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Um terreno ocupado muito e muito pouco

· O papel dos homens e das mulheres na Igreja de hoje ·

Para uma biblista como eu, dizer e fazer tornaram-se inseparáveis. Na narração bíblica Deus é o primeiro que não se permite dizer sem agir: «Deus disse: «Faça-se a luz. E a luz foi feita» (Génesis, 1, 3). Nós, leitoras e leitores, às vezes um pouco distraídos, na nossa vida de homens e mulheres contudo reconhecemos que a Palavra – que é luz – fez-se carne, e isto é mesmo um “fazer” que não exclui nada daquilo a que nós chamamos ser humano.

Como outros, também eu sou uma leitora apaixonada da Bíblia. Esta leitura convenceu-me que, ao falar somente do ser humano, a Bíblia também me pode falar de Deus. Esta convicção juntou, por um lado, a minha experiência de vida de mulher, esposa e mãe, iluminada pelas ciências humanas e, por outro lado, uma leitura sempre renovada dos textos. E isto no sulco traçado por aquele eminente leitor que foi o jesuíta Paul Beauchamp.

Concidadã e contemporânea de Elisabeth Schüssler-Fiorenza, que me inspirou a ideia de Igreja como uma «comunidade de discípulos iguais», ao mesmo tempo baseando-me na tradição de Mateus que o Papa Francisco recordou na sua mensagem para a celebração do Dia mundial da Paz de 1 de Janeiro de 2014: «Quanto a vós, não vos deixeis chamar ‘mestres’, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis ‘Pai’, porque um só é o vosso ‘Pai’: aquele que está no Céu» (Mateus, 23, 8-9).

Admiramos aqui as duas diversas formas do verbo “chamar”, no passivo e no activo! Parece-me cada vez mais evidente que só o abandono de uma qualquer hierarquização pode conduzir à fraternidade desejada pelo nosso Mestre. Penso também que o feminismo tenha contribuído para que esta fraternidade acontecesse ao indicar um obstáculo inevitável ao longo do caminho: o sexismo, que vive do receio de acolher a diferença sexual e as constantes questões que ela nos apresenta. Ora bem, este medo tornou-se quase independente a ponto de condicionar cada mínimo afastamento dos esquemas de poder firmemente estabelecidos. Mas, digamo-lo claramente: ser mulher não protege nem sequer da vontade de ver outros mais abaixo na escada!

Ao ver o que o nosso Papa está a fazer, não tenho dúvidas de que se aproximará o mais possível do dizer e do fazer no tempo do seu ministério. Tomo como testemunho a sua exortação apostólica Evangelii gaudium (n. 11) onde explica este desafio: «Na sua vinda, [Cristo] trouxe consigo toda a novidade. Com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade, e a proposta cristã, ainda que atravesse períodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece. Jesus Cristo pode romper também os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisioná-Lo, e surpreende-nos com a sua constante criatividade divina. Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo actual. Na realidade, toda a acção evangelizadora autêntica é sempre “nova”».

Desde que era jovem liga-me uma profunda amizade com uma mulher italiana, Luisa Muraro, que dedicou a sua vida de filósofa a reflectir sobre a diferença sexual, acompanhando a luta das mulheres para se tornarem livremente o que são. Ela ensinou-me que não há nada de descontado nesta tomada de consciência de nós mulheres, prisioneiras como somos de representações do mundo e da fé que, na medida que falseiam o “dois” humano, estão radicalmente em desacordo com o projecto de Deus, o único “Um”. Mais do que as mulheres camaronesas, cuja vida partilhei durante alguns anos, nós mulheres europeias necessitamos de uma verdadeira revolução cultural para limpar dos espinhos o terreno onde meter o pé sem pisar o dos outros. Tanto na Igreja, como na sociedade, esta revolução cultural exige dos homens e das mulheres o humilde reconhecimento do terreno ocupado demais por uns ou deixado livre por elas. Durante anos fui membro de uma comunidade de base e era o padre que devia incentivar as mulheres a falarem, porque com frequência elas estavam pouco convencidas de serem portadoras de uma palavra livre e fidedigna. Agora sabemos todas que neste campo a sociedade mudou, além do expediente das quotas de representação política e social. Mas a Igreja – que faz referência a Cristo, Palavra e Luz – deveria justamente com o seu “fazer” preceder e iluminar o árduo caminho para a fraternidade. Como mulher e como biblista, espero que o Espírito Santo um dia inspire à Igreja o desejo de escutar e debater o tema da vida e do lugar das mulheres dentro dela. Em todos os tempos os movimentos do Espírito encontraram hesitações na Igreja. Muitas mulheres (e também alguns homens) sentem uma grande desconfiança de uma comunidade de fé - a delas – que não as ouve. Porém estou convencida que a questão não consiste nas reivindicações, mas que dependa mais de quanto a fraternidade baptismal saiba relançar o desafio ainda mais para diante, ou seja: a ruptura com qualquer forma de domínio e de privilégio, instituídos em nome das diferenças, sejam elas religiosas, sociais ou sexuais (cfr. Gálatas 3, 26-28).

Enquanto os homens e as mulheres estiverem mais apegados à condição clerical do que ao serviço fraterno, a Igreja corre o risco de não realizar a conversão de todo o povo de Deus em vista da sua responsabilidade pastoral. São muito raros os homens consagrados que lhe dirigem este apelo e são ainda muito raras as mulheres que aceitam os sinais da proximidade de Deus através de uma outra mulher. Um passo na direcção certa seria o de notificar-lhes a qualidade de discípulos iguais ao serviço da Palavra. Uma revolução cultural (e do culto) requer tempo, é necessário iniciar a conceder-lho. Uma coisa é certa, já há muito tempo: a recusa de avançar na direcção de um povo fraterno não pode basear-se em razões teológicas.

Dorothée Bauschke

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12 de Novembro de 2019

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