Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Uma Nossa Senhora diferente

· Artemisia Gentileschi e Maria ·

A exposição de Artemisia Gentileschi, aberta até ao mês de Julho em Paris, suscita reflexões de tipo psicológico. É um mal, pois é uma tentação à qual deveríamos resistir porque  a popularidade de Artemisia por muito tempo foi alimentada pelas vicissitudes da sua vida e muito menos pelo seu excepcional valor artístico. Precisaria descontrair-se e observar, olhar os quadros – quase cinquenta – apreciar as formas bonitas, contemplar as cores, notar as imprudências das composições, sem remontar às vicissitudes vividas pela pintora.

E no entanto, a inegável prevalência de cenas nas quais as protagonistas triunfantes são Judite, Jael, Susana, Lucrécia, Cleópatra e Ester, nuas ou vestidas com adamascados maravilhosos e sedas preciosas, que se defendem, se vingam, se suicidam, só pode transportar o visitante compulsivamente à história pessoal da mulher que escolheu, compôs e representou estas imagens  mediante as quais parece querer proclamar: «Somos também isto!».

Artemisia ignorou desde o início a herança que confinava as mulheres  à representação de temas gentis e enfrentou modos e sujeitos até então só de competência masculina. Quando, no distante ano de 1916, a voz competente do crítico e historiador da arte Roberto Longhi propôs à atenção dos estudiosos a qualidade pictórica das obras de Artemisia, ao mesmo tempo não deixou de exprimir horror pela violência das cenas bíblicas; diante das imagens de belas mulheres sumptuosamente vestidas  que massacram ou acabaram de massacrar um homem formulava-se perguntas perplexas sobre o eventual nexo entre o sujeito representado e a mulher que o tinha pintado. A sua ideia do feminino  estava chocada: «Quem diria (…) que poderia acontecer uma carnificina tão brutal e hedionda que até  parece um quadro pintado pelo algoz Lang?» escreveu, e acrescentava: «Mas, dá vontade de dizer, esta mulher é terrível! Uma mulher pintou tudo isto?».

Portanto, diante do quadro proveniente do Palácio Spada em Roma, uma das suas raras representações de Nossa Senhora com o Menino, a sua interpretação da maternidade é decididamente excêntrica: a Mãe parece meio adormecida e pouco solícita  para com o seu imponente Menino, que parece querer atrair de qualquer modo a sua atenção. Assim, chega-se a pensar que o mais difundido e popular símbolo ocidental da feminilidade, o da Mãe de Deus, foi produzido e articulado pelo pensamento e pela imaginação masculina.

Padres da Igreja, filósofos e teólogos colaboraram para definir o ícone cristão da maternidade, estabelecido na imagem dulcíssima da Mãe com o Menino. Este longo processo conceitual e pictórico parece que surgiu do modo mais próximo e vivo de um desejo profundo, antiquíssimo da psicologia masculina. A representação cristã do diálogo amoroso da Mãe com o Filho, a relação carnal da amamentação, a proximidade enternecida poderiam ser expressão da recordação de uma condição feliz primordial, na qual estão ausentes a luta pela sobrevivência e as batalhas pelo alimento. A Mãe cristã que nutre oferece a salvação à humanidade desde quando, segundo o Gênesis, o Senhor  infligiu a Adão a sua condenação («comerás o pão com o suor do teu rosto»).

Quem representou nos séculos e em milhares de imagens a terna relação da Mãe com o Filho, realização do sonho de ser nutrido naturalmente e sem méritos, em doce relação carnal com o alimento materno e de experimentar a proximidade afectuosa com o seu Corpo,  foram homens cristãos. Triunfo do feminino, que inclui em si todos os aspectos  das virtudes antigas e cristãs: a dedicação, a piedade, a paciência, o cuidado e a fidelidade.

Isabella Ducrot

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

19 de Agosto de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS