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Um diálogo aberto

· Carta de Bento XVI ao matemático Piergiorgio Odifreddi ·

O respeito pelo interlocutor é medido com a capacidade de escuta. Quanto mais minuciosa é a atenção que se dedica às palavras que nos são dirigidas, mais o confronto se torna diálogo autêntico. Atitude que só é  na medida em que é autenticamente recíproca.

Há algum tempo Piergiorgio Odifreddi enviou a Bento XVI o seu livro Caro Papa, ti scrivo (Milão, Mondadori, 2011). E o Papa Emérito respondeu-lhe com uma carta longa, que o jornal romano «la Reppublica» de 24 de Setembro, antecipou em parte (quase metade), enquanto o texto integral sairá na nova edição do livro de Odifreddi.

Joseph Ratzinger pede desculpa pelo tempo que passou desde o recebimento do livro e a sua resposta, datada de 30 de Agosto de 2013 e enviada à casa do cientista em Turim. Um intervalo de tempo certamente  não atribuível aos 698 quilómetros de distância entre o mosteiro no Vaticano e a casa do matemático, no verde da cidade da dinastia, mas à atenção que, entre os seus muitos compromissos, Bento XVI quis dedicar ao volume.

Joseph Ratzinger é minucioso e pormenorizado. Na longa carta – que revela uma gentileza natural, uma mão estendida informalmente ao seu interlocutor – Bento XVI vai directamente ao âmago das páginas lidas, dos traços de proximidade colhidos pelo cientista ateu e partilhados pelo Papa teólogo, dos pequenos (e menos pequenos) erros presentes no texto, detendo-se por conseguinte – com a competência que lhe é reconhecida também pelos adversários –  sobre os pontos de encontro e sobre as discrepâncias, as quais se resumem numa tripartição. Algumas aceitáveis numa óptica de confronto entre posições que são, e permanecem, diferentes: outras não aceitáveis porque injuriosas (inclusive quando são formuladas, com habilidade, só como perguntas); outras enfim nada convincentes. Mas tudo sempre num tom de autêntica busca de diálogo, no respeito e na estima do interlocutor. Num percurso que vai das Escrituras sagradas, ao hebraísmo e ao cristianismo, atravessa a história e chega até aos dias, também dolorosos, da Igreja de hoje, não esquecendo os aspectos mais bonitos e fecundos, nem os mais terríveis e escandalosos.

Piergiorgio Odifreddi contesta – taxando-o como distinção já superada desde o distante ano de 1968  devido ao surgir das  inteligências artificiais – o facto de que uma razão objectiva necessite sempre de um sujeito, portanto de  uma razão ciente de si mesma. Pois bem, com exactidão, Bento XVI contesta,  explicando o modo como na realidade seja precisamente (e também) a mesma inteligência artificial que demonstra o assunto, tratando-se de uma inteligência confiada a instrumentos e transmitida por sujeitos conscientes, isto é, imputável à inteligência humana de quem criou os próprios instrumentos.

Este é só um dos muitos pontos analisados na longa, rica, apaixonada e nítida carta de resposta por parte de um homem que quer – e que por toda a sua vida sempre quis – um diálogo verdadeiro entre a fé dos cristãos e a fé científica. Uma busca de diálogo evidentemente percebida pelo matemático italiano. De resto, lendo todo o texto  do Papa emérito,  vê-se  claramente  que o seu  interesse  é autêntico e destinado a dialogar também com aquela parte de mundo e de fé científica que, afinal, interrompe a busca do confronto  de maneira que acaba por resultar dogmática, como se já não quisesse perguntar mas só ensinar ao interlocutor.

Contudo, os muitos exemplos que se poderiam mencionar entre os que Bento XVI apresentou, focalizam  inevitavelmente o  que para Joseph Ratzinger é o ponto central, que não pode ser desconsiderado, do diálogo  entre a fé chamada científica e a fé dos cristãos. É o aspecto da passagem dos lógoi para o Logos, uma passagem que a fé cristã realizou juntamente com a filosofia grega. Uma passagem que também pode  não  ser realizada, mas que deve ser necessariamente considerada e avaliada – de modo científico, diria – a fim de que as partes em diálogo permaneçam  realmente  em busca.

Na carta evocam-se também a questão muito debatida dos antropomorfismos – para a qual Bento XVI recorda a validade permanente da afirmação do concílio Lateranense IV de 1215 sobre a possibilidade unicamente analógica de pensar Deus – e a questão incandescente da evolução.

Bento XVI cita o Pseudo-Dionísio Areopagita e depois não menciona  só Francisco, Clara, Teresa d'Ávila e Madre Teresa, mas também Agostinho, Martin Buber, Jacques Monod e a inspiração da música de Bach, Mozart, Haydn e Beethoven. E, claramente, cita Piergiorgio Odifreddi.

Porque Ratzinger decidiu responder a um professor universitário italiano que, movido pela franqueza, procurou um diálogo aberto com a fé da Igreja. No meio de contrastes e convergências.

Edição em papel

 

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16 de Setembro de 2019

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