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Uma ponte sobre o Bósforo

· Em colóquio com o cardeal secretário de Estado ·

Publicamos a transcrição da entrevista feita ao secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, realizada pelo Centro televisivo do Vaticano por ocasião da viagem do Papa a Turquia.

Depois de oito anos da visita de Bento XVI um Pontífice volta à Turquia. Em Istambul será assinada uma declaração conjunta com o Patriarca ecuménico Bartolomeu. Que representa para a Igreja esta viagem do Papa Francisco no sulco dos seus predecessores Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI?

Também o Papa Francisco tem este anseio apostólico de procurar fortalecer cada vez mais as relações fraternas com as Igrejas cristãs. O Papa vai por ocasião da festa de santo André, que é a festa do patriarcado ecuménico de Constantinopla, portanto vai para compartilhar a alegria e a celebração daquela Igreja. E vai também para assinar uma declaração conjunta. Uma declaração que se coloca em continuidade com aquela já assinada em Jerusalém no passado mês de Maio e que tenciona precisamente fortalecer os vínculos de amizade, colaboração e diálogo entre as duas Igrejas e de expressar preocupações também pelo destino de numerosos irmãos cristãos que se encontram em situações de dificuldade e de perseguição sobretudo na região do Médio Oriente. Penso que será um momento muito importante e intenso para revigorar este caminho ecuménico não só em relação à Igreja de Constantinopla, mas também de todas as outras Igrejas ortodoxas.

É impossível não pensar na delicada situação no Médio Oriente, que se tornou ainda mais precária pela acção sanguinária do pretenso Estado islâmico. A paz parece impossível. Como interromper esta espiral de violência?

Certamente a situação continua a ser muito grave e sem dúvida o Papa aproveitará também esta nova viagem para continuar a sua missão de mensageiro da paz. A solução conhecemo-la. A solução é mais fácil e ao mesmo tempo mais difícil de quanto parece. Consiste em depor as armas e empreender um diálogo, uma negociação. É impensável que possa existir uma solução armada, que possa haver uma solução unilateral imposta com a força por parte de alguém. A Santa Sé afirmou sempre que a solução só pode ser regional e abrangente, tendo em conta os interesses e as expectativas de todas as partes envolvidas. Infelizmente, nestes dias assistimos também a uma ulterior deterioração da situação na Terra Santa. Vemos o que está a fazer o chamado Estado islâmico. Este é o caminho para chegar a um beco sem saída. Sem esquecer também, que no caso do Estado islâmico, o que a Santa Sé recordou várias vezes, ou seja, o princípio do direito de parar o justo agressor respeitando o direito internacional. Ao lutar contra aqueles que são as causas destes fenómenos terroristas não devemos esperar uma resposta exclusivamente ligada ao aspecto militar, da força, mas é necessário procurar compreender e resolver as causas deste fenómeno. E penso que é justo denunciar os eventuais apoios, quer de tipo político quer económico, que o Estado islâmico continua a receber. Depois o diálogo inter-religioso. A capacidade por parte de todos e sobretudo também dos responsáveis e dos líderes muçulmanos de denunciar a manipulação da religião e servir-se do nome de Deus para praticar violência contra os outros.

A violência leva a numerosas e dramáticas consequências. Pensemos nas milhares de pessoas em fuga nos fronteiras em busca de salvação, assim com na presença cada vez mais exígua dos cristãos nestes territórios. O que faz a Igreja a este respeito?

A Igreja está comprometida num grandíssimo esforço de sensibilização, primeiro, da comunidade internacional para socorrer as necessidades destes irmãos e irmãs que são prófugos e refugiados, e depois disponibilizar todos os seus meios da caridade. Sabemos quanto as organizações internacionais, as agências católicas de ajuda e as Cáritas estão a realizar no território, precisamente para socorrer as necessidades dos nossos irmãos sobretudo face ao inverno que está para chegar e tornará mais precária e mais difícil a sua solução. E também esta insistência justa, devido, necessária sobre o direito de regresso. Este é outro ponto sobre o qual a Santa Sé continua a insistir. Um regresso à própria pátria, casas e terras, mas em condições que permitam a estas pessoas poder viver com serenidade. Condições que lhes garantem o direito à vida, o direito à segurança.

A Turquia caracteriza-se por uma convivência multicultural e multireligiosa. Quais são, na sua opinião, os aspectos aos quais o Pontífice dará mais importância?

Em primeiro lugar uma solicitude para com a Igreja local. Uma pequena Igreja que nos anos passados foi também testemunha de episódios muito dolorosos de violência, mas que persevera na sua missão. Parece-me importante sublinhar esta vontade da Igreja católica na Turquia nas suas diversas expressões - temos a Igreja latina, a Igreja católica arménia, a Igreja caldeia, a Igreja sírio-católica – perseverar na sua missão, ou seja, testemunhar uma presença e garantir este diálogo com o islão, que é muito importante. Não obstante todas as dificuldades e obstáculos, a Igreja católica na Turquia está comprometida neste diálogo com o islão e trabalha na linha e com o estilo que caracterizaram a presença do então delegado apostólico, monsenhor Angelo Giuseppe Roncalli, hoje são João XXIII. Este estilo de servir como ponte, como recordava também o Papa Francisco há alguns domingos: não construir muros, mas pontes onde se possa ter o encontro entre as pessoas. E João XXIII foi precisamente uma ponte sobre o Bósforo para o encontro entre turcos, gregos, católicos, ortodoxos, muçulmanos e judeus. Esta é a vocação. E depois, obviamente, também a assistência religiosa às famílias católicas, à comunidade católica, aos peregrinos que ali vão. Diria que a presença do Papa será de encorajamento para a Igreja e ao mesmo tempo de apoio para este compromisso de diálogo com o islão que a caracteriza.

Barbara Castelli

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16 de Outubro de 2019

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