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Uma pesquisa quase inexplorada

Giovannella Baggio trabalhou no contexto da Agesci [Associação de guias e escoteiros católicos italianos], desempenhando as funções de presidente da comissão central (1980-1985) e de chefe de grupo da Itália (1996-1999), ou seja, o máximo grau no mundo do escotismo. A Agesci é uma associação educacional para rapazes e moças que prevê um governo de todas as posições de diretoria: desde os chefes até a cada uma das direções provinciais, regionais e nacionais. E talvez esta experiência de vida numa organização masculina e feminina não seja alheia ao nascimento do seu interesse científico pela medicina e pela farmacologia, diferenciadas segundo o género. Um tipo de pesquisa que — é ela mesma que narra — até há poucos anos era praticamente inexplorada: «Com efeito, na medicina havia um abismo de conhecimentos: como se ela tivesse permanecido parada nos anos quarenta. Efetivamente, as descobertas dos últimos cinquenta anos no campo da medicina foram alcançadas a partir de trabalhos nos quais o género feminino tinha sido ignorado. Por conseguinte, devemos recomeçar a estudar as diferenças de género em todos os campos: da anatomia à fisiologia, da clínica à farmacologia. No entanto, para o fazer são necessários muitos fundos e é preciso enfrentar a colaboração insuficiente da parte das multinacionais farmacêuticas: elas têm o terror de que se entenda que os seus produtos — testados predominantemente nos homens — podem ser considerados inúteis pela outra metade da população, ou seja pelas mulheres».

Professora titular desde 1995, a partir de 2013 primeira e única cátedra de medicina de género na Itália, chefe de medicina em Pádua, foi a primeira a dedicar na Itália, em 2009, um congresso a esta «vergonha mundial» e a fundar um centro nacional de estudos sobre saúde e medicina de género, «que é uma nova dimensão da medicina, não uma nova especialidade, que estuda a influência do sexo e do género sobre a fisiologia, a fisiopatologia e a patologia humana». Hoje nós sabemos que homem e mulher devem ser curados de maneira diferente — afirma — «dispomos de constatações arrepiantes, sobretudo em cardiologia». Um exemplo? Enquanto nos últimos trinta anos a mortalidade devida a enfermidades cardiovasculares diminuiu 40% no homem, em contrapartida para a mulher, em termos de igualdade a nível de prevenção, diminuiu apenas 3-4% (mas nos Estados Unidos a diminuição foi de 20%). Além disso, nos primeiros meses depois de um ataque cardíaco, as probabilidades de morrer são de 26% para as mulheres, mas de apenas 11% para os homens. E as diferenças são inúmeras. Por exemplo, a aspirina de baixa dosagem não ajuda as mulheres a prevenir ataques cardíacos na prevenção primária, e o diabetes é três vezes mais perigoso para a mulher do que para o homem. Há diferenças até na sintomatologia do ataque cardíaco (nas mulheres, a apresentação é atípica), a tal ponto que para as mulheres o diagnóstico de um ataque cardíaco é muitas vezes errado ou chega atrasado. Além disso, para as mulheres todos os remédios cardiovasculares têm efeitos colaterais mais pesados.

A pesquisadora acrescenta: «As mulheres estão mais sujeitas, não unicamente a ataques cardíacos, mas também à osteoporose, à demência senil e à depressão. Todavia, ainda não sabemos bem o motivo e como elas podem ser curadas. Já conseguimos mapear o genoma humano e em breve os remédios serão ministrados com base num minúsculo pontinho de diferença no adn (medicina de precisão), mas ainda temos em demasiado pouca consideração os cromossomas xx e xy, que distinguem o homem da mulher».

Durante séculos só nos interessamos pela saúde dos homens, que levavam o pão para casa e por isso deviam viver mais prolongadamente. Fomos vítimas da síndrome do biquíni: só se estudavam os órgãos do nosso aparelho reprodutor: seios, útero e ovários.

E se é verdade que a esperança média de vida das mulheres é de cinco anos a mais do que a dos homens, estes anos de sobrevivência são na sua maioria caracterizados por doenças e formas de invalidez.

Contudo — perguntamos-lhe — por que razão as mulheres foram excluídas das pesquisas clínicas? È apenas por uma questão cultural? «Diria por praticidade. Vejamos os exames de sangue: numa paciente, a glicemia deve ser medida antes, durante ou depois do ciclo menstrual? Custa mais trabalhar com mulheres ou com animais do sexo feminino para fins experimentais!».

Mas se a medicina de género é tão importante, por que motivo em caso de transplante ninguém se preocupa se deriva de um doador de sexo diferente do recetor? «A literatura sobre esta temática é muito recente. Controla-se a dimensão dos órgãos: os masculinos podem ser demasiado grandes para ser transplantados para uma mulher. Em contrapartida, não podemos subestimar o sistema imunitário. Vejamos o exemplo de uma mulher paciente que seja mãe de um menino: durante a gravidez, para conviver com um ser vivo reconhecido pelo seu organismo como não feminino, terá desenvolvido os anticorpos de defesa contra antigénios codificados pelo elemento y, que depois do parto entram em estado de latência. Eis a maravilhosa fisiologia humana! Se lhe for transplantado um órgão masculino, estes anticorpos voltam a ativar-se. Se tiver mais que uma gravidez masculina, o transplante torna-se arriscado».

Na sua opinião, na diferente reação à doença, também os componentes psicológicos desempenham uma sua função? «Sem dúvida, o papel social da mulher induz a um atraso no pedido de ajuda e, ao contrário, um recurso frequente ao médico de medicina geral depende muitas vezes da constatação de que ela é portadora dos problemas da família inteira...».

As variáveis que determinam as enfermidades são numerosas, para além da diferença sexual. É possível orientar-se nesta multiplicidade de fatores? Sim, sem dúvida! A epidemiologia tem exatamente esta função: o estudo de muitas variáveis em amplas populações, acompanhadas durante muitos anos (trabalhos longitudinais). Infelizmente, em tais atividades as mulheres são pouco representadas, mas é nestes trabalhos que se fundamentam as linhas-guia que orientam o comportamento do médico, e é com base nelas que os médicos acabam por responder os juízes». 

Lucetta Scaraffia

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21 de Agosto de 2019

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