· Cidade do Vaticano ·

A noite e a luz de um amor humilde, criativo e heroico

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07 abril 2020

«Convém que Eu faça as obras d'Aquele que Me enviou, enquanto é dia; a noite vem, na qual ninguém pode trabalhar»  (Jo 9, 4). Assim se lê no Evangelho de João, que nos acompanha nestes dias de preparação para a Semana Santa. Jesus refere-se obviamente ao próprio momento em que é preso e, portanto, a sua obra será  interrompida definitivamente, de facto no capítulo 13 do mesmo quarto Evangelho o evangelista observa, no momento em que Judas deixa o cenáculo para ir organizar a traição, a expressão «tendo, pois, tomado o bocado de pão... saiu apressadamente. E era noite» (Jo 13, 30). Mas as palavras de Jesus hoje, no final desta Quaresma marcada pela quarentena por causa da pandemia, assumem um valor e um significado ulteriores. De facto, poder-se-ia pensar que, nestes dias, a Itália, e com ela uma boa parte do mundo, já se encontra na escuridão de uma “noite” que impede ou limita fortemente qualquer tipo de ação. Encontramo-nos todos ou quase todos fechados nas nossas casas, obrigados a permanecer ali durante um tempo incerto, que de semana para semana se prolonga em vez de diminuir, sem qualquer possibilidade de movimento a não ser dentro de casa. Fomos todos apanhados de surpresa: a modernidade foi marcada pelo movimento, pelo homem que se tornou “faber”, “artesão” da própria fortuna, do próprio destino; o iluminismo já no título indicava o fim da noite, a possibilidade  para o homem de se mover guiado pela luz da razão onde quer que ele quisesse, afastando qualquer escuridão e com ela os medos e as tristezas (“Hoje a felicidade é uma ideia nova na Europa” disse Saint-Just na Convenção durante a revolução francesa), e no final e mais ainda a pós-modernidade foi afirmada pela velocidade deste movimento, um dinamismo tão otimista e ao mesmo tempo convulsivo que torna tudo (antes de tudo as relações) efémero, precário, líquido.

Agora tudo parou, tudo parece estagnar. Esta “imagem parada” que bloqueou o brilhante filme de ação que o mundo ocidental estava a interpretar, uns mais convencidos, outros menos, obriga-nos, entre outras coisas, a redefinir o conceito de “ação”, daquela obra de que Jesus fala. E a pergunta então é dirigida precisamente aos seguidores de Jesus de Nazaré: o que e como devem fazer hoje, no meio de uma paralisia devido à emergência de saúde? Quais ações  podem e devem fazer os cristãos, eles já sabem, são “as obras daquele que me enviou”, mas o que podem fazer num momento em que, fisicamente, é quase impossível mover-se, para se aproximar dos outros?

Na sexta-feira passada, o Papa apontou um caminho, o único passível de ser percorrido hoje por um cristão, quando na mensagem de vídeo transmitida pela Rai Uno disse: «Tentemos, se pudermos, fazer o melhor uso possível deste tempo: sejamos generosos; ajudemos os necessitados da nossa vizinhança; procuremos as pessoas mais solitárias, talvez por telefone ou por redes sociais; rezemos ao Senhor por aqueles que estão em dificuldade em Itália e no mundo. Mesmo que estejamos isolados, o pensamento e o espírito podem ir longe com a criatividade do amor. É disto que precisamos hoje: da criatividade do amor». E dois dias depois, na homilia para o Domingo de Ramos, voltou ao tema: «Estamos no mundo para O amar e amar os outros. O resto passa, isto permanece», exortando os cristãos a empreender com determinação o caminho do amor criativo, especificando outra característica deste amor, o serviço.

Aqui assume uma dimensão “heroica”, como ele explicou ao dirigir-se aos jovens: «O drama que estamos a atravessar impele-nos a levar a sério o que é sério, a não nos perdermos em coisas de pouco valor; a redescobrir que a vida não serve, se não se serve. Porque a vida mede-se pelo amor. Então, nestes dias da Semana Santa, em casa, permaneçamos diante do Crucificado – olhai, olhai para o Crucificado! – medida do amor de Deus por nós. Diante de Deus, que nos serve até dar a vida, peçamos a graça de viver para servir. Procuremos contactar quem sofre, quem está sozinho e necessitado. Não pensemos só naquilo que nos falta, mas no bem que podemos fazer […]. É certo que amar, rezar, perdoar, cuidar dos outros, tanto em família como na sociedade, pode custar; pode parecer uma via-sacra. Mas a senda do serviço é o caminho vencedor, que nos salvou e salva a vida. Gostaria de o dizer especialmente aos jovens, neste Dia que, há 35 anos, lhes é dedicado. Queridos amigos, olhai para os verdadeiros heróis que vêm à luz nestes dias: não são aqueles que têm fama, dinheiro e sucesso, mas aqueles que se oferecem para servir os outros. Senti-vos chamados a arriscar a vida».

Viver o serviço pode parecer viver na sombra, na noite, porque se está certamente fora da luz dos refletores, mas na verdade não há luz maior, não há fogo mais forte capaz de aquecer os corações, o próprio e o dos outros, como o do amor gratuito e generoso. Uma luz e um fogo que sejam capazes de permanecer quando tudo terminar, inclusive esta noite da pandemia, aliás de a contrastar já hoje, na qual ninguém, só aparentemente, pode agir.

Andrea Monda