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Uma civilização única

No nosso tempo de excessos quase diários em busca de fáceis consensos mediáticos, a visita pastoral de Bento XVI à diocese de São Marino-Montefeltro pareceu uma feliz raridade.

Ele disse coisas grandes e extraordinárias, como se conversasse com os seus ouvintes. De resto, um sentido de gentileza e moderação caracterizou a hospitalidade a ele reservada pela diocese mais singular da Itália e da República mais antiga do mundo.

Uma só vez a voz do Papa, de suave e convincente, improvisamente tornou-se vibrante: quando no estádio de Serravale, momento de maior afluência de todo o itinerário, ao texto escrito da homilia para explicar o evangelho do domingo da Trindade, acrescentou: «Festa de Deus». Talvez não por acaso. Com efeito, este parece ser o ponto focal, muito ratzingeriano, para ler melhor a inteira visita a São Marino e o encontro final diante da catedral de Pennabilli, dedicado aos jovens. Deus não é um tema ocasional entre muitos, mas a questão central da proposta teológica de Bento XVI, da qual descende cada acção pastoral capaz de tocar o coração do homem.

O Papa sabe falar de Deus como «primeiro e supremo mistério da nossa fé», mas especialmente como amor, ponto de partida para conseguir ver com olhos novos a grande história dos povos e a crónica diária das pessoas. Amor e liberdade, termos facilmente desviados e traídos, mas que encontram consistência na fé cristã, foram palavras-chave nesta visita pastoral. Repetidas em contextos diversos, mas sempre associadas ao convite a uma vida coerente com aquilo em que se crê. Com a fé no Deus revelado em Cristo — recordou o Pontífice — determinam-se uma cultura e uma civilização «centradas na pessoa humana, imagem de Deus e por isso portador de direitos precedentes a qualquer legislação humana».

A riqueza distintiva da República de São Marino foi a fé cristã que criou no pequeno território uma «civilização verdadeiramente única», ancorada numa «convivência pacífica segundo os critérios de democracia e solidariedade». Graças a ela — acrescentou o Papa falando aos capitães-regentes na sala do Conselho Grande e Geral do Palácio Público — «pode-se construir uma sociedade atenta ao verdadeiro bem da pessoa humana, à sua dignidade e liberdade, e capaz de salvaguardar o direito de cada povo a viver em paz». São referências da laicidade no âmbito da qual as instituições civis devem empenhar-se em defesa do bem comum e a Igreja há-de colaborar para o serviço do homem «na defesa dos seus direitos fundamentais, daquelas instâncias éticas que estão inscritas na sua própria natureza».

O santos são os que melhor falam de Deus e testemunham o seu amor, dando vida a experiências duradouras, como aconteceu na história de são Marinho e são Leão. Foram dois artesãos cristãos dos primeiros séculos que se tornaram diácono e sacerdote. Eles permanecem na origem da comunidade cristã da diocese de São Marino-Montefeltro. Às palavras os santos unem o exemplo, que as torna convincentes; e por isso foi possível a são Marinho deixar no testamento à sua comunidade a recomendação de que permanecesse livre de qualquer poder.

Como recordação da sua visita, Bento XVIconfiou a todos os fiéis a exortação a «ser como fermento no mundo» demonstrando-se «cristãos presentes, empreendedores e coerentes». Com um estilo mais de encorajamento que de juízo e sensíveis às situações de particulares necessidades, seguindo o exemplo do amor de Deus. Para o nosso tempo de crise económica e o prevalecer de modelos consumistas, o Papa pôs em primeiro lugar a atenção à família; a tutela da vida; o apoio ao trabalho dos jovens atingidos como nunca pela precariedade; e o acolhimento dos refugiados. Agindo assim, abrem-se horizontes de esperança não vã num mundo novo onde o protótipo de cidadão é quem segue os passos de Cristo.

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23 de Setembro de 2019

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