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Urgente necessidade de reformas na vida política e social

· Ao embaixador da República Árabe da Síria ·

Publicamos os discursos aos últimos três embaixadores recebidos em audiência na manhã de 9 de Junho para a apresentação das Credenciais.

Senhor Embaixador

É com prazer que o recebo esta manhã no momento em que apresenta as Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Árabe da Síria junto da Santa Sé. Vossa Excelência fez-se intérprete das saudações de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, e ficar-lhe-ia grato se lhe transmitisse a minha gratidão. Através de Vossa Excelência, desejaria saudar igualmente todo o povo sírio, desejando que ele possa viver em paz e fraternidade.

Como Vossa Excelência ressaltou, a Síria é um lugar querido e significativo para os cristãos, desde as origens da Igreja. Depois do encontro de Cristo ressuscitado, no caminho de Damasco, com Paulo, que se tornará o Apóstolo das Nações, foram numerosos os grandes santos que constelaram a história religiosa do seu país. São também numerosos os testemunhos arqueológicos de igrejas, mosteiros, mosaicos dos primeiros séculos da era cristã que nos remetem às origens da Igreja. A Síria foi tradicionalmente um exemplo de tolerância, de convivência e de relacionamentos harmoniosos entre cristãos e muçulmanos, e hoje as relações ecuménicas e inter-religiosas são boas. Faço ardentes votos por que esta convivência entre todos os componentes culturais e religiosos da Nação sejam continuados e desenvolvidos para o bem de todos, reforçando deste modo uma unidade fundada na justiça e na solidariedade.

Todavia, esta unidade não pode ser edificada de modo duradouro se não houver o reconhecimento da centralidade e da dignidade da pessoa humana. De facto, «tendo sido criado à imagem de Deus, o ser humano possui a dignidade de pessoa; não é apenas algo, mas alguém, capaz de se conhecer, de se possuir, de se doar livremente e de entrar em comunhão com outras pessoas» ( Mensagem para o Dia mundial da paz, 2007, n. 2). Portanto, o caminho rumo à unidade e à estabilidade de cada nação passa pelo reconhecimento da dignidade inalienável de todas as pessoas humanas. Por conseguinte, ela deve estar no centro das instituições, das leis e da acção das sociedades. Portanto, é de importância essencial privilegiar o bem comum, deixando de lado os interesses pessoais ou de parte. Por outro lado, o caminho da escuta, do diálogo e da colaboração deve ser reconhecido como o meio mediante o qual os diversos componentes da sociedade podem confrontar os seus pontos de vista e alcançar um consentimento acerca da verdade relativa a valores ou finalidades particulares. Isto originará grandes benefícios para as pessoas individualmente e para as comunidades (cf. Discurso à onu, 18 de Abril de 2008).

Nesta perspectiva, os acontecimentos que se verificaram nos últimos meses em certos países da área do Mediterrâneo, entre os quais a Síria, manifestam o desejo de um futuro melhor no âmbito da economia, da justiça, da liberdade e da participação na vida pública. Estes acontecimentos mostram também a urgente necessidade de reformas verdadeiras na vida política, económica e social. Todavia, é muito desejável que estas evoluções não se realizem em termos de intolerância, de discriminação ou de conflito, e ainda menos de violência, mas em termos de respeito absoluto da verdade, da coexistência, dos direitos legítimos das pessoas e das colectividades, assim como da reconciliação. Tais princípios devem guiar as Autoridades, tendo em consideração as aspirações da sociedade civil, assim como as instâncias internacionais.

Senhor Embaixador, é de bom grado que friso aqui o papel positivo dos cristãos no seu país, que como cidadãos estão comprometidos na construção de uma sociedade na qual todos devem encontrar o seu lugar. Não posso deixar de mencionar aqui o serviço prestado pela Igreja católica nos campos social e educativo, apreciado por todos. Permita que eu saúde de modo muito especial os fiéis das comunidades católicas, com os seus Bispos, e que os encoraje a desenvolver vínculos de fraternidade com todos. As relações vividas quotidianamente com os seus compatriotas muçulmanos ressaltam a importância do diálogo inter-religioso e a possibilidade de trabalhar juntos, de diversas formas, em vista do bem comum. Que o impulso dado pela recente Assembleia especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos dê frutos abundantes no seu país, em benefício de toda a população e de uma autêntica reconciliação entre os povos!

Para incrementar a paz na região, deve ser encontrada uma solução global. Ela não pode lesar os interesses das partes em questão e há-de ser o fruto de um compromisso e não de escolhas unilaterais impostas com a força. Esta nada resolve, assim como as soluções parciais ou unilaterais, que são insuficientes. Conscientes dos sofrimentos de todas as populações, é preciso proceder mediante uma abordagem deliberadamente global que não exclua ninguém da busca de uma solução negociada e tenha em consideração as aspirações e os interesses legítimos dos diversos povos envolvidos. De igual modo, a situação que o Médio Oriente vive há numerosos anos levou-vos a acolher um grande número de refugiados, provenientes sobretudo do Iraque, e entre eles numerosos cristãos. Agradeço profundamente ao povo sírio a sua generosidade.

No momento em que inicia a sua nobre missão de representação junto da Santa Sé, dirijo-lhe, Senhor Embaixador, os meus melhores votos pelo bom êxito da sua missão. Tenha a certeza de que encontrará sempre junto dos meus colaboradores o acolhimento e a compreensão de que poderá precisar. Sobre Vossa Excelência, sua família e colaboradores, bem como sobre todos os habitantes da Síria, invoco de coração a abundância das Bênçãos divinas.

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22 de Setembro de 2019

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