações e associações de caráter religioso dirigem-se aos líderes negros para obter uma resposta à pergunta: “Que devo fazer para ser salvo?”. Algumas associações fornecem recursos incríveis às organizações, cujo trabalho está centrado na justiça social e na igualdade racial. Outras organizações perguntam como criar um clima cultural que leve a uma verdadeira igualdade racial, desde o nível de gestão até às empresas que favorecem o trabalho das minorias. Muitos departamentos de polícia reexaminam as suas políticas; alguns deles já começaram a reconsiderar o modo como se pode e se deve levar a cabo tal compromisso nas comunidades, além da atividade de vigilância, incluindo a preocupação pelos serviços sociais. Creio que desta vez as reações e respostas serão mais amplas e entusiastas, e haverá mais brancos do que nunca que se unirão aos protestos. Se estivermos mais unidos e concentrarmos a nossa atenção em objetivos estratégicos, seremos certamente mais eficazes na causa da justiça.

Para além do racismo “evidente”, reconhecido em situações trágicas como esta, há outra forma de “racismo que não é notícia”: o racismo no trabalho, na educação, nas condições de vida. Nos Estados Unidos, a Covid-19 atingiu muito mais a comunidade afro-americana do que a comunidade branca. Como será possível derrotar este racismo “invisível”?

Antes de mais nada, quero dizer que é a recusa das pessoas a ver, que leva o racismo sistémico e institucional a parecer invisível. Quanto mais quisermos ver e fazer mudanças, tanto mais evidente será a natureza destrutiva e desumanizante do racismo. Acho que o primeiro passo para o derrotar é recusarmo-nos a fechar os olhos e, ao contrário, recolher informações sobre este assunto e conhecer as raízes, as causas e as manifestações do racismo. A informação e a educação são o primeiro e segundo passos da Mudança Social Não Violenta. Então penso que deveríamos comprometer-nos a cumprir o que no seu livro Where Do We Go From Here: Chaos or Community? foi definido pelo meu pai como “a nossa tarefa incómoda”: disse que devemos «descobrir como organizar a nossa força num poder irresistível, a fim de que o governo (e outras instituições e sistemas de poder) já não possam eludir as nossas exigências».

Há 57 anos, o seu pai pronunciou o histórico discurso “I have a dream” — “Tenho um sonho”. Este sonho ainda parece longe de se realizar, mas todos dizem que a ele não se pode renunciar. O que faria o seu pai hoje, numa situação como a que estamos a viver?

Penso que o meu pai se orientaria pela sua filosofia da não-violência, em sintonia com o seu seguimento de Cristo. Acho que nos recordaria como chegamos a este ponto, a história de violência, racismo e injustiça que permeia a nossa nação e aquilo a que ele chamava a “casa- mundo”. Em seguida, abordaria os jovens para apoiar o seu compromisso de protesto, com estratégias de apoio à organização e mobilização para promover uma mudança social sustentável e não violenta. Depois, pediria aos “influencers” na política, arte, meios de comunicação social, entretenimento, justiça penal, cuidados de saúde e educação para garantir a igualdade e a justiça entre as raças. Pediria também às Igrejas que conformem a sua profissão de fé com obras que criem circunstâncias justas e iguais para os negros, para as comunidades economicamente marginalizadas, não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. E de novo, como já tinha feito muitas vezes, repetiria que não se pode curar a violência com a violência, porque esta é — como afirmou — uma espiral que nos arrasta para baixo. Certamente creio que nos exortaria a abraçar a não-violência, porque é estratégica, corajosa, centrada no amor e organizada, a fim de construir a Comunidade do Amor, que inclui a erradicação daquilo a que ele definia o “Triplo Mal”, isto é, o racismo, a pobreza e o militarismo.

Após a morte de George Floyd, o Papa Francisco fez um vigoroso apelo, sublinhando que não devemos fechar os olhos ao racismo. Ao mesmo tempo, recordou que a violência conduz apenas à autodestruição. Como interpretou estas palavras, que estão tão fortemente em sintonia com as do seu pai?

Concordo com o Papa Francisco: a violência leva apenas à autodestruição. Os meios que utilizamos devem ser coerentes com o objetivo que queremos alcançar, e se este objetivo é a paz, certamente não podemos alcançá-la através de métodos violentos. E isto está sem dúvida em sintonia com o pensamento do meu pai. Ele afirmava — porque acreditava, como eu — que “a não-violência é a resposta aos problemas políticos e morais cruciais do nosso tempo”. No seu último discurso — “Eu subi ao topo da montanha” — que proferiu na noite anterior ao seu assassinato, disse: «Já não se trata de escolher entre a violência e a não-violência no nosso mundo; agora é uma questão de escolher entre a não-violência e a não-existência. Chegamos a este ponto». É o mesmo ponto em que nos encontramos ainda hoje. Estamos perante a escolha entre o caos e a comunidade. Se abraçarmos a violência, escolheremos o caos, que acabará por levar à autodestruição da nossa “casa-mundo”. Se abraçarmos a não-violência, poderemos progredir na construção de um mundo mais justo, igualitário, humano e pacífico.

Martin Luther King disse: a justiça, “na sua melhor forma, é o amor que corrige tudo o que é contrário ao amor”. Este é o cerne da mensagem da não-violência, personificada pelo seu pai. Como podemos construir uma “revolução da ternura”, como a define o Papa Francisco?

Creio que realizar uma “revolução da ternura”, como lhe chama o Papa Francisco, ou uma “revolução dos valores”, como dizia o meu pai, depende da medida em que nos apercebemos de que uma revolução como esta implica um processo de tomada de consciência. Devemos aprender a conhecer-nos mais uns aos outros, aprender a conhecer as condições da humanidade, aprender — citando o meu pai —  a  “viver juntos como irmãos e irmãs” e não a morrer juntos como loucos; e aprender a lutar para destruir a injustiça e a desumanidade, sem nos destruirmos uns aos outros. Penso que nisto consiste a não-violência. A “Kingian Nonviolence”, a que The King Center chama “Nonviolence365tm”, é uma filosofia de pensamento e de ação, que inclui seis princípios e seis passos, que nos podem guiar nesta revolução.

O movimento “Black Lives Matter” envolveu o mundo inteiro. Inúmeras pessoas, especialmente jovens, protestam contra o racismo e a discriminação racial em muitas capitais europeias e também noutros países. Quais são as suas esperanças para o futuro? Acha que todos seremos capazes de dar um passo em frente no desafio da fraternidade humana?

Estou confiante de que conseguiremos mobilizar as nossas energias para nos concentrarmos no objetivo último, que é construir a Comunidade do Amor, que não é uma utopia. Como dizia a minha mãe, Coretta Scott King, a Comunidade do Amor é a visão realista de uma sociedade que pode ser construída, de uma sociedade em que existem problemas e conflitos, mas que podem ser resolvidos de forma pacífica e sem rancor. Na Comunidade do Amor, o cuidado e a compaixão guiam as iniciativas políticas que apoiam a erradicação global da pobreza e da fome, bem como de todas as formas de preconceito e violência. Se este for o nosso objetivo comum, determinado e definitivo, então creio que poderemos enveredar pelo caminho da não-violência para o alcançar. Temos a capacidade e a enorme paixão para o fazer. Agora devemos pôr em ação toda a nossa força de vontade para construir a Comunidade do Amor.

Alessandro Gisotti