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Um instrumento para a nova evangelização

· Na apresentação do livro de Bento XVI com Peter Seewald «Luz do mundo. O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos» ·

Publicamos a nossa tradução da intervenção do arcebispo Presidente do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização, pronunciada na manhã de terça-feira, 23 de Novembro, durante a apresentação da obra na Sala de Imprensa da Santa Sé.

Licht der Welt . Luz do mundo. A grafia do Papa é inconfundível e encontrá-la impressa na primeira página do volume surte um certo efeito. Ele mesmo, com extrema probabilidade, escolheu o título e isto é significativo. Numa entrevista supõe-se que o papel central seja desempenhado pelo entrevistado; mas neste caso, não é assim. O título escolhido não permite que nos detenhamos na pessoa do Papa, mas remete para além, para quem ainda depois de dois mil anos ilumina a história, porque disse que era a «luz do mundo». Contudo, o protagonista destas páginas mostra ser do início a Igreja. As muitas perguntas que compõem o diálogo, mais não fazem do que evidenciar a natureza da Igreja, a sua presença na história, o serviço que o Papa é chamado a desempenhar e, o que não é secundário, a missão que ainda hoje deve continuar para ser fiel ao seu Senhor. «Vivemos numa época na qual o único Evangelho deve ser anunciado na sua racionalidade grande e invariável, e ao mesmo tempo naquele poder que supera a racionalidade, de tal modo que alcança de forma nova o nosso pensar e a nossa compreensão... É importante compreender a Igreja não como um aparato que deve fazer de tudo, mas como órgão vivo que provém do próprio Cristo» (pp. 193-194). À luz desta referência, é fácil compreender o objectivo que marca estes anos do pontificado orientados para mostrar quanto é decisivo para o homem de hoje saber captar a presença de Deus na sua vida para poder responder de modo livre — isto de facto comporta o contínuo realce da racionalidade — à pergunta qualificante sobre o sentido da própria existência. O raio de acção que a entrevista abrange é amplo, parece que nada seja esquecido pela curiosidade de Peter Seewald que quer entrar até às vísceras da vida pessoal do Papa, nas grandes questões que marcam a teologia do mundo, as diversas vicissitudes políticas que acompanham desde sempre as relações entre diversos países e, por fim, as perguntas que muitas vezes ocupam grande parte do debate público. Estamos perante um Papa que não se subtrai a pergunta alguma, que tudo deseja esclarecer com uma linguagem simples, mas não por isto menos profunda, e que aceita com benevolência aquelas provocações que tantas questões possuem. Contudo, limitar toda a entrevista a uma frase extrapolada do pensamento global de Bento XVI seria uma ofensa à inteligência do Papa e uma instrumentalização gratuita das suas obras. Ao contrário, o que sobressai do quadro total destas páginas é a visão de uma Igreja chamada a ser Luz do mundo, sinal de unidade de todo o género humano — usando uma conhecida expressão do concílio Vaticano II — e instrumento para captar o essencial da vida. Mesmo se aparece aos nossos olhos como uma Igreja que dá escândalo, que não quer adequar-se aos comportamentos da moda, que parece ser imcompreensível nos seus ensinamentos e que, talvez, deixe entrever possíveis enredos internos de homens que obscurecem a sua santidade. Contudo, sobre o ensinamento do Mestre «luz do mundo», cidade situada sobre o monte para ser vista por todos. Sinal de contradição que tem a missão de manter viva ao longo dos séculos a fé no Senhor Ressuscitado até à sua vinda: «Olhemos para Cristo que vem. É nesta perspectiva que vivemos a fé, voltados para o futuro» (p. 97).

Licht der Welt , obviamente, não é um volume escrito por Bento XVI; mas nele condensam-se o seu pensamento, as suas preocupações e sofrimentos destes anos, o seu programa pastoral e as expectativas para o futuro. A impressão que dele se tem é a de um Papa optimista acerca da vida da Igreja, não obstante as dificuldades que a acompanham desde sempre: «A Igreja cresce e é viva, é muito dinâmica. Nos últimos anos o número dos sacerdotes aumentou em todo o mundo e também o dos seminaristas» (p. 28): a Igreja não pode ser identificada apenas no fragmento de uma área geográfica; ela é um todo que funda, abraça e supera todas as partes. Uma Igreja composta também por pecadores; contudo, sem minimizar o mal, ele pode justamente afirmar que «se a Igreja já não existisse, inteiros âmbitos da vida sofreriam um colapso» (p. 54), porque o bem que realiza está diante dos olhos de todos não obstante se queira com frequência desviar o olhar para outras partes.

Página após página nota-se a paciência de querer responder com clareza a todas as perguntas que são feitas. Bento XVI abre o coração da sua vida quotidiana, assim como expressa com a devida parrésia os problemas mais evidentes da história destes anos. Se, por um lado, parece deixar-nos entrar no seu apartamento, partilhando com o leitor os ritmos do seu dia, por outro evoca imagens que descrevem bem o estado de ânimo dos meses passados: «Sim, é uma crise grande, é preciso dizê-lo. Foi arrasador para todos nós. Repentinamente toda aquela imundície. Foi como se a cratera de um vulcão tivesse imprevistamente expulso uma grande quantidade de imundície e obscurecesse tudo» (p. 44). O tom simples das suas respostas é fortificado pela plasticidade das imagens que recorrem com frequência, permitindo compreender plenamente o drama de alguns factos. Contudo, do tom pacato das suas respostas e do desenvolvimento do seu argumentar, o que sobressai de modo claro é sobretudo a espiritualidade que caracteriza a sua vida a ponto de deixar sem palavras. «Desde o momento em que a escolha recaiu sobre mim, fui capaz de dizer apenas isto: Senhor, que me estás a fazer? Agora a responsabilidade é tua. Tu deves guiar-me. Eu disto não sou capaz. Se tu me quiseste, agora também me deves ajudar» (p. 18; cf. p. 33). Quem lê rende-se. Ou se aceita a visão da fé como um autêntico abandonar-se em Deus que te transporta onde ele quer, ou nos entregamos às interpretações mais fantasiosas que caracterizam muitas vezes as tagarelices clericais e não só. Mas a verdade está toda naquelas palavras. Se quisermos compreender Bento XVI, a sua vida e o seu pontificado, é preciso voltar a esta expressão. Condensa-se aqui a vocação ao sacerdócio como uma chamada ao seguimento; compreende-se aqui o porquê de uma trajectória que não pode ser modificada na sua visão do mundo e do agir da Igreja; capta-se aqui a perspectiva através da qual é possível entrar na profundeza do seu pensamento e na interpretação de algumas das suas acções. Há uma palavra em alemão que sintetiza tudo isto: Gelassenheit, ou seja, o abandono confiante usque ad cadaver. Ela expressa a escolha decisiva de liberdade como um radical esvaziamento de si para se deixar plasmar e guiar onde o Senhor quer; em síntese, o Papa identifica-se mais do que qualquer outro como um «pobre mendicante diante de Deus» (p. 35). A espiritualidade cristocêntrica, que várias vezes é recordada, alimentada por um vínculo profundo com a liturgia (cf. pp. 153-154); permite compreender o comportamento de Bento XVI. Aliás ele mesmo o afirma quando, respondendo à pergunta sobre o poder que um Papa tem, afirma: «Ser Papa não significa apresentar-se como um soberano cheio de glória, mas antes dar testemunho d’Aquele que foi crucificado e estar disposto a exercer o seu ministério também nesta forma em união com ele» (p. 26). Nesta óptica, torna-se pelo menos paradoxal ler a expressão seguinte que parece contradizer o que acabou de ser afirmado enquanto, ao contrário, o coloca no seu horizonte coerente de compreensão: «Toda a minha vida foi atravessada por um fio condutor, este: o cristianismo dá alegria, alarga os horizontes» (p. 27). Em suma, um Papa que continua a ser optimista; não em primeiro lugar pela objectiva dinamicidade da Igreja tornada evidente por tantas forças de espiritualidade, mas sobretudo em virtude do amor que tudo plasma e tudo vence (p. 90-91).

Uma entrevista que em muitos aspectos se torna uma provocação para cumprir um sério exame de consciência dentro e fora da Igreja para chegar a uma verdadeira conversão do coração e da mente. As condições de vida da sociedade, a ecologia, a sexualidade, a economia e as finanças, a própria Igreja... são todos temas que exigem um empenho particular para verificar o rumo cultural do mundo de hoje e as perspectivas que se abrem para o futuro. Bento XVI não se deixa amedrontar pelos números das sondagens, porque a verdade possui outros critérios: «a estatística não é o metro da moral» (p. 204). Está consciente de que estamos diante de um «envenenamento do pensamento que a priori dá perspectivas erradas» (p. 77), por isso provoca a captar o caminho necessário rumo à verdade (cf. pp. 79-80), para ser capazes de dar um progresso genuíno ao mundo de hoje (cf. pp. 70-71). Contudo, estas páginas deixam transparecer com clareza o pensamento do Papa e alguns deverão mudar de opinião no que se refere às descrições ousadas dadas no passado como de um homem obscurantista e inimigo da modernidade: «É importante que procuremos viver e pensar o cristianismo de tal modo que assuma a modernidade boa e justa» (p. 87) com as suas conquistas e com os valores que soube alcançar com fadiga: «Existem naturaliter muitos temas dos quais emerge por assim dizer a moralidade da modernidade. A modernidade não consiste só de negatividades. Se assim fosse não poderia durar por muito tempo. Ela tem em si grandes valores morais que provêm precisamente também do cristianismo, que só graças ao cristianismo, enquanto valores, entraram na consciência da humanidade. Onde eles são defendidos — e devem ser defendidos pelo Papa — há adesão em áreas muito vastas» (p. 40). Estas chamadas fazem compreender por que o Papa pensa com tanta frequência no tema da nova evangelização para alcançar todos os que se encontram na condição de ser «filhos» da modernidade tendo captado apenas alguns aspectos, nem sempre os mais positivos, enquanto esqueceram a necessária busca da verdade e, sobretudo, a exigência de orientar a própria vida numa visão unitária e não contraposta (cf. p. 87). Esta resulta ser uma das suas tarefas programáticas com as quais seremos chamados a confrontar-nos: «Enfrentar com renovadas forças o desafio do anúncio do Evangelho ao mundo, usar todas as nossas forças para o alcançar, faz parte das tarefas programáticas que me foram confiadas» (p. 185; cf. p. 193). Bento XVI fala com frequência nestas páginas da relação entre modernidade e cristianismo. Uma relação que não pode nem deve ser vivida paralelamente, mas conjugando de modo correcto fé e razão, direitos individuais e responsabilidade social. Numa palavra, «Voltar a pôr Deus no primeiro lugar» (p. 96) para contradizer grande parte da cultura dos decénios passados que apostou em demonstrar supérflua a «hipótese de Deus» (p. 190). É esta a conversão que Bento XVI pede aos cristãos e a quantos desejarem ouvir a sua voz: «Voltar a dar realce à prioridade de Deus. O que hoje é mais importante é ver de novo que Deus existe, que Deus olha para nós de novo e nos responde. E que, ao contrário, quando falta, tudo pode ser racional quanto se quiser, mas o homem perde a sua dignidade e a sua específica humanidade e assim desaba o essencial» (p. 100). É esta a tarefa que o Papa se estabelece para o seu pontificado e, honestamente, não se pode negar como ela seja difícil: «Compreender a dramaticidade do nosso tempo, permanecer firmes na Palavra de Deus como a palavra decisiva e ao mesmo tempo conferir ao cristianismo aquela simplicidade e profundidade sem as quais não pode agir» (p. 101).

Familiaridade, confidências, ironia, nalguns momentos sarcasmo mas, sobretudo, simplicidade e verdade são as características deste diálogo escolhido por Bento XVI para fazer com que o grande público seja partícipe do seu pensamento, do seu modo de ser e da sua maneira de conceber a missão que lhe foi confiada. Um empreendimento não fácil na época da comunicação que com frequência tende para ressaltar só alguns fragmentos e deixa na penumbra a globalidade. Um volume que se deve ler e meditar para compreender mais uma vez de que modo a Igreja pode ser no mundo anúncio de uma boa notícia que traz alegria e serenidade.

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22 de Setembro de 2019

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