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A voz de Pedro

· Começaram os exercícios espirituais da cúria romana ·

Com o convite a perguntar se realmente «ouvimos a voz de Pedro e dos mais frágeis, sobre quais bases tomamos as nossas decisões e se na nossa vida existem “retiradas estratégicas” para não seguir Jesus até ao fundo», o padre Giulio Michelini deu início aos exercícios espirituais com o Papa Francisco e a Cúria romana. «Paixão, morte e ressurreição de Jesus segundo Mateus» é o tema que o religioso da ordem dos frades menores quis propor para as suas meditações.

À Casa Divin Maestro, em Ariccia — onde também este ano se realizam os exercícios, que acabarão na manhã de 10 de março — o Pontífice chegou às 16h50 de domingo 5 de março, num dos dois autocarros que partiram do Vaticano com mais de setenta participantes nos exercícios espirituais. Foi recebido pelo pregador, pelo arcebispo Angelo Becciu, substituto da Secretaria de Estado, por mons. Leonardo Sapienza, regente da Prefeitura da Casa pontifícia, e pelo padre Valdir José de Castro, superior-geral da Sociedade de São Paulo, juntamente com a comunidade religiosa de Ariccia.

Já na reflexão introdutória, feita imediatamente depois da sua chegada, o pregador apresentou o conteúdo essencial das meditações, realçando em especial que «a vida de Jesus não é uma ficção». A sua existência terrena e a sua morte «estão intimamente ligadas e nós, com as nossas meditações, voltaremos sempre à Galileia, onde Jesus passou quase toda a sua vida, e ali encontraremos os vestígios que nos levarão a Jerusalém para falar da sua paixão, morte e ressurreição». Cada meditação, esclareceu, «começará com a exegese de um trecho tirado dos capítulos 26-28 do Evangelho de Mateus, relido à luz do ministério de Jesus na Galileia». E «da interpretação do texto passaremos a uma leitura de tipo existencial e espiritual».

Portanto, «estar com Jesus» é a primeira chave de leitura. Mas também «estar com Pedro», seguindo as indicações da Evangelii gaudium para «nos considerarmos todos dentro do grupo daqueles que devem ser reevangelizados». Por isso «vós, caros irmãos, estais no centro desta evangelização que o Senhor pensou para as vossas pessoas, que vos ocupais da Igreja e do próximo, mas também sois chamados, neste tempo especial, a estar separados, a sós, num lugar deserto, para parar, rezar e descansar um pouco».

«A confissão de Pedro e o caminho de Jesus até Jerusalém» (Mt 16, 13-21) foram o fio condutor da primeira meditação, na manhã de 6 de março. «Se o Senhor fez várias viagens à cidade santa, como se vê do Evangelho segundo João, para as três festas de peregrinação judaicas, aquela que numa certa altura Jesus anuncia, distingue-se de todas as demais: é a última, é o início da sua paixão, morte e ressurreição». Assim, «naquela que poderíamos chamar a “trilogia sinóptica do fim” — para a distinguir daquela que está no início dos Evangelhos sinópticos (João Batista; o batismo de Jesus; a tentação) — é importante observar a lógica e a cronologia dos acontecimentos: Pedro reconhece em Jesus o Messias; Jesus anuncia a sua paixão; a transfiguração no monte».

Mas «por que Jesus, como escreve o evangelista Mateus, “desde então” anuncia a sua última peregrinação a Jerusalém?», perguntou o religioso, recordando que «Jesus, que também fala como palavra do Pai, ouviu Pedro e acolheu a sua investidura messiânica, a qual depois será confirmada de modo muito humilde por uma mulher em Betânia».

Portanto, diversamente «das grandes figuras do passado, como Alexandre Magno que segundo as antigas biografias tomava decisões graças às práticas mânticas ou aos adivinhos, ou à oniromancia, Jesus não chega às suas convicções através da arte divinatória, nem graças às sugestões de magos, e nem sequer através dos sonhos: além disso, nos Evangelhos Jesus não sonha». Fá-lo, ao contrário, graças à oração, ao dom do Espírito e também porque o Pai lhe fala com voz humilde».

Na tradição judaica, «depois do fim da grande profecia, julgava-se que Deus se revelasse através das crianças, dos sonhos, dos loucos, em “voz baixa”: todos estes modos para dizer que a comunicação divina em geral não é estrondosa nem se impõe, mas é mais semelhante ao sussurro de uma brisa leve, que sopra para Elias no Horeb, do que ao trovão que rebenta os cedros do Líbano» (como se lê no salmo 29, 5). Eis que «Jesus, humilde de coração, ouve a voz de Pedro e, a partir de então, assume as consequências extremas das suas palavras e ações: já não se retira, mas anuncia a sua morte-ressurreição em Jerusalém».

Concluindo estas linhas de reflexão, o pregador sugeriu um autêntico exame de consciência, através de três perguntas diretas, para atualizar a personalizar a meditação inteira. «A primeira tem a ver com as decisões que tomo, não tanto as pequenas decisões diárias, mas as mais importantes para a vida. Com base em que critério faço o discernimento? Decido de repente, deixo-me levar pelo hábito, coloco-me a mim mesmo e os meus interesses pessoais antes do Reino de Deus e do próximo, ouço a voz de Deus que contudo falar de modo humilde?».

A segunda pergunta brota do conteúdo da meditação refere-se «àquela voz que fala como as crianças ou os loucos, que é débil como os sonhos, ou uma voz interior». Não foi por acaso que «o Pai falou também através da confissão de Simão: Jesus na sua humanidade, e também São Francisco de Assis, entenderam que Deus se revela inclusive ao discípulo e mediante o discípulo mais pequenino». E então, questionou o pregador, solicitando uma reflexão pessoal, «temos a humildade de ouvir Pedro, temos a humildade de nos ouvirmos uns aos outros, prestando atenção aos nossos preconceitos, atentos a captar aquilo que Deus pode dizer-nos através das vozes débeis dos outros, ou só ouvimos a nossa voz que fala aos outros?».

Mediante a terceira pergunta do exame de consciência, Michelini convidou a refletir sobre a nossas «retiradas estratégicas», interrogando-nos se aceitamos ou não «ir até ao fundo para seguir Jesus Cristo, tendo em consideração que isto comporta carregar a cruz, como disse aos discípulos e a Simão, imediatamente depois da confissão: “Se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me ”».

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23 de Julho de 2019

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