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Verónica e Helena

· A origem feminina do culto das relíquias ·

Roma conseguiu impor-se como primeiro centro de peregrinação, graças à constatação de que reunia aquelas que então eram consideradas as relíquias mais importantes da tradição cristã: as da paixão—em grande parte recolhidas por Helena e conservadas no Sancta sanctorum lateranense—e a Santa Face que, segundo a lenda, permaneceu milagrosamentegravada no véu de uma mulher, durante a subida de Jesus ao Calvário. Deste modo duas mulheres, Helena, mãe de Constantino, e Verónica, provavelmente uma figura imaginária, contribuíram de forma determinante para fazer de Roma o mais importante centro de peregrinação cristã, o coração do jubileu.

Ivo Dulcić, «Cristo e Verónica» (1975)

Os Pontífices apostaram sobretudo na reavaliação de uma relíquia, a da Santa Face, da qual na cidade as notícias remontam ao século VIII. A devoção por esta imagem de proveniência bizantina intensificou-se principalmente depois do ano mil, graças a uma lenda que a identificava com a verdadeira imagem do rosto de Jesus, recolhida por uma mulher, Verónica, que com um pano lhe teria enxugado o semblante durante a subida ao Calvário. Embora não seja confirmada pelos Evangelhos, e não obstante o nome da mulher—que deriva da expressão «verdadeiro ícone»—deixe transparecer com evidência a sua natureza metafórica, contudo a lenda foi depressa considerada autêntica, e para isto contribuiu sobretudo o extraordinário relevo que os Pontífices começaram a conferir ao inestimável véu.

À exposição tradicional da Sexta-Feira Santa acrescentaram-se, durante o século XIII, as ostensões particulares a personagens ilustres. Em 1208, Inocêncio III instituiu a solene procissão da Santa Face, presidida pelo próprio Pontífice, e em 1289 Nicolau IV chegou a afirmar que a relíquia de Verónica era mais importante do que a do apóstolo Pedro. A sua reprodução em quadrados de tecido e sobre chumbo tornou-se o sinal que os peregrinos cosiam nas suas roupas para demonstrar que tinham viajado a Roma.

Existem poucas reproduções confiáveis desta imagem, que pareceria de estilo bizantino, e não dá a impressão de apresentar sinal algum da Paixão, em contradição com a lenda. A existência de cópias do véu de Verónica, demasiado diferentes umas das outras, ea notícia do desaparecimento da preciosa relíquia durante o saque de Roma em 1527, podem explicar por que motivo a Igreja de Roma aceitou tacitamente, com o transcorrer do tempo, a progressiva diminuição de interesse por esta imagem, diversamente do que aconteceu com o Sudário, hoje conservado em Turim.

De resto, já na edição do Martirológio romano—publicada em 1583 por ordem de Gregório XIII, por uma comissão da qual fizera parte Cesare Baronio, que depois compilou as suas notas históricas—santa Verónica não é mencionada. A partir do pontificado de Urbano VIII foram proibidas as reproduções da imagem e, além disso, em 1629 o Papa Barberini ordenou que fossem queimadas todas as cópias existentes. Embora a disposição não tenha sido levada a cabo de modo completo, indubitavelmente a decisão papal contribuiu para a decadência desta devoção.

Contudo, no momento da proclamação do primeiro jubileu, no ano 1300, a devoção pelo véu era muito sentida e, como escreve Dante no XXXI canto do Paraíso, os peregrinos chegavam trepidantes à sua presença, julgando ver nele as verdadeiras aparências divinas: «Meu Senhor Jesus Cristo, Deus verdadeiro, assim se parecia o vosso semblante?». Por conseguinte, pelo menos até ao século XVI a Santa Face constituiu a principal atracção para o peregrino que visitava Roma por ocasião do jubileu, e a sua presença significava efectivamente uma inserção simbólica de cunho feminino no contexto de um percurso devoto de tipo masculino: os peregrinos visitavam Roma para rezar junto dos túmulos dos Apóstolos, ad limina Apostolorum, e para ver o Pontífice.

Outra meta concreta da peregrinação a Roma era constituída pelas relíquias dos instrumentos da Paixão, principalmente da Cruz que, segundo a lenda, foram novamente encontrados e reconhecidos por santa Helena e por ela mesma levados a Roma onde, para os preservar, mandou construir a basílica Sessoriana de Santa Cruz em Jerusalém, sobre os fundamentos de um dos seus palácios. Juntamente com as relíquias da Paixão de Cristo, reunidas na capela de São Lourenço de Latrão, ou seja o Sancta sanctorum, e com o berço de Jesus, conservado na basílica Liberiana de Santa Maria Maior, ela constitui a mais importante colecção de relíquias de Cristo.

A mãe do imperador tinha realizado a sua peregrinação em idade já avançada, como escreve o seu contemporâneo Eusébio de Cesareia no De vita Constantini: «A idosa mulher veio à Terra Santa para visitar com esmero autenticamente imperial as províncias orientais e todas as populações que as habitavam». A difusão da lenda de Helena, que teria reencontrado a Cruz de Cristo em Jerusalém, remonta provavelmente ao final do século IV, como demonstra o facto de que a peregrina Egéria, depois de ter ido à Terra Santa de 381 a 384, não obstante tenha anotado a festa pelo descobrimento da Cruz, não menciona Helena, enquanto em 395, pronunciando o discurso fúnebre para o imperador Teodósio, santo Ambrósio liga explicitamente o descobrimento das relíquias da Paixão de Cristo com a mãe de Constantino.

Portanto, duas mulheres, Helena e Verónica—e aqui tem pouca importância se esta última era uma figura imaginária, porque o que interessa é o símbolo feminino—encontram-se na origem daquela «materialidade» do sagrado que distingue primeiro o cristianismo e, depois, o catolicismo, oferecendo um apoio indispensável, porque compreensível e aceite por todos, para a transformação de Roma num forte pólo de atracção da peregrinação. Com efeito, a concorrência com os antigos santuários ou com os novos centros de devoção é vencida por Roma não somente graças à perspicaz política das indulgências, organizada em volta das cadências jubilares, mas sobretudo graças à presença destas relíquias extraordinárias, todas derivadas da criatividade feminina.

As duas grandes estátuas de Helena com a cruz e de Verónica com o véu, que se impõem à vista dos visitantes ao redor do altar-mor da basílica de São Pedro, constituem uma homenagem à sua contribuição.

Lucetta Scaraffia

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24 de Outubro de 2019

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