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Um zoom sobre a violência

Não há muitos filmes que tenham como argumento central o estupro de guerra. Talvez o único que no passado abordou explicitamente a questão foi La ciociara (Vittorio De Sica, 1960), baseado no romance de Alberto Moravia, no qual a protagonista, interpretada por Sofia Loren, é violada juntamente com a jovem filha pela mão de um grupo de goumier durante a segunda guerra mundial, pouco antes do fim da ocupação alemã. O cineasta italiano neste caso demonstra coragem que antecipa os tempos, mas o mesmo não se pode dizer em relação à sua sensibilidade, pelo menos nos momentos cruciais: a cena em que se representa o estupro revela expedientes expressivos desapropriados. O zoom no rosto da menina no momento da violência pode ser comparado com a célebre – muito mais frequentemente condenado – máquina de filmar que corre em frente para focar a vítima de um campo de concentração em Kapò. Como ali, há uma ênfase rude e não necessária e, portanto, um sensacionalismo completamente fora do lugar. Muito mais convincente é o final do filme, em que vemos quais consequências teve a violência sobre a jovem protagonista.

Um caso singular é o de Brian De Palma. O cineasta norte-americano especializado em thrillers de Hitchcock abordou o tema do estupro de guerra duas vezes, usando praticamente o mesmo sujeito em ambos os casos, encenando-o porém de formas radicalmente diferentes. Ambientado durante a guerra do Vietname, Vítimas de guerra (1989) conta a história real de um pelotão do exército norte-americano que estupra e mata uma cidadã vietnamita, impulsionado pelo ódio cego ao inimigo. De Palma não recua diante do horror, e o tom da narração é indignado e bastante antipatriótico, mas o tema da violência está inserido naquele mais amplo da guerra que leva a uma loucura substancial. Ao contrário, é completamente diferente a abordagem adotada para o mais recente Redacted (2007), em que a violência tem como pano de fundo a guerra no Iraque. Aqui De Palma procura o realismo mais absoluto, baseando-se em peças de falsos documentários, páginas de internet, ecrãs de telemóveis, câmaras de vigilância. A cena do estupro é muito dura, mas justificada por uma narração desta vez completamente sincera.

Depois, há filmes que analisam as consequências que o trauma produz após um determinado período. Em segredo (Jasmila Zbanic, 2006) – vencedor do Urso de Ouro – e A mulher que canta (Denis Villeneuve, 2010), respetivamente sobre a guerra civil na Bósnia e no Líbano, são dois filmes bem dirigidos e sobretudo bem recitados, onde se narram os dramas de duas gerações. O das mães violadas que lutam para se reinserirem na vida normal, e o dos filhos que descobrem com consternação terem nascido desse crime terrível.

O melhor filme sobre o tema, no entanto, é talvez o recente Agnus Dei (Anne Fontaine, 2016). Vítimas da violência são neste caso duas freiras de um convento polaco pelas mãos de soldados soviéticos durante a segunda guerra mundial. O cineasta luxemburguês consegue traçar com extraordinária sensibilidade as almas inquietas das protagonistas, que oscilam entre a rejeição de algo que vai completamente contra a própria escolha religiosa, e a emoção inevitável por uma vida nova que está para chegar.

Emilio Ranzato

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24 de Agosto de 2019

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