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Volha e o eremita do deserto

· Maria Egipcíaca, a santa do mês, descrita por Dario Fertilio ·

«Santa Maria Egipcíaca nasceu no século V – lia a velha senhora à menina – e cedo sentiu-se atraída pela grande cidade, Alexandria. Durante dezassete anos viveu como meretriz pública, mas não por fome, pois a sua era uma espécie de paixão, a tal ponto que repetia que nunca chegara a negar-se a um homem». Aqui Volha, a assistente familiar bielorrussa da senhora, sentiu-se incomodada e procurou interrompê-la. Não lhe agradava a ideia de que entrassem certos pensamentos na cabeça de Natalya, sua filha: estava a ouvi-la com demasiada atenção. Tinha apenas oito anos e teria todo o tempo para aprender o significado da palavra «meretriz».

Abriu a boca para intervir, mas depois não o fez. Sentiu uma palpitação de remorso e então pensou que, no fundo, a mulher por ela assistida não era tão diferente da sua Natalya. Ainda mais ingénua do que a menina, e com uma fraqueza pelas histórias. Mas esta última considerava-a verdadeiramente irritante, embora ela mesma não compreendesse bem o motivo disto.

«Um certo dia – continuou, entretanto, a velha senhora, agachada aos seus pés – Maria Egipcíaca viu uma multidão dirigir-se rumo ao grande porto de Alexandria. Embarcavam para Jerusalém, pois era a festividade da Exaltação da Santa Cruz. Sentiu o impulso de seguir a multidão e falou com os marinheiros. O preço da viagem era elevado e ela não podia dar-se a tal luxo. No entanto, com a tripulação concordou em pagar o preço da viagem com o seu próprio corpo e assim embarcou. Quando chegou a Jerusalém, foi imediatamente à basílica da Ressurreição, juntamente com os demais peregrinos, mas uma força misteriosa repeliu-a. Os outros entraram tranquilamente, mas ela não conseguiu. Procurou fazê-lo durante dias, sempre com o mesmo resultado. Finalmente, começou a entender. Jesus não se contentava que ela fosse ali para beijar uma relíquia. Queria encontrá-la, falar com ela, com a sua alma. Foi uma surpresa! “Mas quem sou eu? Por que razão levo esta vida?”, começou a interrogar-se, e chorou. As lágrimas inundaram o seu rosto, depois os cabelos, sem parar, e por fim libertaram-na. Via o céu cheio de cores e voltou a ser uma menina, na sua aldeia. Caminhava descalça na areia e lançava pedregulhos no poço. Sorria, chorando. Encaminhou-se para a basílica, sem ser impedida por força alguma. Aproximou-se da Santa Cruz, venerou-a e, ao sair, ouviu uma voz que no seu íntimo lhe dizia: “Maria, atravessa o Jordão e encontrarás a paz!”».

Naquela altura, a assistente entrou no quarto onde a senhora ainda estava a ler e, de propósito, ligou a televisão. Mas sem provocar efeito algum. A velha senhora prosseguia (Volha assistia-a dia e noite desde há meses: não causa admiração que se tenha tornado irritável!). «Saiu da igreja e, com a esmola recebida de um fiel, comprou três pães. Pediu que lhe indicassem o caminho para o Jordão e depois lavou-se nas suas águas e enfim entrou na grande voragem do silêncio. Come viveu? O que fez? Nada sabemos. Viveu naquele deserto durante quarenta e sete anos, alimentando-se unicamente com os três pães que levava consigo. Nunca mais encontrou um homem, embora às vezes a tentação fosse forte. Contudo, encontrou a serenidade e com o passar do tempo tudo pareceu esvaecer. Estava em paz consigo mesma e com Deus».

Suspirando, Volha passou para o quarto de dormir e começou a arrumá-lo. Tirou dos cobertores as migalhas de pão e de biscoito, os restos do jantar. Aguçou o ouvido mas já não ouvia a voz da sala de estar; quando voltou, viu a senhora que agora dormia no sofá. Diante da televisão, Natalya divertia-se com os desenhos animados. A assistente tirou delicadamente o livro das mãos da senhora. E foi colocá-lo de novo na estante no quarto de dormir.

Debruçou-se sobre o pátio silencioso e sentiu saudade dos seus dias de meretriz. Anos dourados, presentes, viagens através da Europa. Naquela época era muito bonita, ou pelo menos era assim que muitos lho asseguravam. Em seguida, como quando o sol se põe, o seu esplendor ofuscou-se rapidamente. Então, agarrou-se a Natalya, sua filha, e foi ela que a impediu de afogar.

No entanto, não conseguia adormecer. Geralmente fechava os olhos depois das cinco da manhã, e por pouco tempo. Uma condição perfeita para uma assistente a tempo inteiro, tinha sorrido amargamente dentro de si, quando teve que se adaptar àquele trabalho para sobreviver. Depois, começou a limpar o banheiro. Da sala de estar só se ouviam o ligeiro roncar da velha senhora e as vozes da televisão. De repente, teve a impressão de recordar – numa fotografia desfocada do seu álbum de infância – um calendário bielorrusso que mencionava a festa daquela santa. Era precisamente Maria Egipcíaca, também para os ortodoxos. Ela não era religiosa, e nunca tinha frequentado a igreja, naturalmente; sempre tivera muitas outras situações com as quais se preocupar, e contudo poderia jurar que aquela festa se celebrava no primeiro dia de Abril. E, estranhamente, com aquela certeza traçou-se-lhe um sorriso nos lábios.

Teve a curiosidade de retomar aquele livro. Circunspecta, quem sabe lá por que motivo, voltou a entrar no quarto e aproximou-se da estante, pegou no livro e encontrou de novo a página que a velha senhora tinha lido à Natalya. «Em paz consigo mesma e com Deus. Certo dia um monge, Zózimo, partiu para o deserto. Viu uma mulher macérrima, idosa, coberta de longos cabelos grisalhos, nua e queimada pelo sol. Assustou-se. Maria chamou-lhe pelo nome e pediu-lhe o seu manto para cobrir a própria nudez: explicou que o sol tinha consumido as suas vestes dezenas de anos antes. Os dois confessaram-se reciprocamente, e o silêncio ao seu redor era imenso. No final, Maria pediu a Zósimo que, no ano seguinte, lhe trouxesse a comunhão. Contudo, quando ele voltou, só encontrou o seu corpo. Tinha a intenção de a enterrar, mas ele mesmo já era idoso e sentia-se demasiado frágil. Foi um leão, com as suas garras, que lhe escavou um túmulo».

Volha sorriu diante daquele fim incongruente, mas depois sentiu esvaecer dos seus lábios qualquer vestígio de condescendência. Ao contrário, sentiu que tremia ligeiramente. Durante a noite dormiu como não lhe acontecia há anos, e teve um sonho estranho. Estava novamente em casa, ainda criança, descalça no meio dos pedregulhos. Mas a grande planície bielo-russa parecia-se totalmente com um deserto da Palestina.

Jornalista e escritor italiano de origem dálmata, Dario Fertilio (1949) trabalha na redacção cultural do diário «Il Corriere della Sera». Juntamente com o escritor russo, Vladimir Bukovskij, fundou as Comissões para as Liberdades e foi o idealizador da iniciativa «Memento Gulag», ou seja a celebração, a cada 7 de Novembro, da jornada em memória das vítimas do terrorismo. Entre as suas publicações, citamos: La morte rossa. Storie di italiani vittime del comunismo (2004), La via del Che (2007), Musica per lupi (2010) e L’ultima notte dei fratelli Cervi (2012). Para «L'Osservatore Romano» já escreveu sobre santa Inês (Janeiro de 2014). 

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20 de Agosto de 2019

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