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Tudo no mesmo dia

· Madalena, santa do mês, descrita por Teresa Ciabatti ·

Com quinze anos, Madalena já tinha vivido muitas experiências: comprimidos, sexo em chat com desconhecidos, sexo a três. Sim, ela tinha vivido! Mas depois, aquela que lhe parecera vida, distinção de privilégio – «todos me desejam» – tornou-se uma culpa. A culpa é minha, repetia consigo mesma havia um mês. Deus puniu-me por aquilo que eu cometi, encolhida na cama, com as persianas abertas, lá fora a noite, aconchegada em posição fetal.

Giovanni Bellini, «Nossa Senhora com o Menino e as santas Catarina e Maria Madalena» (aproximadamente 1490, detalhe)

Ele tinha desaparecido no dia 12 de Março. Saíra para ir assistir a uma partida no bar, e nunca mais voltou. Ninguém o tinha visto. Mal-estar, rapto, afastamento voluntário. «Se eu tivesse sido boa – repetia consigo mesma Madalena – se eu tivesse estudado, se eu não tivesse saído às escondidas».

Entretanto, já tinha passado um mês. Um mês sem o pai. Retomara com dificuldade a vida de sempre. Embora na primeira semana não tivesse ido à escola, depois teve que voltar. Todos sabiam e tratavam-na bem. Mais ainda: que pena, Madaleninha, coitada da Madaleninha.

Contudo, nenhum homem lhe pedia para ir ao banheiro, nem para se encontrar no ginásio. O que tinha acontecido? Ninguém mais a desejava. E no entanto, era sempre ela: os mesmos olhos azuis, os mesmos lábios cheios, as mesmas pernas longas.

Nos corredores via os outros namorarem; oh, parecia-lhe que o mundo inteiro namorasse, quanto amor ao seu redor! Via as vidas dos outros irem em frente: Simona tinha começado a namorar Gianluca, Giada tinha feito sexo com Federico, pensava em dar início a uma história, mas ele já namorava Carla. Dennis tinha pedido a Stefania para se verem à tarde, mas ela estava indecisa, preferia Paolo, mas Paolo queria Madalena, como todos sabiam.

Mas agora Madalena perguntava se ainda era assim. Não porque gostasse de Paolo, nunca tinha gostado dele.

A vida de todos continuava, menos a sua. Ela tinha parado no dia 12 de Março, bloqueada ali, quando ao contrário já tinham passado dois meses, dois meses sem o pai. «É minha a culpa? – torturava-se Madalena – Deus puniu-me realmente?».

Todavia, dia após dia a culpa confundia-se com o privilégio perdido («Todos me desejam»). Juntamente com o pai, também ela esvaecia, ela, desejada pelos homens, ela, invejada pelas mulheres. Afastavam-se juntos, pai e filha, dia após dia. No vidro da janela do quarto, a sua imagem reflectida parecia-lhe cada vez mais evanescente, uma imagem que se sobrepunha ao campo externo, à linha de edifícios ao fundo, o ponto mais distante, e contudo não, o pai não se encontrava nem sequer ali. Era naquele ponto que ele, e também ela, desaparecia. Não se tratava apenas de uma luta contra a sua ausência. Começava a transformar-se em algo diferente, sobrevivência, ardor para que também ela não se dissolvesse. Ela ainda existia! Estava ali – gostaria de ter gritado de pé, diante da janela – «Olhai para mim, amai-me!».

Na sua mente acontece tudo no mesmo dia.

Três meses. Três meses sem o pai, ela aproxima-se de Paolo e diz-lhe que lhe deve falar, algo de particular, no banheiro das mulheres.

No banheiro, beija-o. E volta a beijá-lo. E beija-o de novo, enquanto pergunta – ansiosa, desesperada – se a deseja: «Diz-me que me queres para sempre!». E Ele diz sim, atordoado pela excitação, diz sim.

Então, algo acontece. Madalena detém-se. Pensa: «Pai!». Pensa: «Deus vê-me». Na sua mente acontece tudo no mesmo dia. Culpa e redenção.

Pois bem, abaixou-lhe as calças, mas depois deteve-se. Metade de um pecado. «Quase um não-pecado, meu Senhor».

Na realidade, volta à sala de aula, senta-se ao banco, passa a hora de história, e também a de matemática. Na recordação, ao contrário, Madalena foge do banheiro. Fora da escola, fora do portão. Corre até ao campo, atravessa-o, chega à estrada de terra, respira e depois volta a correr. Entra em casa e sobe as escadas, sempre à corrida, dois degraus de cada vez.

Na recordação é o mesmo dia, pois assim teria recordado pelo resto da sua vida, mas na realidade há vinte dias de diferença. De manhã, no banheiro com Paolo, e vinte dias depois à janela do seu quarto. Vinte dias que a teriam podido libertar da ideia – em breve, obsessão – que Deus te vê e pune. Ou premia.

E por conseguinte na recordação: ela corre pelas escadas, entra no seu quarto, olha para fora da janela, até ao ponto mais distante. E então vê-o. Uma figura muito pequena, no fundo da estrada. Madalena não quer gritar, tem medo que se dissolva, que volte a desaparecer. Chega a cessar de respirar. Mas ele está cada vez mais próximo. Está diante da casa, abre o portão.

Ela permanece ainda imóvel diante da janela. Ouve as vozes no andar de baixo, a mãe que chora. Os passos, ouve os passos pesados que há meses não ouvia; volta a ouvi-los! Então, a porta do quarto abre-se e aparece a figura contornada pela luz, a tal ponto que ela deve piscar os olhos para o focar melhor. Oh, os seus cabelos têm uma tonalidade prateada.

Na sua mente acontece tudo no mesmo dia. Culpa, redenção e ressurreição.

Teresa Ciabatti nasceu e cresceu em Orbetello (Itália). Escreveu os seguintes romances: Il mio paradiso è deserto (Rizzoli, 2013), Tuttissanti (Il Saggiatore, 2013), I giorni felici (Mondadori, 2008) e Adelmo, torna da me (Einaudi Stile Libero, 2002). Actualmente colabora com La Lettura e Io Donna.

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23 de Outubro de 2019

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