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​Um assunto para homens

· Em diálogo com a irmã Eugenia Bonetti, que há vinte anos combate o tráfico dr mulheres ·

A irmã Eugenia Bonetti é um rio caudaloso. Fala da sua missão, dos seus encontros com «as mulheres da estrada e da noite» com a paixão de quem lhe dedicou uma vida e lhe dedicaria também outra, se fosse possível. Na sede da Usmi, onde coordena as irmãs de diversas congregações que lutam contra o tráfico e a escravidão, conta acerca de iniciativas e projectos com o vigor e o entusiasmo de uma jovem. Contudo já tem a experiência de decénios de trabalho, canseira e missão.

Ocupa-se desde há vinte anos do tráfico de mulheres, daquela que Francisco definiu a escravidão do século XXI. Porquê?

Não é uma escolha minha, alguém a fez por mim. Trabalhei durante muitos anos em África e as mulheres foram as minhas mestras. Delas aprendi o acolhimento, a alegria, a partilha. As mulheres africanas na sua pobreza material são extraordinárias. Quando regressei à Itália, entrei em crise. Parecia-me ter atraiçoado a minha vocação. Queria voltar para África quando, na Cáritas de Turim, onde trabalhava, fiz um encontro. Recordo-me bem dele: era o dia 2 de Novembro de 1993 e conheci Maria, uma mulher nigeriana, uma prostituta doente com três crianças, sem documentos. Ela inverteu a minha realidade missionária, o modo de viver a minha vocação. Foi o Senhor quem ma enviou para me fazer compreender que a missão não era uma questão geográfica. Maria ajudou-me a entrar no mundo da noite e da estrada. Depois conheci muitas mulheres como ela: escravas, destruídas, objectos desprezados, descartáveis. Exploradas pelos meus concidadãos que em noventa por cento se dizem católicos. Compreendi que devia estar ao lado delas. E elas, como Maria, através de nós, irmãs, compreenderam a diferença entre quem as explorava e quem as ajudava sem pretender nada em troca.

Foi portanto o encontro com uma mulher que deu início à sua missão?

Uma mulher nigeriana

Abriu-se um mundo novo. Em contacto com estas mulheres comecei a compreender que não tinham nada a ver com a prostituição, mas com uma nova escravidão. Naqueles anos nem sequer a polícia sabia da existência do tráfico. Só nós, algumas religiosas, compreendemos. Naqueles anos havia em Turim três mil mulheres nas estradas que «serviam» cinco regiões diversas. Aproximamo-nos delas e fizemos propostas concretas: estudo da língua, cuidados de saúde, trabalho. Fiz de ligação entre o nosso mundo e o delas, nisto facilitou-me o conhecimento da língua delas e dos seus países.

Qual era naqueles anos o vosso maior problema?

Podíamos ajudá-las, mas não podíamos dar-lhes uma legalidade. Os passaportes estavam nas mãos dos traficantes. Elas tinham-se sujeitado aos rituais vodu e estavam convencidas de que aquilo que faziam era querido pelas divindades, que era para o bem das suas famílias. Se o não tivessem feito o seu espírito tê-las-ia abandonado. Tinham que pagar a sua dívida aos traficantes e às «madames». Na época eram dezenas de milhões. Hoje sessenta ou setenta mil euros. Entretanto destruíam-se no corpo e na alma.

Passaram vinte anos. Hoje a irmã trabalha com 250 pessoas de 80 congregações. O trabalho contra o tráfico deu passos em frente.

Sim. Pedimos ao governo que reconheça a existência da escravidão, informamos as mulheres parlamentares sobre esta realidade, em 1998 obtivemos uma lei que intervém sobre o tráfico. A lei abriu uma grande porta. Quando o tráfico foi reconhecido pudemos abrir casas de acolhimento para as mulheres que procuravam libertar-se da escravidão. Em 2000 transferi-me para Roma a fim de coordenar o trabalho das congregações religiosas que abriam casas de acolhimento. Era o ano do Jubileu, pretendíamos deixar uma marca positiva, queríamos deveras quebrar as correntes, libertar as escravas. E fazê-lo precisamente naquele ano. E 250 religiosas começaram o seu trabalho nas casas-família, nos centros de escuta, nas unidades de estrada. Compreendemos que devíamos unir as nossas forças. Todos deviam fazer a sua parte: o governo, a Igreja, as escolas, as famílias, os meios de comunicação.

O mundo da prostituição e do tráfico é difícil de combater: muitos esforços e resultados escassos. Foi assim também para vós?

Em 2000 demos às congregações a possibilidade de viver o ano santo de maneira concreta, abrimos os nossos conventos. Desde então foram salvas mais de seis mil mulheres. Acolhidas e ajudadas psicológica e socialmente. Conseguimos obter para elas documentos, títulos de residência, passaportes.

Qual é hoje a situação do tráfico? Em relação ao ano 2000 foram dados passos em frente ou verificou-se um recuo?

Há um dado negativo: a crise económica pesou sobre as mulheres que conseguiram sair da escravidão. São as primeiras que perdem o trabalho. E eis que entrou em função a fantasia da caridade. Para ajudar quem está em dificuldade e já não consegue viver em Itália fizemos um projecto de repatriação assistido e financiado. Entrámos em contacto com as irmãs do país de origem. Telefonámos às irmãs nigerianas, informámo-las da situação, dos perigos que as mulheres corriam. Desde 2013 pedimos à Cáritas fundos para um projecto. Às jovens nigerianas que regressam a casa pagamos a viagem e o aluguer da casa por dois anos, damos-lhes alguns recursos para abrir uma actividade. Procuramos resistir; o governo tem poucos fundos, muitas onlus fecharam, mas as nossas congregações conseguem fazer muito com pouco. Agora há uma rede Talitha Kum que coordena as irmãs dos países de origem, de passagem e de destino das mulheres para as subtrair à escravidão.

Fostes apoiadas na vossa missão? Por exemplo, conseguistes envolver as congregações religiosas masculinas?

Por enquanto ainda não. Temos grande dificuldade de lhes fazer compreender. As pessoas sensíveis são deveras poucas. Contudo seria importante: se não conseguirmos fazer com que trabalhem connosco, a cultura de fundo não muda. E nas paróquias, nas homilias dos sacerdotes nunca há uma menção à realidade que nós procuramos combater. Dizem que são coisas de mulheres. Não, respondo, são coisas de homens. Se há nove milhões de pedidos de prostituição cada mês é uma questão de homens. E, dado que estamos na Itália, de homens católicos. O nosso trabalho futuro destina-se a envolver as paróquias, as dioceses, as conferências episcopais. Esperemos que no dia 8 de Fevereiro, no segundo dia mundial contra o tráfico, intervenha o Papa Francisco com a sua acção concreta.

Nascida em Bubbiano (Milão) em 1939, a irmã Eugenia Bonetti entra aos vinte anos nas missionárias da Consolata. Enviada para o Quénia em 1967, ali permanece por 24 anos. Tendo regressado à Itália, vive primeiro em Turim e depois em Roma, onde é nomeada responsável da secção Tráfico, mulheres e menores da União das superioras maiores da Itália (Usmi). Entre os muitos prémios, em 2011 recebeu o reconhecimento Servitor pacis da Path to Peace Foundation da missão permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas.

Desde 2013 ides ao centro de acolhimento de Ponte Galeria, em Roma: que conseguis fazer por estas mulheres?

Vamos lá todos os sábados: ali encontramos o desespero total. Estas mulheres nada possuem, só a cama na qual dormem, e não fazem nada de manhã até à noite. Nem sequer têm um ambiente onde estar juntas. Nada sabem do seu futuro. Fazemos o que podemos: pomo-las em contacto com os países de proveniência, procuramos acolhê-las nas nossas casas. Por vezes temos a impressão que nada muda. Alguém já no-lo disse. Que ides lá fazer? Sabe o que respondeu uma irmã? «Fazemos o que Nossa Senhora fez aos pés da cruz». Não conseguiu mudar nada mas morreu com o seu filho.

Face ao grande êxodo de quem foge de guerras e fome, muitos hoje falam da necessidade de acolhimento: para a irmã o que é?

Para mim acolher significa dar o futuro a uma mulher, dizer-lhe que não está sozinha, fazer-lhe compreender que pode haver amor e alegria na sua vida.

Que relação têm com a fé as mulheres que encontrais na estrada?

As nigerianas, sobretudo, pedem-nos imediatamente o rosário e a Bíblia. Alimentam-se da palavra de Deus, são mais religiosas do que nós. Vivem uma terrível dicotomia. Maria dizia-me: todas as manhãs antes de deixar a estrada eu pedia perdão ao Senhor. Sabia que não estava bem aquilo que fazia mas também sabia que à noite teria voltado.

Certa vez Tolstoi disse: existia a prostituição antes de Moisés e também depois dele. Existirá sempre. Não podemos deixar de constatar a verdade das duas primeiras afirmações: o que responde à terceira? Realmente a prostituição existirá sempre?

Há a prostituição voluntária e a forçada. São duas coisas diferentes. Na primeira a mulher usa o seu corpo, a segunda é escravidão. Uma mulher nas mãos dos traficantes tem que fazer quatro mil prestações para pagar a sua dívida. No fim deixo de ser ela. A África não se pode permitir de destruir uma geração de mulheres. Se o fizer, morre um continente inteiro.

Ritanna Armeni

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24 de Outubro de 2019

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