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Uma verdadeira mudança antropológica

· ​Entrevista ·

O feminismo causou um terramoto que modificou a própria organização do nosso mundo. Pode explicar-nos isto?

Nunca se avaliam muito bem os efeitos que as reivindicações feministas tiveram sobre a nossa vida comum. Se a igualdade entre as mulheres e os homens é, ao mesmo tempo, o ponto de conflito central e o sucesso decisivo do feminismo, este foi muito além nos seus efeitos, modificando de maneira permanente as condições do viver juntos. O ponto crucial é o facto de as feministas terem posto em questão a segunda vaga (no início dos anos setenta) da divisão tradicional entre uma esfera privada feminina e uma esfera pública masculina. Rejeitando a hierarquia dos papéis as feministas fizeram desaparecer o muro que separava as duas esferas e inauguraram uma nova organização com três polos: o público-político (poder e Estado), o privado-social (mundo do trabalho e sociedade civil) e o íntimo-afetivo) vida sentimental e familiar).

«Sibila», detalhe do retábulo de San Benito Real (Valladolid)

Aquilo que constitui absolutamente uma novidade é que as mulheres e os homens possuem a mesma legitimidade e nutrem as mesmas aspirações em cada um destes três polos. Não digo que isto seja sempre evidente e fácil, mas permanece o facto que, a nível dos princípios, tanto elas como eles são considerados sujeitos com os mesmos direitos nestes três âmbitos da existência. Isto significa que pusemos fim à atribuição às mulheres de papéis privados e subalternos. Reivindicando o facto de serem indivíduos plenamente legitimados na sociedade, para todas as funções e a todos os níveis, as mulheres tornaram-se «homens como os outros».

Mas, e este é um aspeto menos fácil de captar, pusemos também fim à exclusão dos homens da esfera da vida íntima e familiar, os quais pedem cada vez mais para participar nela, aspirando eles também por um equilíbrio melhor entre a vida privada e a profissional. Exprimindo este conceito de modo um pouco provocatório, diria que os homens estão a tornar-se «mulheres como as outras».

Eis por que penso que estamos a viver uma verdadeira mudança antropológica. A condição feminina é posta sob o sinal da dualidade: as mulheres são indivíduos de direito, livres e iguais, mas permanecem também sujeitos encarnados e sexuados. Pois bem, acontece que esta dúplice condição, abstrata e concreta, se está a tornar o modelo de qualquer condição. Também os homens se caraterizam pela dualidade existencial e são as mulheres que lhes mostram o caminho, porque foram elas as primeiras que experimentaram como conjugar na própria vida a dimensão privada e a social. A isto eu chamo convergência dos géneros, isto é, o advento de uma condição humana genérica da qual as mulheres constituem o modelo.

Nas nossas sociedades ocidentais, esta convergência dos géneros já está a decorrer, com os seus aspetos positivos e negativos. De que maneira esta revolução antropológica da relação homem-mulher pode levar a relações melhores?

A convergência dos géneros não deve ser considerada um nivelamento ou uma desintegração das condições femininas e masculinas. Ao contrário. Ela indica um enriquecimento recíproco, por acumulação, dos papéis sociais e das aspirações particulares. Por muito tempo, as mulheres foram apenas «privadas», limitadas às suas atividades domésticas; hoje são plenamente legitimadas na esfera social. Trata-se indubitavelmente de um progresso muito positivo, sobretudo porque é a garantia da independência material das mulheres. Por seu lado, os homens hoje comprometem-se na esfera íntima, depois de terem sido só «públicos», podem aspirar pelas gratificações da vida familiar. Também por isso é preciso alegrar-se. Por um lado porque as mulheres já não enfrentam sozinhas o peso dos afazeres privados e, por outro, porque esta mudança indica que a realização pessoal para os homens já não se verifica só no âmbito profissional, mas que agora podem legitimamente aspirar por uma existência privada harmoniosa e gratificante.

Por conseguinte, é possível imaginar um mundo futuro no qual os dois sexos assumem de maneira equitativa e serena as responsabilidades e as gratificações da vida privada e também da social. Mas é preciso acrescentar imediatamente que este processo deve ser colocado sob o sinal da liberdade. Por outras palavras, segundo o meu parecer, não há um modelo ideal de existência: alguns indivíduos escolhem dedicar-se em maior medida à vida familiar, outros privilegiam a vida profissional. Quer sejam homens quer sejam mulheres pouco importa, fundamental é reconhecer-lhes a liberdade de escolha. Uma mulher que deixa de trabalhar para se dedicar aos filhos já não criticável como outra que volta para o trabalho duas semanas depois de ter dado à luz, ou ainda outra que escolhe não ter filhos. Por outras palavras, não há uma maneira justa ou errada de ser mulheres. É precisamente esta a incrível chance que nós, mulheres ocidentais, temos: a de escolher o nosso destino.

Hoje muitas mulheres sufocam a sua natureza feminina. Como e porquê?

Qualquer mulher ocidental deve hoje fazer face a uma vida privada, que por vezes é sinónimo de maternidade, e a uma vida social muito absorvente. Para algumas mulheres tudo isto comporta sacrifícios no âmbito da sua vida íntima, conjugal e familiar. De facto não é sempre fácil mediar entre as aspirações privadas e as profissionais.

E sobretudo porque a idade na qual um indivíduo está em condições de se realizar a nível profissional coincide exatamente com a mesma idade na qual se deveria realizar sob o ponto de vista pessoal. É entre os trinta e os quarenta anos que se vai viver como casal e que se concebem os filhos, projetos que por vezes colidem com as exigências do mundo do trabalho. Isto cria situações com frequência muito dolorosas, mulheres que aguardam por demasiado tempo o «momento bom» para se tornarem mães e que nunca o serão.

Os progressos da assistência médica à procriação estão relacionados com este mal-estar que hoje circunda a maternidade. Dado que as mulheres têm menos filhos, dado que geralmente escolhem o momento da sua gravidez, dado que se veem ao seu dispor tecnologias cada vez mais sofisticadas, chegam a pensar que desejar um filho signifique necessariamente dizer que o têm. Mas as coisas não são assim tão simples: muitas vezes demasiado tarde descobrem que é... demasiado tarde! Eu pessoalmente sou favorável à procriação medicamente assistida (excluindo a questão das mães sub-rogadas que levantam reais problemas éticos), mas observo, o que me entristece, que alimenta a ilusão de uma omnipotência procriadora.

Que fim levou hoje a dimensão encarnada da existência feminina?

Na sua versão radical, o pensamento feminista produziu efeitos sobre o modo como concebemos hoje a condição feminina, usando poucas palavras, descarnou-a. Os estudos sobre o género, o feminismo materialista herdado da segunda vaga e a tradição do igualitarismo republicano têm em comum o facto de privilegiar uma definição abstrata que faz das mulheres puros indivíduos de direito. A condição feminina contemporânea é definida em termos de igualdade e de liberdade, numa perspetiva que reduz o corpo feminino simplesmente a um lugar por excelência da dominação masculina. Eis o motivo pelo qual as temáticas associadas à corporeidade feminina são, com muita frequência, consideradas vestígios da submissão das mulheres à ordem patriarcal.

Não nego a fecundidade sociológica da noção de género. Os estudos sobre o género permitem ressaltar os mecanismos através dos quais as desigualdades entre mulheres e homens se perpetuam. Mas têm também implicações teóricas que não partilho. A rejeição de refletir em termos de feminino e masculino e a recusa da dimensão necessariamente encarnada e sexuada da existência produziram um escamotage: o sujeito do feminismo perdeu qualquer consistência, até qualquer realidade. O pensamento feminista contemporâneo fez de algum modo desaparecer o sujeito feminino.

Pablo Picasso «Homem e mulher» (1971)

Por meu lado, proponho que seja reintroduzida a corporeidade feminina e por conseguinte também o sujeito feminino na reflexão feminista, porque me parece importante ter em consideração aquele outro aspeto da emancipação, que para as mulheres é constituído pelo apresentar-se ao mundo e aos outros num corpo de sexo feminino.

Em que consiste a singularidade da «experiência do feminino»?

Gosto de definir a experiência do feminino como experiência da encarnação na relação. Considerando que as mulheres não podem viver prescindindo da sua corporeidade, e dado que são dotadas de uma capacidade materna, têm uma relação com o mundo que eu defino relacional. Isto tem a ver claramente com a maternidade, que é unicamente uma potencialidade mas que produz efeitos psíquicos, quer se concretize quer não.

O simples facto de se projetar mentalmente na maternidade, uma projeção que mulher alguma pode evitar, quer queira ter filhos quer não, este simples facto implica uma reflexão sobre a dimensão relacional da existência feminina. Cada mulher sabe que dispõe desta capacidade de ter e sobretudo de criar filhos, ou seja, de entrar com eles num processo de humanização e de socialização. Eis por que defendo que as mulheres nunca são capazes de conceber a possibilidade de uma existência meramente individual, isto é, de uma existência que se dá um sentido sozinha, que não precisa de qualquer outra existência para se afirmar e desenvolver. Em síntese, as mulheres são indivíduos anti-individualistas. Expressando o conceito com palavras simples, as mulheres não podem fazer de contas que os outros não existem, enquanto os homens conseguem fazê-lo muito bem.

Não digo que todos os homens sejam egoístas declarados nem sequer que todas as mulheres são puras altruístas. Penso simplesmente que não se pode fazer de contas que as mulheres não tenham sido, durante séculos, relegadas para a esfera doméstica. Esta história tem repercussões sobre aquilo que significa ser mulher hoje, ou seja, um indivíduo ao mesmo tempo privado e social, marcado pela responsabilidade secular do parto, do cuidado dos mais idosos e dos mais vulneráveis.

Qual é a diferença que faz entre «feminino» e «feminilidade»?

É preciso distinguir entre aquilo que depende da ordem das representações e aquilo que depende da ordem da experiência vivida da corporeidade. Quando se pensa em termos de feminilidade e de virilidade, está-se numa perspetiva essencialista de projeção de um ideal sobre a realidade. Por um lado, disponibilidade sexual, dedicação materna e dependência material, por outro, vigor carnal, autonomia conquistadora e soberania social. Estas representações pertencem a outros tempos, aos tempos nos quais o sexo biológico dos indivíduos lhes atribuía determinadas funções e papéis.

Eu recuso este registo da feminilidade e da virilidade e proponho que seja detetado tudo o que o feminino e o masculino conservam de singular enquanto modalidade da construção identitária com a qual todos nos devemos confrontar. Num mundo no qual os papéis e as funções já não são atribuídos a um ou a outro sexo, penso que devemos refletir como nunca acerca do significado que revestem a encarnação e a sexualidade da nossa existência. De facto, quem pode pretender viver como «antropo», ou seja, como sujeito puro, fora de qualquer encarnação? Nas nossas sociedades assexuadas, ao contrário, é o domínio da própria singularidade sexuada que constitui a própria marca da subjetividade.

Catherine Aubin

Camille Froidevaux-Metterie

Camille Froidevaux-Metterie é professora de ciências na universidade de Reims Champagne-Ardenne e em Sciences Po. Depois de ter trabalhado por muito tempo sobre as relações entre política e religião, tornou-se membro do Institut universitaire de France com base num projeto de pesquisa dedicado às mudanças da condição feminina na época contemporânea. Baseando-se numa análise das recomposições da divisão público/privado, reflete sobre o sentido da corporeidade feminina numa perspetiva fenomenológica. Para demonstrar os seus postulados, realizou uma pesquisa entre as mulheres políticas francesas cujos resultados foram apresentados sob forma de filme documentário (www.danslajungle.com). Dirigiu, com Marc Chevrier, a obra Des femmes et des hommes singuliers. Perspectives croisées sur le devenir sexué des individus en démocracie (Armand Colin, 2014). As suas reflexões sobre o nascimento de um sujeito feminino totalmente inédito deram vida ao livro La révolution du féminin (Gallimard, 2015).

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14 de Outubro de 2019

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