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​Vísceras de misericórdia

· Da ternura de Deus no Antigo Testamento aos episódios do Evangelho nos quais Jesus abraça e perdoa os pecadores ·

«Quem tem misericórdia, misericórdia encontra» recita o provérbio. Em apenas cinco palavras a sabedoria popular condensou um tema de grande actualidade na Igreja, um tema muito querido ao Papa Francisco.

Segundo o dicionário da língua italiana Zingarelli, a misericórdia é «um sentimento que induz à compreensão, à piedade e ao perdão em relação a quem sofre ou erra». Assim em italiano utilizam-se as seguintes expressões: ter ou sentir misericórdia por alguém, pelo seu estado ou pelos seus sofrimentos, ser misericordioso com alguém, fazer algo por misericórdia, ou agir sem misericórdia.

Na Bíblia o conceito de misericórdia está relacionado com diversos vocábulos, cada um dos quais tem um significado próprio com diversas tonalidades. Por conseguinte, na linguagem bíblica, misericórdia assume um significado muito rico que vai além da noção de uma simples acção compassiva.

Guidoccio Cozzarelli, Santa Catarina de Sena troca o coração com o de Jesus (1450-1517)

No respeitante à liturgia hebraica, o primeiro termo que se deve considerar è rèhem, substantivo masculino singular que indica na origem o seio materno, o lugar de onde provém a vida. O mesmo substantivo no plural, rahamîn, designa propriamente as vísceras, e em sentido metafórico é usado para expressar o apego instintivo de um ser a outro. Na antropologia semítica este sentimento íntimo e profundo de amor e de compaixão está localizado nas vísceras, no seio materno e no útero. Compreende-se então que o arquétipo da misericórdia é o instinto materno.

Eis as palavras que Deus dirige à cidade de Jerusalém em Isaías, 49, 15: «Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre?». Para expressar a ternura de Deus o profeta usa também esta expressão: «Não é Efraim o meu filho predileto? O filho em quem pus todo o meu enlevo? Cada vez que eu falo sobre ele, mais intensamente me lembro dele. Por isso o meu coração por ele anseia; tenho por ele grande compaixão» (Jeremias, 31, 20).

Sentimento como a comoção, o sofrimento, a angústia habitam nas vísceras do ser humano. Quando José viu seu irmão Benjamim, «profundamente emocionado (literal: nas suas vísceras) por causa de seu irmão, José apressou-se em sair à procura de um lugar para chorar» (Génesis 43, 30). Diz a esposa no Cântico: «O meu amado pôs a mão por uma abertura da tranca; o meu coração começou a palpitar (literal: as minhas vísceras palpitaram)» (5, 4).

O segundo termo com o qual o Antigo Testamento indica a misericórdia è hèsed (e derivados). Mesmo se o seu significado fundamental é de bondade, pode ser traduzido com piedade, compaixão ou solidariedade. Segundo o jesuíta teólogo francês Xavier Léon-Dufour, o substantivo hèsed «designa em si piedade, relação que une dois seres e implica fidelidade. Por este facto, a misericórdia recebe uma base sólida: já não é apenas o eco de um instinto de bondade, que pode enganar-se acerca do seu objecto e da sua natureza, mas uma bondade consciente, querida; é também a resposta a um dever interior, fidelidade a si mesmo».

No respeitante aos termos gregos, o Novo Testamento adopta a linguagem dos Setenta, que fundamentalmente reflecte os conceitos do original hebraico. O termo mais frequente é èleos, que pode ser traduzido com compaixão, misericórdia, bondade, pena ou piedade. É seguido pelo substantivo oiktirmòs, com um uso mais limitado, que frisa o aspecto externo da compaixão enquanto se traduz em dor, compadecimento e comiseração. Por fim, devem ser indicados o substantivo splànchna, que literalmente equivale ao hebraico rahamîn – vísceras, partes internas – e o verbo splanchnìzomai (sentir comoção, ter misericórdia, sentir compaixão), que no Evangelho, além das parábolas de Lucas da misericórdia, é utilizado para descrever a reacção de Jesus face à doença e ao sofrimento do próximo.

A misericórdia de Deus manifesta-se em cada página do Antigo Testamento, mas é expressa de maneira maravilhosa no Êxodo, 34, 5-7 considerado pelos estudiosos a melhor definição de Javé de todo o Antigo Testamento: «Então o Senhor desceu na nuvem, permaneceu ali com ele e proclamou o seu nome: o Senhor. E passou diante de Moisés, proclamando: “Senhor, Senhor, Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado. Contudo, não deixa de punir o culpado; castiga os filhos e os netos pelo pecado de seus pais, até à terceira e à quarta geração”».

Estes versículos contêm uma fórmula teológica que aos nossos ouvidos soa como uma profissão de fé. Nela o Deus de Israel proclama duas vezes o próprio nome, seguido dos seus atributos, apresentando-se antes de tudo como um Deus misericordioso e fiel. Esta fórmula é retomada, totalmente ou em parte, em vários outros textos do Antigo Testamento (Joel 2, 13; Job 4, 2; Salmos 86, 15; 103, 8; 145, 8; Neemias 9, 17), assim como na fórmula recapitulativa «rico em misericórdia» em Efésios 2, 4.

A autodefinição do Senhor, se assim se pode chamar, põe em relevo a relação estreita que une Deus à sua criatura; uma relação marcada pela bondade e ternura divinas em relação ao ser humano. A ponto que diante das omissões humanas, Deus manifesta-se sempre disponível ao perdão. Sejamos claros, não se trata de subestimar ou de relativizar o pecado. Aliás, ele deve ser sempre e contudo punido. Por outras palavras, no Êxodo 34, 5-7 não é dada ênfase ao castigo de Deus, mas à sua misericórdia superabundante. Enquanto que o seu castigo se alarga apenas até à terceira e quarta geração, a bondade do seu amor não tem limites, e abrange mil gerações.

A misericórdia de Deus revela-se em todo o seu esplendor na figura de Jesus de Nazaré. «Imagem do Deus invisível, gerado antes de todas as criaturas» (Colossenses 1, 15), Jesus é o rosto da misericórdia divina. As suas palavras, mas sobretudo a sua vida e as suas obras dela dão testemunho. Com efeito, durante a sua vida pública Jesus mostrou sempre uma grande atenção para com quantos sofrem qualquer tipo de aflição. Sensível a todas as formas ou expressões de sofrimento, ouve, protege, cura e perdoa todos. Jesus revela-se o médico dos corpos mas sobretudo das almas (Marcos 2, 17; Lucas 5, 31). Demonstra isto a sua atitude compassiva e misericordiosa com os pecadores, que encontram nele um amigo (Lucas 7, 34) sempre disposto a sentar-se à mesa com eles (Lucas 5, 27.30; 15, 1; 19, 5-7).

Nos evangelhos vemos muitas vezes Jesus profundamente comovido diante da miséria e do sofrimento humano. Como não recordar, por exemplo, a comoção interior de Jesus diante do choro da viúva de Naim devido à perda do seu único filho? Diz o evangelista Lucas: «E vendo-a o Senhor comoveu-se de íntima compaixão (splanchnìzomai) por ela e disse-lhe: “Não chores”» (7, 13). Tem o mesmo sentimento diante dos dois cegos sentados ao longo do caminho (Mateus 20, 34), do leproso marginalizado (Marcos 1, 41) ou das multidões cansadas, exaustas e famintas que aos seus olhos são como ovelhas sem pastor (Mateus 9, 36; 14, 13; 15, 32; Marcos 6, 24; 8, 2).

Em todos estes textos os evangelistas descrevem o estado de ânimo de Jesus com o verbo splanchnìzomai, que se costuma traduzir em português com «comover-se profundamente». Como já foi mencionado, este verbo pertence ao campo semântico de splànchna, e por conseguinte denota uma comoção visceral provocada pela vista do sofrimento do próximo. Jesus não permanece indiferente diante da fragilidade dos doentes e torna-se solidário com a sua dor. Oferecendo-lhes a sua misericórdia, os sofredores recuperam a dignidade, a saúde, a vida, a alegria e a esperança. Considerada deste modo, a misericórdia apresenta-se como «experiência fundadora de uma nova criação».

Jesus desconcerta. Desconcertam as suas palavras, os seus gestos, os seus silêncios que usam uma linguagem inclusiva, a linguagem da misericórdia. Com ela Jesus acolhe os marginalizados da sociedade, quantos vivem na periferia porque não têm lugar na cidade, aqueles que ninguém vê nem ouve, porque não têm nem rosto nem voz, os mendigos por necessidade, pois não têm direitos, os pequeninos, os doentes, as mulheres, entre as quais a «pecadora pública» ou «a mulher do perfume», como me apraz chamar-lhe (Lucas 7, 36-50).

A história começa com uma mulher sem nome que entra na casa de Simão o fariseu chorando desconfortada, e conclui-se com uma mulher perdoada que deixa a narração com um coração flórido e transbordante de paz. O encontro com Jesus misericordioso deu-lhe de novo a vida.

A atitude misericordiosa de Jesus é profundamente humana e liberatória: por um lado rompe tabus, infringe fronteiras, desmancha preconceitos, relativiza leis, desmascara a injustiça; por outro gera proximidade, relação, diálogo, intimidade e promove o encontro interpessoal autêntico. Encontrar-se com Jesus é sempre um ponto de partida, uma janela aberta ao futuro, um estímulo de esperança, um olhar de misericórdia.

Nuria Calduch-Benages

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19 de Outubro de 2019

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