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Vicissitudes de carne e de céu

· Bento XVI e as grandes mulheres cristãs ·

O sentido da reflexão histórica em Joseph Ratzinger

O método de trabalho de Bento XVI – como sobressai de muitas das suas obras, e em particular das suas catequeses sobre as santas medievais – consiste antes de tudo em recordar que os acontecimentos narrados se realizaram no «solo da terra» e que não constituem faces intercambiáveis. Para esta finalidade, as fontes históricas são minuciosamente citadas e reinseridas nos seus vários contextos no início de cada catequese: escritos próprios das santas ou recolhidos das pessoas que lhes estavam próximas. As santas têm uma história de carne e de céu, que o  Papa apresenta numa ordem cronológica muito clara.

A partir deste reflexo histórico, no sentido próprio do termo, Bento XVI deixa também o passado ao passado. Com efeito, o passado não deveria de modo algum ser confundido com o presente.  Bento XVI insistiu em várias ocasiões sobre esta regra de ouro: para permanecer fiel a si mesmo, «o método histórico (...) não deve apenas procurar a palavra como algo que pertence ao passado, mas deve também deixá-la no passado. Nela pode entrever pontos de contacto com o presente, a actualidade, procurar as suas aplicações para o presente – ou seja, explorar as potencialidades do passado, capaz de se desenvolver hoje – mas não pode torná-la “actual”». A Igreja medieval não deveria, portanto, ser erigida como modelo para a Igreja do século XXI. Nenhuma saudade das origens, nenhum retorno ao passado, nem uma visão saudosista da Igreja. A Idade Média não é o século XXI.

O teólogo entra então na parte teológica da catequese  propriamente dita, destinada a apresentar a relação entre a alma e Deus: relação de aliança. Esta teologia é também a que Joseph Ratzinger-Bento XVI perseguiu durante toda a sua vida, a partir da sua tese sobre são Boaventura. Ela deriva de uma interrogação da história da salvação. Esta temática própria da teologia alemã opõe-se de modo particular a uma teologia natural «demasiado pouco bíblica e anti-histórica, que define o lugar de Deus em relação à criação e não à Aliança».

Convidando o público das audiências – e em geral todo o povo dos baptizados – a compreender os modelos hagiográficos da tradição, o Pastor procura mostrar muito concreta e simplesmente como se inserem numa «modernidade». Assim a vida de santa Hildegarda de Bingen (para citar um exemplo) é a ocasião para recordar o seu percurso espiritual profundamente encarnado numa época afligida do cisma do imperador Frederico Barba-Roxa, que opôs três antipapas ao Papa legítimo, Alexandre III.

A  santa visionária de Deus, considerada uma profetisa por ter denunciado na sua época o mal que se cometia e por ter revelado aos seus contemporâneos um horizonte de esperança, é portadora de «uma mensagem que nunca deveríamos esquecer». Esta frase com um enunciado simples esconde uma realidade complexa. O «nunca esquecer», o fazer memória, deriva da construção de uma consciência histórica. Ela representa para Bento XVI uma vontade de articular o presente com o passado e o futuro. Só esta articulação é capaz de fazer face à desumanização do mundo por causa da saudade e do progresso definido por Henri de Lubac «o drama do humanismo ateu». Ela não se limita unicamente à evocação histórica da espiritualidade medieval.

Assim esta meditação sobre a santidade feminina medieval não  deriva de uma gestão do passado mas, ao contrário, de um modo de «superar o passado». «Exemplos de vida cristã para imitar», estas hagiografias não convidam a imitar um modelo do passado, mas a explorar as potencialidade do passado, que são potencialmente realizáveis, isto é, sempre capazes de se realizar aqui e agora, na singularidade das vidas. Talvez esta seja a razão pela qual o discurso sobre a santidade é também sistematicamente propenso a mostrar um forte uso do símbolo.

O símbolo – na origem, objecto que era dividido em duas partes para recordar o contrato que unia as duas partes contraentes – é um modo de manifestar a relação de aliança entre o homem e Deus. Todas as santas experimentaram de forma singular a arte suprema e divina de amar a Deus na pessoa do seu Filho, mediante a graça do Espírito Santo, definição da mística na Idade Média, que é participação íntima no mistério de Deus. As catequeses frisam esta participação unitiva no mistério de amor e de conhecimento divino, fonte de inteligência para a teologia no sentido literal do termo: o conhecimento de Deus. Por exemplo, Bento XVI recorre ao símbolo do «fio de ouro», falando da vida de Catarina de Genova, das «rosas» discorrendo sobre a vida de Isabel da Hungria, do «espelho» falando acerca da vida de Clara de Assis, do «livro» falando sobre a vida de Margarida de Oingt, da «ponte»  falando da vida de santa Catarina de Sena, e assim por diante.

Portanto, se a mensagem das santas recordadas nas audiências permanece actual é porque conserva uma real «força de contemporaneidade», enquanto as pessoas encontram nelas, «segundo a expressão evangélica, nova et vetera, verdades autênticas e ideias novas», capazes de determinar as suas acções. Acções  incessantemente sustentadas pela oração e pela Eucaristia, tão diferentes como aquelas realizadas pelas figuras santas.

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16 de Setembro de 2019

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