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Um apoio decisivo

· Mulheres idosas narram a sua contribuição a favor da comunidade paroquial de pertença ·

Quando aos relatórios sociológicos sobre o habitat eclesial se faz objecção de que para ter uma visão real de uma paróquia é necessário observá-la a partir de dentro, é possível fazê-lo devido a uma reacção apologética e ao instinto defensivo. Contudo diz-se algo verdadeiro. As contabilidades científicas do humano desempenham a própria tarefa. Projectam sobre os fenómenos o olhar dos seus critérios disciplinares. Como todos os pontos de vista selectivos são obrigados a abstrair, generalizar e catalogar. Naturalmente, produzem resultados úteis. Em alguns casos até necessários. Não obstante tudo, o seu método não pode delimitar o essencial. Porque ele permanece acessível só vendo as coisas com a perspicácia do olhar partícipe e pode ser restituído somente na forma da narração que testemunha.

Innocente Salvini, «A minha mãe ao lado da lareira» (1925)

Portanto, quando se quer entrar com alguma verosimilhança naquela parte da Igreja habitada pelas mulheres idosas, pela sua presença silenciosa, marcada, por serem mulheres e idosas, por uma dupla estigma de menoridade e de sujeição, deve ser seguida a vereda indispensável da narração. A convenção literária, a das sociologias assim como das antropologias, fixou a sua representação no retrato oleográfico que também a cinematografia continua a perpetuar com mais ou menos involuntários desvios caricaturais: a mulher idosa com o véu preto, de preferência do Sul, iletrada, envolta numa nuvem do dialecto, previsível ornamento do rito religioso, consumidora compulsiva dos mais arcaicos produtos sagrados. Em síntese, matéria-base do documentário etnológico que se exercita sobre os costumes de uma antiga civilização rural com o mesmo olhar alienígena e satisfeito com o qual um etólogo se ocuparia dos rituais de cortejo de uma curiosa espécie de animal.

Ao contrário, para sair destas areias movediças devido à falta de conhecimento é necessário narrar histórias de pessoas vivas, que se encontram na alquimia complexa da vida real das nossas comunidades, experiências únicas e irrepetíveis, vidas extraordinárias, inesperadamente fascinantes.

Gostaria, por exemplo, que o leitor tivesse conhecido Angelina, falecida há poucos meses com 96 anos, mulher de temperamento incomum e com uma voz profunda. Conheci Angelina quando eu era pároco numa pequena comunidade aos extremos confins da diocese de Bergamo. Pertence àquela geração de mulheres que cresceram os filhos, com quase nada, depois da primeira guerra mundial, guiadas por um sentido jansenista da disciplina que ainda se respira nestas regiões, formadas na sua infância e juventude por uma cultura tridentina sem dúvida severa, mas que forjou nelas uma identidade. Esta sólida formação doutrinal, que nós seríamos tentados a julgar com um forte sentido crítico, está precisamente na base da sua capacidade de compreender e acompanhar com cordial disponibilidade as transições do concílio Vaticano II e a reforma litúrgica, com um maior sentido eclesial em comparação com as gerações mais recentes, que ficaram desprovidas de uma real formação crente.

Conheci Angelina logo depois de me ter tornado pároco. Juntamente com muitas outras como ela, era a alma das liturgias quotidianas, simples Eucaristias feitas de nada, nas quais a presença predominante de mulheres idosas garantia a toda a comunidade comprometida em outros lugares o carisma da escuta. Numa comunidade é necessário que alguém permaneça na escuta do Senhor que fala. Quem as imagina passivas e ouvintes inconscientes de qualquer tipo de pregação está redondamente enganado. Compreendem com silêncio materno a dificuldade do pregador inexperiente ou inábil. Mas sabem perfeitamente que a palavra deve apontar mais alto. E quando a ouvem, percebem.

São também mulheres muito preocupadas com o entusiasmo e a liberdade com que as suas filhas enfrentam a vida, mas não têm minimamente saudades da época em que eram jovens, narrando com perfeita consciência crítica os tempos em que eram humilhadas publicamente pelo pároco porque tinham ido dançar ou por uma manga demasiado curta.

Gabriella tem 83 anos, mas demonstra no mínimo dez a menos. Estamos numa paróquia periférica da cidade. Trocamos algumas palavras sobre o artigo que devo escrever. Quando lhe digo que quero escrever o seu nome, dá uma gargalhada. Depois, trocamos algumas ideias. Faz questão de me dizer que as mulheres idosas, dito sem retórica, são portadoras de uma sabedoria obtida da longa obediência à vida, que não deve ser entendida como passividade em relação aos eventos, mas como respostas conscientes à realidade. Gabriella foi professora por muito tempo. Na comunidade é ministro extraordinário da Eucaristia, faz parte do grupo dos leitores, mas sobretudo é responsável por um percurso de formação para outros idosos da comunidade que se encontram para a catequese comunitária. Nunca é tarde para aprender.

Fala sobre este seu compromisso com a paixão de quem tem plena consciência de que exerce um ministério precioso no seio da comunidade. Lembra os tempos da reforma conciliar, quando a impaciência de muitos sacerdotes os levava a arquivar facilmente inclusive muitas questões essenciais, como o exercício da catequese, que na altura se chamava doutrina.

Naquela época, foi muito preciosa a consciência de muitas mulheres que exigiram novidade e autonomia, serviu também a prudência de muitas outras que ajudaram a preservar quanto deveria ser conservado. Gabriela, no final, lança uma questão que pode surpreender. Diz que seria útil também ouvir o que têm para dizer as mulheres idosas que nas últimas décadas se afastaram da Igreja. Talvez, diz ela, porque não encontraram um lugar, não foram consideradas como um recurso.

Flora tem quase 78 anos. Vive numa paróquia de média dimensão perto do lago de Iseo. A sua é a história de uma mulher muito simples, que não estudou muito, mas que tem um senso crítico aguçado, típico das pessoas das aldeias, uma inteligência instintiva que também progride sem particulares instrumentos intelectuais. Como numerosas mulheres da sua geração, cresceu entre as fileiras da Acção católica, da qual por muitos anos foi presidente local, uma pertença que lhe tirou para fora da melhor maneira possível a sua paixão e o seu talento, que lhe permite ter um olhar consciente sobre o mundo, a realidade e os problemas das pessoas. Os seus filhos aprenderam dela esta espécie de paixão civil inspirada por uma relevante consciência eclesial. Todos mantiveram um forte vínculo com a comunidade e se comprometeram em actividades sociais.

Flora conseguiu ter uma boa cultura através da sua formação cristã. Para muitas aconteceu o mesmo. Frequentaram apenas a escola primária, mas aprenderam a disciplina do estudo devido à necessidade de adquirir instrumentos de formação espiritual. Ao longo da sua vida viu suceder-se muitos sacerdotes e teve que enfrentar uma infinidade de variantes pastorais. Passou por tudo com a mesma disponibilidade e respeito, com a capacidade de ver além das modas do momento, possuindo um atento senso crítico, uma prudência reservada, expressa sempre com afabilidade, uma gentileza e um sorriso que poderiam torná-la uma personagem feminina de Jane Austin. Neste momento o seu carisma pessoal está ao serviço da cura pastoral dos doentes.

Angelina, Gabriella, Flora, não são brilhantes excepções. Pelo contrário, fazem parte de um grupo de mulheres que a idade não subtraiu a um papel de compromisso decisivo em prol da comunidade. Certamente, não constituem um vestígio de uma tradição extinta como o lugar comum gostaria de as considerar. Quando se atenuar a hipnose colectiva por o ideal efémero de uma juventude perene será mais fácil reconhecer a importância da sua presença. Entretanto, quero só acrescentar que todas elas, Angelina, Gabriella, Flora, e todas as outras, não servem o Evangelho só porque exercem um serviço ou um ministério na Igreja. Serviram o Evangelho vivendo em primeiro lugar como mulheres, amando alguém, trabalhando duro, dando à luz os filhos, emprestando a própria carne para a renovação do enigma humano. Serviram a Igreja forjando a própria vida segundo o Evangelho. Disponibilizaram o seu corpo e a sua vida para permitir que o Evangelho ganhasse forma na história. Honraram o ministério fundamental do baptizado. O ministério fundamental da Igreja, sem a qual a via evangélica permanece invisível e o tempo do Reino indesejável.

Giuliano Zanchi

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21 de Agosto de 2019

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