Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Um futuro livre do ódio e da vingança

· Bento XVI visitou o sacrário das fossas ardeatinas ·

É possível «um futuro diferente, livre do ódio e da vingança, um futuro de liberdade e de fraternidade»: afirmou o Papa durante a visita realizada, na manhã de domingo 27 de Março, ao sacrário romano das fossas ardeatinas.

Queridos irmãos e irmãs!

Aceitei de bom grado o convite, que me foi dirigido pela «Associação nacional das famílias italianas dos mártires mortos pela liberdade da pátria», a realizar uma peregrinação a este sacrário, amado por todos os italianos, sobretudo pelo povo romano. Saúdo o Cardeal Vigário, o Rabino-Chefe, o Presidente da Associação e especialmente os familiares das vítimas, como também todos os presentes.

«Creio em Deus e na Itália / creio na ressurreição / dos mártires e dos heróis / creio no renascimento / da pátria e na / liberdade do povo». Estas palavras foram gravadas na parede de uma cela de tortura, na Via Tasso, em Roma, durante a ocupação nazi. São o testamento de uma pessoa desconhecida, que naquela cela foi aprisionada, e demonstram que o espírito humano permanece livre até nas situações mais difíceis. «Creio em Deus e na Itália»: esta frase emocionou-me pois este ano celebra-se também o 150º aniversário da unidade da Itália, mas sobretudo porque afirma a primazia da fé, da qual haurir a confiança e a esperança para a Itália e para o seu futuro. O que aconteceu aqui em 24 de Março de 1944 é ofensa gravíssima a Deus, porque é a violência deliberada do homem contra o homem. É a consequência mais execrável da guerra, de qualquer guerra, porque Deus é vida, paz, comunhão.

Como os meus Predecessores, vim aqui rezar e renovar a memória. Vim invocar a Misericórdia divina, a única que pode preencher os vazios, os abismos abertos pelos homens quando, impelidos pela violência cega, renegam a própria dignidade de filhos de Deus e irmãos entre si. Também eu, como Bispo de Roma, cidade consagrada pelo sangue dos mártires do Evangelho do Amor, venho prestar homenagem a estes irmãos, mortos a pouca distância das antigas catacumbas.

«Creio em Deus e na Itália». Naquele testamento gravado num lugar de violência e de morte, a ligação entre a fé e o amor pela pátria revela-se em toda a sua pureza, sem retórica alguma. Quem escreveu aquelas palavras fê-lo só por convicção íntima, como testemunho extremo da verdade em que se acredita, que torna nobre a alma humana também na extrema humilhação. Cada homem é chamado a realizar desta forma a própria dignidade: testemunhando aquela verdade que reconhece com a própria consciência.

Impressionou-me outro testemunho, que foi encontrado precisamente nas Fossas Ardeatinas. Uma folha de papel sobre a qual uma das vítimas escreveu: «Deus, meu grande Pai, oremos para que tu possas proteger os judeus das bárbaras perseguições. 1 Pater noster , 10 Ave Maria , 1 Gloria Patri ». Naquele momento tão trágico, tão desumano, no coração daquela pessoa havia a invocação mais alta: «Deus, meu grande Pai». Pai de todos! Como nos lábios de Jesus, agonizante na cruz: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito». Naquele nome, «Pai», existe a garantia da esperança; a possibilidade de um futuro diferente, livre do ódio e da vingança, um futuro de liberdade e de fraternidade para Roma, a Europa e o mundo. Sim, onde quer que esteja, em qualquer continente, seja qual for o povo ao qual pertence, o homem é filho daquele Pai que está nos céus, é irmão de todos em humanidade. Mas este ser filho e irmão não é óbvio. Infelizmente, as Fossas Ardeatinas demonstram tudo isto. É necessário desejá-lo, é preciso dizer sim ao bem e não ao mal. É necessário acreditar no Deus do amor e da vida, e rejeitar qualquer falsa imagem divina, que atraiçoa o seu santo Nome e atraiçoa por conseguinte o homem, feito à sua imagem.

Portanto, neste lugar, doloroso memorial do mal mais abominável, a resposta mais verdadeira é a de se dar as mãos, como irmãos, e dizer: Pai nosso, nós cremos em Ti, e com a força do teu amor desejamos caminhar unidos em paz, em Roma, na Itália, na Europa, no mundo inteiro. Amém.

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

23 de Setembro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS