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Um pontapé à violência

· Entrevista com a irmã Anna Bałchan que semeia «ajuda» para restituir dignidade às vítimas ·

O campeonato europeu de futebol, recentemente realizado, voltou a trazer ao centro do cenário a questão relativa ao sexo a pagamento, que precisamente nestas ocasiões alcança os seus índices mais elevados. Deste fenómeno ocupou-se também o Parlamento europeu em  2006, mediante a campanha «Cartão vermelho à prostituição forçada durante os acontecimentos desportivos». Desde há anos irmã Anna Bałchan ocupa-se deste problema na Polónia. Perguntamos-lhe: esta preocupação é real?

O departamento para as políticas migratórias do ministério do Interior polaco afirmou que está contente com o facto de que o Parlamento europeu tenha tratado este problema. O risco não deve ser subestimado: os artífices deste comércio não são carteiristas, mas criminosos. O trabalho é incessante: por exemplo, a fundação Filhos de ninguém acabou de inaugurar uma campanha de informação com o seguinte slogan: «Não percas», dedicada à exploração sexual das crianças. Foram organizados cursos de formação para agentes policiais, forças da ordem e pedagogos das cidades que hospedaram os jogos do campeonato europeu. A polícia instituiu uma linha telefónica para os turistas; no centro nacional de intervenção e consultas para as vítimas deste comércio preparou camas suplementares, onde fossem úteis. Trata-se de um compromisso maciço de forças da ordem e de Organizações não governamentais que indubitavelmente terá um forte efeito dissuasivo. No entanto, contra este comércio é necessário opor-se de maneira  sistemática: é um crime que acontece todos os dias perto de nós, e os criminosos certamente não esperam o campeonato.

A vossa associação, Po MOC («Ajuda»), nasceu em  2000 em Katowice, no sudoeste da Polónia, para assistir as mulheres em risco e os seus filhos, vítimas da violência sexual e doméstica, do comércio e da pobreza. Como trabalhais?

Oferecemos uma assistência global, garantindo um refúgio seguro e um apoio socioeconómico, terapêutico e espiritual para um acompanhamento no desenvolvimento pessoal. Os modos concretos são de vários tipos e têm diversos objectivos, não obstante todos visem a mesma finalidade: encaminhar a pessoa para a mudança. Os nossos instrumentos são o chamado «streetworking», o consultório, o centro aberto vinte e quatro horas por dia, as casas para favorecer a reinserção das pessoas e a actividade de formação e prevenção. Assim, durante algumas horas os nossos voluntários trabalham na rua, com as vítimas do comércio: estabelecem contactos, oferecem informações sobre as possibilidades de receber ajuda, distribuem prospectos sobre o vih, a sida e cursos profissionais, e celebram as festas com as novas escravas. Trata-se do «streetworking», ou seja, sair pelas ruas para transmitir uma mensagem simples: se queres mudar algo, podes fazê-lo. De 2001 a 2011 oferecemos em média 160 horas de actividades anuais. No consultório (onde prestam serviço também psicólogos, advogados, terapeutas e assistentes sociais) redigimos um plano de ajuda individual e oferecemos gratuitamente consultas jurídicas, médicas e de trabalho. De 2001 a 2011 oferecemos 27.452 horas de consultório. O centro aberto vinte e quatro horas por dia oferece refúgio e alojamento, ajuda material, pedagógica, terapêutica, psicológica e espiritual. De 2004 a 2011 pudemos hospedar 214 pessoas, das quais 121 mulheres e 93 menores (147 vítimas da violência: respectivamente 75 mulheres e 72 crianças; 67 vítimas do comércio: respectivamente 46 e 21). Por fim, as casas para a inserção: trata-se da etapa sucessiva, no processo rumo à autonomia. É necessário aprender a gerir a vida de uma casa em todos os seus aspectos. A finalidade consiste em aumentar a sensação de segurança da pessoa. Tudo se torna ocasião inestimável para semear a mudança e procurar criar relacionamentos sadios com o próximo.

Como nasce o vosso método «streetworking»?

O método remonta ao século XIX, quando as religiosas iam à estação para acolher as moças e as mulheres que chegavam à cidade em busca de um trabalho: ofereciam-lhes alojamento, cursos profissionais e assistência para encontrar trabalhos honestos, procurando evitar que terminassem nas casas de prostituição. Hoje, o «streetworking» representa um método cada vez mais popular, que se tornou uma parte integrante da assistência social. Ele abrange muitos grupos: os desabrigados, os drogados, as crianças de rua e as vítimas do comércio. Comecei a trabalhar com as crianças de rua e depois com as mulheres: assim consegui instaurar um contacto e compreendi as suas necessidades, premissas indispensáveis para realizar a mudança. O «streetworking» é necessário porque existem pessoas que, pelos motivos mais diversificados, jamais procurarão ajuda nas estruturas de assistência. Porque não conhecem as possibilidades de ajuda; porque sentem vergonha em relação ao seu grupo de pertença; porque acreditam que é normal viver em família a violência, o alcoolismo, o abandono e a mendicidade.

A irmã falou de prevenção...

Cito um exemplo concreto. Desde que entrou em vigor o tratado de Schengen, muitos polacos partem em busca de um trabalho no estrangeiro: é fundamental que eles conheçam os riscos que devem enfrentar, quais são os seus direitos, onde procurar ajuda. Colaboramos com a agência de trabalho Aterima: nos autocarros que partem para as cidades europeias nós distribuímos textos em que oferecemos estas informações.

A irmã faz parte da Congregação das Irmãs de Maria Imaculada, fundada em 1863: emigrando para as cidades em busca de trabalho, muitas jovens acabam por ficar sozinhas, à mercê da violência, das enfermidades e da avidez. O que mudou desde então na sociedade e na Congregação?

Os riscos para as mulheres existem sempre, aliás, com o passar do tempo até aumentaram.  Durante a guerra e na época comunista, as possibilidade de acção para as religiosas eram inexistentes: foram fechadas as escolas profissionais por elas geridas, encerrados os colégios, os hospitais e os orfanatos, pois o Estado tinha requisitado tudo. Agora, ao contrário, as religiosas podem novamente desempenhar o seu trabalho. No carisma da nossa Congregação subsiste o compromisso a favor da mulher, uma espécie de «full service», desde o nascimento até à morte natural: tudo o que diz respeito ao seu papel no mundo, ao seu valor e à sua dignidade no plano do Criador, a ajuda para lhes fazer experimentar o Deus vivo.

Em 2004 a Polónia entrou na União europeia: houve mudanças na área em que trabalhais?

As mudanças foram numerosas. Por um lado, diminuíram os controles; por outro, surgiram novos perigos ocultos, por detrás de actividades aparentemente legais. Porém, a nossa impressão é de que a União europeia tem como projecto legalizar a prostituição: nunca se fala de ajuda às pessoas envolvidas nesta indústria, para as mulheres que gostariam de mudar de vida. Não existem recursos económicos para lhes oferecer uma assistência séria e especializada. A ajuda que nós oferecemos só é possível graças aos benfeitores individuais e a formas modestas de autofinanciamento.

Que significado tem, o facto de que sejam mulheres consagradas as que enfrentam uma violência tão conotada sexualmente?

Cada mulher é criada para a liberdade, para o amor, e não para ser usada. Como religiosas e como mulheres, trabalhamos juntas, e com uma só voz defendemos aquela realidade para a qual Deus nos chamou, ou seja, para a vida na liberdade e no amor, para podermos corresponder à nossa vocação como mulheres no mundo.

Que problemas específicos apresenta a violência exercida por familiares ou namorados, por pessoas nas quais as mulheres confiaram?

Uma pessoa amada tem a força para ser feliz e compartilhar esta felicidade com os outros, e portanto gera a beleza e o bem. A violência (que age contra a energia positiva) e o sofrimento que dela deriva tornam a vida insensata. Um dos métodos de recrutamento do comércio é a isca do amor, o modo mais pérfido e profundo de destruir a pessoa. Desejamos o amor a tal ponto, e estamos dispostos a fazer tanto, que somos capazes de viver prolongadamente na ilusão do amor, antes de compreender a verdade dolorosa, ou seja, que fomos usados de modo premeditado. São feridas que tornam muito difícil dar novamente confiança ao próximo e construir relacionamentos sadios. Se nasce uma criança, por exemplo, torna-se difícil manifestar-lhe o amor.

Acabou de sair o seu novo álbum «Senhor, ensinai-me»: que cantautora é irmã Anna?

Sou uma artista popular! O disco é dedicado a todos aqueles que sentiram a saudade do amor verdadeiro, que perderam algo, às vezes também sonhos, que se questionaram a respeito do sentido de tudo o que acontece agora e daquilo que poderá verificar-se também no futuro. Os eventuais lucros são destinados a sustentar a nossa associação.

De que modo a sua pessoa e a sua vocação são expressos através da sua música?

As canções que escrevo são na realidade colóquios com o meu Deus, contêm um diálogo que fala de saudades, do tempo que passa, dos relacionamentos com o próximo. Para mim é mais fácil falar com Deus assim, manifestando aquilo que a palavra não consegue dizer. É uma minha pessoal liturgia das horas.

Irmã Anna Bałchan faz parte da Congregação das Irmãs de Maria Imaculada, fundada em 1863 pelo sacerdote Johannes Schneider em Breslávia, para se ocupar das jovens trabalhadoras em risco. Hoje a Congregação está presente na Alemanha, Itália, Letónia, Polónia, Tanzânia e Ucrânia. A associação Po MOC, fundada em Katowice no dia 23 de Outubro de 2000, ocupa-se de mulheres e crianças em dificuldade. É composta por quatro religiosas, seis leigos, nove especialistas e oito voluntários. As pessoas assistidas são búlgaras, moldavas, romenas, russas, ucranianas e, predominantemente, polacas.

Giulia Galeotti

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14 de Outubro de 2019

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