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Todo o Evangelho num trecho

· ​Missa em Santa Marta ·

Com o convite a não ser «funcionários» – os que passam sempre adiante dizendo «não cabe a mim» – mas «cristãos com seriedade, prontos a sujar as mãos e abertos às surpresas», o Papa Francisco repropôs a essência da parábola do bom samaritano. Porque «ali está encerrado todo o Evangelho», explicou celebrando a missa em Santa Marta, na segunda-feira 8 de outubro, e recordando que «cada um de nós é o homem ferido», ao passo que «o samaritano é Jesus», que «cuidou de nós, pagou por nós e disse à sua Igreja: “Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei”».

Referindo-se precisamente ao trecho evangélico de Lucas (10, 25-37), Francisco realçou imediatamente que «o doutor da lei queria pôr à prova Jesus e lhe preparou uma armadilha». Mas «Jesus confirmou a lei: «Amarás o Senhor teu Deus e a teu próximo como a ti mesmo”». Nesse momento, o doutor da lei, «um pouco para se justificar, para sair da dificuldade, replicou: “E quem é o meu próximo?”». E assim «Jesus narra esta parábola» onde «há seis personagens: os ladrões, o ferido, o sacerdote, o levita, o samaritano e o hospedeiro». São «seis e todos entram em jogo ali, todos estão envolvidos. Na realidade, afirmou o Papa, «os ladrões continuam a sua vida pelas estradas, esperando outra vítima. Depois, o pobre ferido permanece ali, no chão, porque «os ladrões o maltrataram com muitos ferimentos, deixando-o meio morto”». A vítima «não estava consciente. Permanecia deitada ali».

«“Por acaso”, diz Jesus, um sacerdote descia pelo mesmo caminho» contou Francisco. «Ah, graças a Deus um sacerdote» poderíamos dizer; mas quando viu o homem ferido, o sacerdote «“passou adiante”, não lhe veio à mente de dizer: “mas eu sou um sacerdote, devo rezar por este homem, pelo menos devo dar-lhe a unção, parar um pouco”». Ao contrário, pensou que «era a hora da missa: tenho que ir embora”». E, portanto, «“passou adiante”: esta palavra deve entrar hoje no nosso coração: “passou adiante”».

Na parábola, como refere Lucas no seu Evangelho, passou «igualmente um levita, escolhido para a função sacra, um homem de cultura da lei» que «chegando àquele lugar, viu e passou adiante». Portanto, «estes dois eram funcionários – afirmou o Pontífice – e tinham desempenhado o papel do funcionário: “Não cabe a mim. Pelo caminho rezarei por ele, mas não cabe a mim. Aliás, se eu estivesse ali e tocasse aquele sangue, iria ficar impuro e não poderia celebrar. Não, não, não cabe a mim, não cabe a mim. Sou funcionário». Em síntese, «eles são coerentes com o facto de ser funcionários».

Ao contrário, reafirmou o Papa, quem não passou adiante daquele homem ferido foi «um samaritano, que estava em viagem: «chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão”». Oxalá, sugeriu Francisco, «tenha pensado: “Pobre desgraçado, talvez vai morrer de hemorragia”». Mas um samaritano, observou o Pontífice, «era um pecador, um excomungado do povo de Israel». No entanto, precisamente «o mais pecador “teve compaixão”».

Quiçá, prosseguiu, «talvez fosse um comerciante que viajava para negócios, e não olhou para o relógio, não pensou no sangue». Mas, como se lê no Evangelho, «aproximou-se dele – desceu do seu jumento – atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho». Em síntese, «sujou as mãos, sujou as suas vestes» e, continua o trecho evangélico, «depois carregou-o na sua montada e levou-o a uma hospedaria». Estava «sujo de sangue», mas precisamente naquelas condições o samaritano tratou do ferido: «Não disse “mas vou deixá-lo aqui, chamai os médicos que venham. Eu vou-me embora, já fiz o meu dever”. Não, “cuidou dele”, como se dissesse: “agora tu és meu, não por posse, mas para te servir”».

O samaritano, afirmou o Pontífice, «não era um funcionário, era um homem com coração, um homem com o coração aberto». E «certamente, o hospedeiro pensou: “Mas, talvez seja um familiar” — “Ele é o teu primo?” — “Não, não, não” — “Mas sabes quem é?” — “Não, não, não, encontrei-o pelo caminho, pobrezinho, e trouxe-o aqui”».

Não há dúvida, prosseguiu Francisco, «que aquele hospedeiro ficou atónito: nada compreendia sobre este estrangeiro, este pagão – assim dizemos – porque não era do povo de Israel». Certamente, ficou surpreendido não só por ele «ter parado», mas também «por ter feito isto, por o ter carregado». Terá até pensado: “Ele é louco!” quando o samaritano «alugou um quarto» para o assistir. Com efeito, lê-se no Evangelho de Lucas: «No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: “Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei”».

Provavelmente, também nesta ocasião «o hospedeiro ficou com a dúvida: «Quando terminarem aqueles dois denários, o que vou fazer? Geralmente, não confio em ninguém. Ou pagas ou nada”». Mas o samaritano «pagou dois denários» e o hospedeiro terá pensado que, acabado o dinheiro, teria pago do seu próprio bolso esperando que voltasse. É «a dúvida de alguém – explicou o Papa – que vive um testemunho, de alguém aberto às surpresas de Deus, como aquele samaritano que nunca imaginara que pelo caminho teria encontrado uma pessoa deste tipo. Mas estava aberto às surpresas».

«Ambos não eram funcionários» insistiu o Papa, acrescentando: «“Tu és cristão? És cristã?” – “Sim sim sim, aos domingos vou à missa e procuro fazer o que é correto, menos bisbilhotar porque eu gosto sempre de bisbilhotar, mas o resto cumpro-o bem”». A pergunta verdadeira, sugeriu, é: «“Mas és aberto, és aberta às surpresas de Deus ou és um cristão funcionário, fechado?”, “Eu faço isto, vou à missa aos domingos, recebo a comunhão, confesso-me uma vez por ano, isto mais aquilo: cumpro as regras”».

Precisamente quantos raciocinam deste modo, reafirmou Francisco, «são os cristãos funcionários, aqueles que não estão abertos às surpresas de Deus, que sabem muito sobre Deus, mas não encontram Deus. Aqueles que nunca se surpreendem perante um testemunho. Aliás, são incapazes de dar testemunho».

A este propósito, o Pontífice convidou a questionar-se se «eu sou um cristão aberto àquilo que o Senhor me concede todos os dias, às surpresas de Deus que muitas vezes, como este samaritano, nos põem em dificuldade». Ou «sou um cristão funcionário: faço o que devo e depois estou regularizado».

Portanto, frisou o Papa, «esta é a pergunta: sou aberto ou sou um funcionário fechado nas minhas regras?». E é «uma bonita pergunta que nos devemos fazer hoje, todos nós. Todos nós, leigos e pastores. Todos».

«Mas há algo mais – prosseguiu o Pontífice – que talvez se possa explicar sucessivamente, noutras ocasiões: alguns teólogos antigos diziam que neste trecho está encerrado todo o Evangelho. Cada um de nós é o homem ferido e Jesus é o samaritano. Ele curou as nossas feridas. Aproximou-se. Cuidou de nós. Pagou por nós. E disse à sua Igreja: “Mas se for necessário algo mais. Paga tu pois na volta to pagarei”». Por conseguinte, é importante pensar bem nisto, repetiu o Papa, porque «neste trecho há todo o Evangelho».

«Queridos irmãos e irmãs, nada de funcionários» concluiu Francisco. É preciso ser «cristãos com seriedade. Cristãos que não têm medo de sujar as mãos, as vestes, quando se aproximam. Cristãos abertos às surpresas. Cristãos que, como Jesus, pagam pelos outros».

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17 de Outubro de 2018

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