· Cidade do Vaticano ·

Um jornal invencível e o desafio que temos diante de nós

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07 abril 2020

O jornal que estais a ler não o tendes nas mãos. Estais a ler na Internet, especificamente no site do jornal renovado e melhorado, através de um dispositivo móvel ou no vosso computador pessoal.

Esta é a terceira vez que se teve que suspender a impressão em papel  na longa história da L’Osservatore Romano: a primeira vez foi por alguns dias, em setembro de 1870, por ocasião da brecha da Porta Pia e da tomada de Roma, a segunda ocorreu em setembro de 1919, e durou cerca de dois meses por causa de uma greve da tipografia. No entanto, estes dois precedentes não são comparáveis com a situação que vivemos hoje, pela simples e decisiva razão de que nessas duas ocasiões a suspensão equivaleu a uma interrupção real na produção do jornal, e  hoje não. O que ontem poderia ser visto como um sinal mortal infligido ao jornal diário, hoje deve ser lido como um sinal da vitalidade deste jornal que se adapta imediatamente à nova situação dramática que o Vaticano, Roma, Itália e o mundo estão a viver.

Nestes dias escrevi uma carta aos meus colegas da redação na qual dizia (e tenho o prazer de a repetir aos leitores, afinal somos todos “colegas”, estamos todos “coligados”, fazemos parte da mesma comunidade): «Mais do que uma “decisão” é uma questão de reconhecimento da realidade. Como o Papa costuma dizer: a realidade é superior à ideia».  E um bom jornal, um jornal “invencível” como  L'Osservatore Romano, não pode viver fora da realidade. Tem que caminhar dentro dela para a transformar. A realidade é que se morre por um inimigo invisível. E que para vencer esta guerra temos que nos adaptar a uma vida diferente durante algum tempo. Mas não devemos adaptar-nos a viver sem informação. Podemos não encontrar o jornal nos quiosques, ou podemos não recebê-lo pelo correio, mas não devemos deixar de o ler. Não podemos deixar de o escrever.  L’Osservatore Romano é invencível, porque nem sequer esta terrível pandemia o derrotou: hoje estamos vivos e presentes na Rede e vós, leitores, continuais a ler as nossas páginas, aliás, esta é uma oportunidade para alargar as fileiras dos nossos leitores e no ambiente digital não há, de facto, fronteiras!

Ontem, na primeira página, publiquei uma reflexão aguda e preciosa da teóloga Stella Morra que começava com estas palavras: «A história da cultura  mostra-nos que é atividade humana e humanizadora transformar (com todo o esforço que isso implica) o cronos em kairos». Este é o desafio que se coloca diante de um jornal que pretende ter uma alma espiritual e um valor cultural forte, inspirada pela nossa consciência formada à luz do Evangelho: captar o novo que já se revela misteriosamente diante dos nossos olhos, muitas vezes nublados, cansados pela dureza da vida e voltados para o passado, e por isso incapazes de ler os “sinais dos tempos”.  A profecia de Isaías é  válida hoje como e mais do que ontem: «Eis que vou realizar uma obra nova: / a qual já começa: Não a vedes? / Vou abrir um caminho no deserto, / e fazer correr os rios na estepe» (Is 43, 19). Estamos prontos para aceitar esta novidade? Para encontrar a estrada aberta no deserto? Para saciar a nossa sede na água dos rios da estepe? Stella Morra tem razão, não podemos continuar a «flutuar nas coisas (e muitas vezes nas pessoas), porque “muitas vão passar”, equipemo-nos para encontrar soluções para os problemas que gradualmente surgem: como podemos continuar a fazer quase tudo o que fizemos antes? Como criar as condições para o podermos fazer novamente?». Este, aliás, é o valor do pontificado do Papa Francisco que sempre nos recordou o risco mortal de confiar na lógica do «sempre se fez assim». Devemos, portanto, combater aquela resignação arrepiante que se alimenta da própria necessidade humana de confirmação e segurança e enfrentar o mar aberto que a vida  abre diante de nós, mesmo e sobretudo neste tempo sério e perigoso. Tudo isto significa que quando voltarmos a imprimir L’Osservatore Romano no papel, espero  muito em breve, o faremos com espírito, criatividade e uma força maior do que hoje, e eu diria também com mais competência porque teremos explorado novas fronteiras e seremos mais peritos e revigorados pela nossa experiência. Com uma consciência: nesta luta que não é apenas tecnológica, mas também e sobretudo espiritual, não estamos sozinhos, nenhum crente está sozinho, nunca.

Andrea Monda