· Cidade do Vaticano ·

Entrevista ao sacerdote argentino Juan Gabriel Arias missionário em Moçambique

Em muitos países africanos lavar as mãos é ainda mais um luxo

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07 abril 2020

Enquanto a crise sanitária devida ao coronavírus absorve a atenção e os recursos dos países ricos com a força de uma centrífuga, a outra metade do planeta espera com grande preocupação pelo que está prestes a cair sobre ele. A África foi o último continente do mundo onde a pandemia chegou. Também aqui, no entanto, o coronavírus se infiltrou e há cada vez mais regiões com casos positivos. Para alguns países do continente, o coronavírus pode ser uma tempestade perfeita sob a forma de um problema de saúde e, sobretudo, uma crise económica para a qual não dispõe de uma rede de segurança. «Se o coronavírus se difundir em Moçambique, será uma verdadeira catástrofe», diz o padre Juan Gabriel Arias, sacerdote missionário argentino da missão de São Bento de Mangunde, uma pequena cidade a 240 quilómetros de Maputo, capital do país, e 35 de Xai-Xai, capital da província de Gaza. O padre Arias prefere focalizar a atenção no imediato: a falta de unidades de terapia intensiva e respiradores e o medo que as pessoas sentem de «morrer como cães porque os hospitais não dispõem das infraestruturas necessárias». O alerta é o máximo. Moçambique decidiu interromper os voos para países onde se verificam contágios e impor uma quarentena obrigatória de um mês em todo o país como medida preventiva.

O principal problema, porém, é a falta de recursos, tanto materiais como humanos, no sistema de saúde. A diretora nacional da Saúde pública do Estado africano, Rose Marlene, admitiu abertamente à Agência Efe que o país não tem «a capacidade de abordar e diagnosticar o coronavírus. Temos outros problemas de saúde neste momento». De facto, Moçambique enfrenta diariamente altas taxas de sida, malária e tuberculose, com 0,075 médicos por mil habitantes e infraestruturas inadequadas para o isolamento dos doentes.

Perante a epidemia de coronavírus que se está a propagar em alguns países africanos, o cenário em Moçambique está a mudar?

Certamente. Três casos foram registados a 26 de março. Ao primeiro, outros dois foram rapidamente adicionados. O primeiro contágio local foi o de uma  moçambicana infetada por uma pessoa sul-africana. Os hospitais não têm camas nem respiradores, os médicos são poucos e serviços como a água corrente são um luxo. O coronavírus está a propagar-se em dezenas de países africanos e as previsões dos especialistas são dramáticas. Embora o governo tenha tomado medidas urgentes e restringido a entrada no país, colocando em quarentena pessoas provenientes do estrangeiro, nalgumas áreas a preocupação é pelas pessoas que pensam que podem escapar à quarentena se se deslocarem de uma região para outra. Penso que esta será a principal causa de contágio. Particularmente na minha área, onde existe uma enorme mobilidade de trabalhadores entre a África do Sul e Moçambique. Os jovens pensam que são imunes ao coronavírus. É uma situação difícil.

Como está a reagir a comunidade de Mangunde?

As pessoas têm medo de cair novamente numa situação semelhante à que viviam no momento da guerra, quando todas as famílias choravam a morte de um parente ou ente querido. Eles pensam que a mesma coisa acontecerá, há muito medo e muito temor entre a população de «morrer abandonados como cães». Eles também têm medo porque entendem que o sistema de saúde é incapaz de lidar com uma crise desta magnitude. Lembremos que quando se cria um surto de cólera ou algum outro problema similar, não há camas disponíveis para todos. Na província de Gaza, onde se encontra a minha comunidade, o hospital provincial mais próximo fica a cerca de quarenta quilómetros de distância. Uma unidade de terapia intensiva com 10/12 camas acaba de ser aberta ali para atender uma população de dois milhões de pessoas. E temos relativamente sorte porque há outras comunidades que têm de percorrer 700/800 quilómetros para aceder a um hospital. O problema é que não há respiradores, nem oxigénio.

Qual é a situação nas cidades agora? Que medidas teve de tomar para lidar com esta situação excecional?

Em muitos países africanos lavar as mãos já era um luxo, agora é ainda mais. Com a pandemia a bater à porta, este luxo torna-se uma necessidade urgente. E sabemos que a água é um dos elementos mais importantes na luta contra a infeção pelo vírus, e aqui é um bem raro. Na minha aldeia a água vem de um poço onde só há uma bomba e para onde vão mães e filhos. Todos eles se concentram em torno daquela fonte de água, o que faz dela um perigoso foco de contágio. Não só porque todos tocam na alavanca da bomba, mas também porque se juntam muitas pessoas. Por isso alertei as autoridades, que sugeriram que colocássemos um balde de água com sabão para lavar as mãos antes de tirarmos água do poço e depois, outro com água e lixívia para desinfetar cada vez que uma pessoa o usa. Outra questão importante é a prevenção. Não há eletricidade aqui, por isso não há televisão nem rádio. E as pessoas não sabem como se  prevenir. Formamos um primeiro grupo de jovens para difundir os comportamentos a serem seguidos para a prevenção do coronavírus. Neste momento, eles já estão a fornecer informações às famílias. Visitam as casas e deixam um folheto informativo. Todos os dias eles percorrem uma área.

Na Itália, padres e fiéis morrem, sem missa nem rito fúnebre. O coronavírus está a causar a morte de muitos sacerdotes. Há muito tempo que está na linha de frente, tem visto guerras, epidemias e desastres naturais. Está a pensar em suspender as suas atividades em Moçambique neste momento?

Nunca, nunca. Se a epidemia chegar, tenho que ficar perto da minha comunidade para administrar a extrema unção e dizer adeus aos «nossos» mortos nos funerais. E se eu perder a minha vida no processo, que assim seja. Que poderia ser melhor do que dar a minha vida exercendo o meu ministério sacerdotal?

Silvina Pérez