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Um encontro autêntico

· Bento XVI recebeu Fidel Castro na nunciatura apostólica ·

No fim, o encontrou realizou-se. Bento XVI e Fidel Castro conversaram amistosamente por cerca de trinta minutos. Não era um encontro inserido na agenda oficial da viagem, mas nunca houve dúvida alguma de que se teria realizado.

O líder idoso, que abandonou o cenário público mas não o imaginário colectivo, tinha manifestado o seu desejo profundo de se encontrar com Bento XVI, «um Papa que admiro muitíssimo», dissera várias vezes e depois repetiu ao próprio Pontífice, assim que se encontrou diante dele. A espera tornou-se espasmódica devido à atenção dos mass media, como se representasse a própria viagem do Papa a Cuba. É verdade que as personagens são de estatura mundial, mas não seria justo concentrar sobre esse encontro toda a atençã0 de uma obra apostólica que foi muito além de um momento, contudo significativo.

Permanece o facto de que ambos ficaram satisfeitos. O clima foi tranquilo, descontraído e amistoso, como se se encontrassem duas pessoas que já se conheciam há muito tempo. Castro chegou à nunciatura pontualíssimo no horário previsto. Foi recebido pelo cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, com o qual esperou o Papa. Nesses poucos minutos, o líder idoso manifestou a sua atenção pela vida da Igreja. Confessou que durante muito tempo esperou ver nos altares madre Teresa de Calcutá — «uma grande benfeitora para Cuba», definiu-a — e João Paulo II, «um homem que aprendi a apreciar tantíssimo». E pareceu espontâneo ao manifestar estes sentimentos.

Castro mostrou-se cansado e marcado pelos anos, mas lúcido e vivaz. E quando se encontrou face a face com Bento XVI compreendeu-se como na realidade ele tinha o desejo de o conhecer pessoalmente. Sem dúvida, tratou-se de um encontro autêntico. Castro demonstrou imediatamente uma grande curiosidade de conhecer, de saber. Dirigiu ao Papa uma série de perguntas de amplo alcance. A primeira foi inesperada: mas por que motivo a liturgia mudou tanto? A sua recordação estava fixa no período precedente ao Concílio, e o Pontífice começou a sua resposta precisamente pelo Vaticano II. Os padres conciliares julgaram que se devia mudar a liturgia para a tornar mais acessível aos fiéis, explicou o Papa. Mesmo se isto — acrescentou — criou situações que sugeriram ulteriores modificações, também para dar aos fiéis a possibilidade de penetrar mais profundamente no seu significado verdadeiro e, portanto, de participar de modo mais consciente.

Depois, o olhar dos dois interlocutores ampliou-se ao mundo, às mudanças culturais, sociais e económicas que, apesar do progresso da ciência em todos os campos, parecem revelar-se para o homem como uma causa de tensão, mais do que de bem-estar. O Papa explicou o agravar-se da situação com pretensão de manter Deus distante do cenário do mundo. A Igreja, por sua vez, procura restituí-lo ao centro da história do homem. Esta é a sua tarefa.

Nessa altura, Castro quis saber qual é o papel de um Pontífice neste cenário. Assim, Bento XVI falou-lhe da sua missão de guia espiritual de mais de um bilião de fiéis. «Devo ir ao seu encontro — disse — onde quer que eles se encontrem». Foi comovedor este momento: enquanto o Papa falava, Castro anuía com a cabeça. E no rosto transparecia o sinal daquela admiração sincera que sente por Bento XVI. Ele que, não obstante o avançar dos anos, ainda gostaria de se pôr em jogo, mas sente que as forças já lhe faltam. E perguntou ao Papa, quase seu coetâneo, se consegue fazer todas estas coisas. O sorriso do Pontífice foi imediato, como espontânea e firme foi a sua resposta: «É verdade, sou idoso, mas ainda posso cumprir o meu dever ao serviço da Igreja».

Continuaram a raciocinar sobre a idade porque Castro, ao manifestar a sua sintonia com Bento XVI, justificou-a precisamente evocando o facto «de pertencer à mesma geração». Aliás, disse que teria o prazer de poder falar mais frequentemente com ele de tudo o que o inquieta. Pois com ele compartilha a pertença a uma época que já parece distante. «Mas é precisamente esta nossa pertença à mesma geração — respondeu o Papa — que poderá manter-nos em contacto através do nosso pensamento geracional».

Castro insistiu, expondo-lhe as suas dificuldades em compreender bem qual é o sentido da religião perante as evoluções contínuas da ciência. Então, o Pontífice explicou-lhe brevemente o sentido do encontro entre ciência e fé, entre fé e razão, para lhe fazer entender que não se trata de dois âmbitos opostos entre si, mas de dois momentos fundamentais para a consciência do homem que, como tais, não devem ser separados.

Foi então que Castro se mostrou verdadeiramente como um homem sedento de saber. Impressionado pelas explicações do Papa, pelos seus conhecimentos, confessou-lhe que, não obstante passe o tempo a ler e a meditar sobre tudo o que diz respeito à vida do homem, naquele momento compreendera que ainda havia muitas coisas para conhecer. «Poderia indicar-se alguns livros para que eu possa aprofundar o meu conhecimento nesta matéria?», foi a sua pergunta. E o Papa retorquiu: «Sem dúvida. Mas permita-me pensar um pouco sobre o que lhe posso aconselhar. Comunicar-lhe-ei os títulos depois, através do núncio».

Estas foram as últimas expressões do encontro. Em seguida Fidel Castro, que estava acompanhado da senhora Dália, apresentou ao Pontífice três dos seus filhos e despediu-se. E enquanto deixava a nunciatura, continuava a repetir a quantos o saudavam: Saludos al Santo Padre , embora tivesse acabado de o ver. Parecia quase que não o queria deixar.

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13 de Novembro de 2019

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