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A voz da lama

· Viagem entre as testemunhas de um desenvolvimento desumano ·

O direito de dar à luz os filhos num lugar onde eles possam crescer. Há uma parte da humanidade, por exemplo, que vive na bacia do rio Matanza, na Argentina, no oitavo lugar entre os dez territórios mais poluídos do mundo. Com efeito, no espaço de poucos quilómetros estão concentradas uma multiplicidade de estruturas que poluem o meio ambiente, tornando a atmosfera cheia de venenos. Uma faixa de sessenta quilómetros onde numerosas indústrias transformadoras, especialmente químicas, despejaram por anos os seus resíduos. Áreas consideradas inadequadas para a presença humana e, não obstante tudo, densamente povoadas.

O Estado nos últimos anos tem alocado vários milhões destinados a intervenções de requalificação e saneamento do curso de água, mas só será possível ver os primeiros resultados daqui a vinte anos. A encíclica verde do Papa Francisco, que está em fase elaboração, é exactamente isso: um documento composto por páginas de vida real, ligadas com um longo fio de aço por histórias dos prófugos cuja dignidade social é negada, vítimas da exploração dos recursos e da “cultura do descarte”.

De facto, o Papa Bergoglio enquadra o seu ambientalismo no contexto destas situações, ou seja, sem nunca o separar da condição dos pobres da terra, os primeiros que sofrem as suas consequências. E sabemos bem que o fardo da pobreza é suportado em maior medida pelas mulheres em comparação com os homens. Precisamente por isso, graças ao seu conhecimento concreto do território e dos recursos naturais, as mulheres tornaram-se as protagonistas principais na luta pela tutela do meio ambiente. Para Francisco falar de salvaguarda da Criação significa falar de globalização, desenvolvimento solidário e de mulheres.

A ideia do “descarte” que está presente com muita frequência nos discursos do Papa refere-se a tudo. Começando pelo ser humano, porque vivemos numa cultura que descarta os homens que não servem. Francisco parte da valorização e da centralidade do homem, ao qual foi confiada a Criação e que tem a tarefa de a fazer frutificar e, ao mesmo tempo, de a transmitir o mais possível intacta aos seus filhos. Bergoglio pediu muitas opiniões e contribuições, trabalhou por longos meses alternando e sobrepondo – entre a escrivaninha e o altar - jornais, textos assinalados pelos ex-colaboradores e leituras litúrgicas. Mas não só.

A opinião das mulheres na fase de projectação deste documento foi fundamental. Em particular, a de Clelia Luro, falecida no final de 2013, à qual o Papa telefonava geralmente todos os domingos às 15h00. Na qualidade de grande perita da história e das culturas andinas, Clelia explicava com grande paixão a Bergoglio quanto é difundido, ainda hoje, o respeito pelo meio ambiente nas populações indígenas locais: “O ser humano não é o dono da terra, não a possui, pelo contrário é parte dela: nós somos a terra, alimentamo-nos dela. Somos parte da mãe terra; como podemos arrogar-nos o direito de a possuir?”. Como podemos pretender possuir o espaço-tempo? Quem é capaz de se apoderar dela? É impossível.

Durante um sereno domingo de Setembro, em 2013, Clelia Luro, sentada na entrada da sua casa colonial - que milagrosamente ainda resistia ao assédio dos prédios no coração de Buenos Aires – entre os seus quadros, móveis de bambu e artesanato indígena em cerâmica, recebeu o telefonema do Papa. Comovida, Clelia disse a Francisco que estava em companhia de Leonardo Boff que, precisamente naqueles dias, tinha acabado de escrever a sua última obra, Dignitas terrae, onde afirma o que significa a militância verde: «Não se trata simplesmente de defender o meio ambiente como tal, mas de elaborar o paradigma de uma nova forma com a qual o ser humano pode e deve entrar um relação com a natureza».

Boff argumenta que «as maiores vítimas da poluição são os pobres, obrigados a viver nas favelas, sem água nem condições higiénicas, mas hoje toda a humanidade, e não apenas os pobres, está oprimida. Somos todos vítimas de um desenvolvimento desumano. As nossas actividades económicas estão a contribuir para a perda da biodiversidade e do habitat: isso ameaça os sistemas naturais dos quais dependemos para o alimento que comemos, o ar que respiramos e o clima estável de que precisamos».

O Papa Bergoglio move-se tão rápido que consegue ouvir de modo informal muitas pessoas. Entre elas, Pino Solanas, cineasta e político argentino, o qual afirma que será uma encíclica que não cede a um certo tipo de ideologia verde, mas tratar-se-á de um documento que seria um pouco redutivo chamar green ou ecologista. Segundo as fontes da Onu – realça Solanas - actualmente em toda a América Latina ainda existem cento e trinta milhões de pessoas sem acesso à água potável. Falamos de um continente que pode contar com reservas hídricas imponentes: o Rio Amazonas, o Paraná e o Orinoco estão entre os mais importantes do mundo, e só o Brasil possui a quinta parte de toda a água do planeta. O lago Titicaca, que se estende entre o Peru e a Bolívia, e o de Maracaibo, na Venezuela, satisfazem sozinhos as necessidades de água de milhões de pessoas. No Brasil a situação é mais crítica. É o país que possui a maior reserva de água doce do mundo, mas deve enfrentar até mesmo o risco de racionamento nas grandes cidades, porque a água, cada vez mais subtraída ao consumo doméstico, é preferencialmente desviada para o uso agro-industrial, sob a gestão das empresas transnacionais.

Este é um dos maiores paradoxos da América Latina: uma terra muito rica em fontes hídricas, mas cujos habitantes não são capazes de aceder à sua água de forma adequada e “democrática”. Isso acontece na América Latina, e foi precisamente neste continente que o cardeal Bergoglio começou a preencher este diário de bordo com a experiência que teve nos lugares onde as «lógicas de mercado não poupam nada nem ninguém: das criaturas aos seres humanos».

Outra contribuição fundamental é a de monsenhor Víctor Manuel Fernández, reitor da Pontifícia Universidade Católica da Argentina, um dos eclesiásticos argentinos mais próximos de Bergoglio. Ele trabalhou no Conselho Episcopal latino-americano no âmbito da reflexão teológica e pastoral e colaborou com Bergoglio na redacção do texto final de Aparecida.

Para Fernández «todos os seres humanos são chamados a assumir a responsabilidade para com o meio ambiente no qual vivem, a reflexão sobre a obra de Deus e sobre as maravilhas criadas pelo homem estão estreitamente ligadas entre si e se a fé no Criador é parte essencial do credo cristão, então, é dever da Igreja manifestar a sua responsabilidade na salvaguarda da Criação, defendendo a terra, o ar e a água, e também o homem contra a destruição de si mesmo».

Porque, continua Fernández, «a vocação de preservar não diz respeito apenas a nós cristãos, mas a uma dimensão que é simplesmente humana, diz respeito a todos. É a preservação de toda a criação, da beleza da Criação. Estou convicto de que a encíclica verde de Francisco vai propor unicamente uma doutrina certa, e não suposições».

O cardeal Peter Turkson e os peritos do Pontifício conselho «justiça e paz» reuniram material proveniente de várias partes do mundo, elaboraram diversos esboços que o Papa Francisco viu e reviu, enviando o terceiro rascunho à Congregação para a doutrina da fé, à Secretaria de Estado e ao teólogo da Casa pontifícia. O tempo é escasso. O Papa Bergoglio desejaria que a encíclica fosse publicada antes do início da Conferência sobre o clima de Paris: «Aquela de Lima decepcionou-me um pouco, esperemos que em Paris sejam mais corajosos», disse o Pontífice durante a sua viagem ao Sri Lanka e às Filipinas, a propósito da anterior conferência internacional sobre o tema.

Quem nunca ouviu a voz do Río de la Plata nunca compreenderá a tristeza de Buenos Aires, a tristeza da lama que reclama uma alma, dizia Adán, personagem literário do escritor argentino Leopoldo Marechal. Hoje a alma do rio e da lama apresentam a conta e lembram-nos que os recursos naturais não são inesgotáveis.

Silvina Pérez

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23 de Agosto de 2019

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