· Cidade do Vaticano ·

Uma luz a seguir no pós-emergência

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Entrevista ao cardeal Cláudio Hummes

26 maio 2020

Os efeitos da pandemia sobre as populações mais frágeis da Amazónia, a relação entre o homem e a Criação, a contribuição da Laudato si’ para a edificação de um novo modelo económico e social são alguns dos temas abordados nesta entrevista concedida pelo cardeal Cláudio Hummes, prefeito emérito da Congregação para o clero.

Que impacto teve  esta pandemia  na vida das populações do Brasil, no Continente latino-americano e, sobretudo, na Amazónia?

O impacto foi e ainda é devastador, e continua a suscitar grandes incertezas para o futuro. Além disso, há grande angústia e sofrimento por causa das inúmeras mortes no âmbito do colapso do sistema de saúde. Os povos indígenas sentem-se particularmente ameaçados, porque têm um sistema imunitário mais frágil e convivem em contato mais estreito uns com os outros, além de serem esquecidos e abandonados pelos governos no que diz respeito aos cuidados de saúde.

Pode oferecer-nos algumas reflexões sobre a relação social, cultural, económica e ambiental entre esta pandemia e os postulados da Laudato si’?

Um dos conceitos centrais da Laudato si’ é a ecologia integral, a qual demonstra que tudo está interligado. Esta interligação sobressai claramente na manifestação da pandemia da Covid-19, por exemplo, entre a intervenção humana predatória e devastadora sobre a natureza e a reação da natureza ferida, entre a salvação das vidas e a salvação da economia, entre a política que deve assistir todos da mesma maneira e a atenção especial aos mais frágeis e socialmente desfavorecidos, como os povos indígenas e os pobres em geral.

Com base na sua visão pastoral e pós-sinodal, na sua opinião quais serão as linhas do ministério cristão nos próximos tempos?

É difícil prever como vai ser a situação do pós-pandemia. No entanto, todo o processo de preparação e realização do Sínodo para a Amazónia mostrou como será importante uma Igreja aliada e próxima das comunidades e das pessoas. Isto será ainda mais válido depois da devastação causada pela pandemia. Será necessário reconhecer verdadeira e concretamente a importância da preservação da criação como “novo caminho” da Igreja, especialmente na Amazónia. Outra urgência consistirá em suscitar a consciência de que a família humana deve ser solidária, reconhecer os seus limites e as suas fragilidades, não apostar no mito de um progresso ilimitado, prescindindo de Deus.

Podemos pensar que começa uma nova era social, económica, política e humana, com conceitos e guias deveras contraditórios? Se for assim, como vê o papel do pontificado de Francisco nesta nova era?

Provavelmente num primeiro período pós-pandemia a humanidade será mais solidária e menos predatória e gananciosa, como aconteceu no pós-guerra. Mas parece que a história ensina que tais períodos são um parêntese, e pouco a pouco a humanidade esquece e recupera toda a sua sede de posse e poder. O Papa Francisco será uma luz, tanto religiosa como política e cultural, que nos guiará nesta reconstrução pós-pandemia. A Laudato si’ é uma das luzes que Francisco acendeu. O Papa repete sempre que não devemos permitir que nos roubem a esperança e que Deus nos surpreenderá sempre de maneira positiva, porque nos ama incondicionalmente e vem ao nosso encontro para nos encorajar e para nos libertar do mal.

Marcelo Figueroa