· Cidade do Vaticano ·

A fé no Ressuscitado e a nossa tarefa

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14 abril 2020

O anúncio da Páscoa na hora escura que o mundo atravessa. Assim nos acompanhou Francisco com a homilia da Vigília e a mensagem Urbi et Orbi, convidando-nos à responsabilidade de nos sentirmos parte de uma única família.

Na homilia da Vigília pascal, celebrada na noite de Sábado Santo, numa Basílica de São Pedro vazia e envolta numa atmosfera surreal, o Papa citou a frase que, especialmente nas primeiras semanas da pandemia, muitas pessoas usaram, expondo-a nas janelas e varandas, reproduzindo-a em cartazes e letreiros: “Tudo vai correr bem”. Para quem perdeu um ente querido não é fácil repeti-la. Ainda menos a podem aceitar aqueles cujas famílias foram destruídas pelo vírus. Certamente  aqueles que, devido à emergência e à crise, já não têm um trabalho e não sabem o que dar de comer aos próprios filhos não ouvem de bom grado este slogan. Ou quantos sentem como um obstáculo a incerteza do porvir, do futuro que nos espera, o qual sabemos que vai ser difícil. Vai correr tudo bem?

«Nesta noite — disse o Papa — conquistamos um direito fundamental, que não nos será tirado: o direito à esperança. É uma esperança nova, viva, que vem de Deus. Não é mero otimismo, não é uma palmadinha nas costas, nem um encorajamento de circunstância. É um dom do Céu, que não podíamos obter por nós mesmos». «Tudo vai correr bem: repetimos com tenacidade nestas semanas — acrescentou Francisco — agarrando-nos à beleza da nossa humanidade e fazendo subir do coração palavras de encorajamento. Mas, à medida que os dias passam e os medos crescem, até a esperança mais audaz pode desvanecer. A esperança de Jesus é diferente. Coloca no coração a certeza de que Deus sabe transformar tudo em bem, pois até do túmulo faz sair a vida».

Portanto, nem tudo correrá bem, mas temos a certeza de que o Ressuscitado que saiu vivo do túmulo é o próprio Crucificado cujo corpo, dilacerado pelos flagelos e sacrificado no mais infamante dos suplícios, contemplamos na Sexta-Feira Santa. Deus respondeu à interrogação do porquê da dor e da morte, do sofrimento inocente, permitindo que o seu Filho a experimentasse, para que nunca mais ficássemos sozinhos. «Cristo, minha esperança, ressuscitou, disse o Papa na mensagem Urbi et Orbi. Não se trata de uma fórmula mágica, que faz desaparecer os problemas. Não! A ressurreição de Cristo não é isto. Mas é a vitória do amor sobre a raiz do mal, uma vitória que não “contorna” o sofrimento e a morte, mas os atravessa abrindo um caminho no abismo, transformando o mal em bem: a marca exclusiva do poder de Deus».

Mas a mensagem pascal de Francisco exorta-nos com realismo à nossa responsabilidade, pois «este não é o tempo da indiferença, porque o mundo inteiro está a sofrer e deve sentir-se unido ao enfrentar a pandemia». Ele exorta todos nós a colocar à disposição os cinco pães e os dois peixes que, graças ao milagre da multiplicação e da partilha, serviram para alimentar a multidão. Pois «este não é o tempo do egoísmo, porque o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas». Porque esta pandemia exorta todos nós a ser corajosos e a dizer sim à vida, como o Papa repetiu durante a Vigília: «Façamos calar os gritos de morte, de guerra, basta! Parem a produção e o comércio de armas, porque é de pão que precisamos, não de espingardas. Cessem os abortos, que matam a vida inocente. Abram-se os corações daqueles que têm, para encher as mãos vazias de quem não dispõe do necessário».

Neste contexto, há espaço inclusive para um apelo à Europa, a fim de que nesta hora escura as rivalidades não retomem vigor, mas que todos «se reconheçam como parte de uma única família e se apoiem mutuamente». Hoje, advertiu Francisco, «à sua frente, a União Europeia tem um desafio epocal, de que dependerá não apenas o seu futuro, mas também o do mundo inteiro. Não se perca esta ocasião para dar nova prova de solidariedade, inclusive recorrendo a soluções inovadoras. Como alternativa, restam apenas o egoísmo de interesses particulares e a tentação de um regresso ao passado, com o risco de colocar à dura prova a convivência pacífica e o progresso das próximas gerações».

Andrea Tornielli