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Testemunho comovedor, fascinante e libertador

· Intervenção do cardeal prefeito da Congregação para os Bispos na apresentação do segundo volume «Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém até à ressurreição» ·

Na tarde de quinta-feira 10 de Março foi apresentado na Sala de Imprensa da Santa Sé o livro de Bento XVI Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém até à ressurreição. Falaram sobre o livro o escritor e germanista Claudio Magris, e o cardeal prefeito da Congregação para os Bispos, cuja intervenção apresentamos nestas páginas.

Apesar de ser bastante denso, este livro lê-se todo sem interrupções. Percorrendo os nove capítulos e as perspectivas finais, o leitor é transportado por veredas íngremes rumo ao encontro estimulante com Jesus, uma figura familiar que se revela ainda mais próxima quer na sua humanidade quer na sua divindade. Completada a leitura, pretender-se-ia prosseguir o diálogo, não só com o autor mas com Aquele do qual ele fala. Jesus de Nazaré é mais que um livro, é um testemunho comovedor, fascinante, libertador. Quanto interesse suscitará entre os peritos e entre os fiéis!

Além do interesse de um livro sobre Jesus, é o livro do Papa que se apresenta em humildade ao fórum dos exegetas, para se confrontar com eles sobre os métodos e resultados das suas pesquisas. A finalidade do Santo Padre é ir mais longe com eles, certamente em estreito rigor científico, mas também na fé no Espírito Santo que sonda as profundezas de Deus na Sagrada Escritura. Neste fórum, os intercâmbios fecundos predominam em grande medida sobre os aspectos críticos, e isto contribui para fazer conhecer e reconhecer melhor a contribuição essencial dos exegetas.

Não é porventura a ocasião para obter uma grande esperança desta aproximação entre a exegese rigorosa dos textos bíblicos e a interpretação teológica da Sagrada Escritura? Eu não posso deixar de entrever neste livro a aurora de uma nova era da exegese, uma era prometedora de exegese teológica.

O Papa dialoga em primeiro lugar com a exegese alemã mas não ignora autores importantes que pertencem às áreas linguísticas francófona, anglófona e latina. Distingue-se ao detectar as questões essenciais e os nós decisivos, obrigando-se a evitar os debates sobre os pormenores e as contendas de escola que prejudicariam o seu propósito, que é o de «encontrar o Jesus real», não o «Jesus histórico» precisamente da corrente dominante da exegese crítica, mas o «Jesus dos Evangelhos» ouvido em comunhão com os discípulos de Jesus em todas as épocas, e assim «chegar também à certeza da figura verdadeiramente histórica de Jesus».

Esta formulação do seu objectivo manifesta o interesse metodológico do livro. O Papa enfrenta de modo prático e exemplar o complemento teológico desejado pela Exortação Apostólica Verbum Domini para o desenvolvimento da exegese. Nada estimula mais que o exemplo dado e que os resultados obtidos. Jesus de Nazaré oferece uma magnífica base para um proveitoso diálogo não só entre exegetas, mas também entre pastores, teólogos e exegetas!

Antes de ilustrar com alguns exemplos os resultados desta exegese de Joseph Ratzinger — Bento XVI, acrescento mais uma observação sobre o método. O autor esforça-se por aplicar em maior profundidade os três critérios da interpretação formulados no concílio Vaticano II pela Constituição sobre a revelação Divina Dei Verbum : ter em consideração a unidade da Sagrada Escritura, do conjunto da Tradição da Igreja e respeitar a analogia da fé. Como bom pedagogo que nos habituou às suas homilias mistagógicas, dignas de são Leão Magno, Bento XVI, a partir da figura — central e única — de Jesus, mostra a plenitude de sentido que promana da Sagrada Escritura «interpretada à luz do próprio Espírito mediante o qual foi escrita» ( Dei Verbum, 12).

Mesmo se o autor evita oferecer um ensinamento oficial da Igreja, é fácil imaginar que a sua autoridade científica e a retomada em profundidade de determinadas questões debatidas serão de grande ajuda para confirmar a fé de muitos. Além disso, servirão para fazer desenvolver debates que permaneceram abafados por causa dos preconceitos racionalistas e positivistas que prejudicaram o prestígio da exegese moderna e contemporânea.

Entre a publicação do primeiro volume em Abril de 2007 e a do segundo nesta Quaresma de 2011, um grande número de acontecimentos felizes mas também de dolorosas experiências marcaram a vida da Igreja e do mundo. Perguntamo-nos como tenha conseguido o Papa escrever esta obra muito pessoal e importante, da qual a actualidade do tema e a audácia do projecto sobressaem aos olhos de quem quer que se interesse pelo cristianismo. Como teólogo e como pastor, tenho a sensação de viver um momento histórico de grande alcance teológico e pastoral. É como se no meio das ondas que agitam o barco da Igreja, Pedro tivesse mais uma vez pegado na mão do Senhor que vem ao nosso encontro sobre as águas, para nos salvar (cf. Mt 14, 22-23).

Dito isto, que se refere ao carácter histórico, teológico e pastoral do acontecimento, passemos ao conteúdo do livro que gostaria de resumir a traços bastante largos sobre algumas questões cruciais. Antes de tudo o aspecto do fundamento histórico do cristianismo que atravessa os dois volumes da obra; depois a questão do messianismo de Jesus, seguida pela da expiação dos pecados por parte do Redentor, que constitui um problema para muitos teólogos; do mesmo modo a questão do sacerdócio de Cristo em relação à sua Realeza e ao seu Sacrifício que tanta importância assumem para a concepção católica do sacerdócio e da Santa Eucaristia; por fim, a questão da ressurreição de Jesus, a sua relação com a corporeidade e o seu vínculo com a fundação da Igreja.

Não é necessário dizer que o elenco não é satisfatório e muitos encontrarão outras questões mais interessantes, como exemplo o seu comentário do discurso escatológico de Jesus ou ainda da oração sacerdotal em João, 17. Eu identifico as questões aqui expostas como nó a desfazer em exegese como em teologia, com a finalidade de reconduzir a fé dos fiéis à própria Palavra de Deus, entendida em toda a sua força e coerência, apesar dos condicionamentos teológicos e culturais que por vezes impedem o acesso ao sentido profundo da Escritura.

A questão do fundamento histórico do cristianismo empenha Joseph Ratzinger já desde os anos da sua formação e do seu primeiro ensinamento, como sobressai do seu volume Introdução ao cristianismo (Einführung in das Christentum), publicado há mais de quarenta anos, e que teve na altura um grande impacto sobre os auditores e leitores. Dado que o cristianismo é a religião do Verbo encarnado na história, para a Igreja é indispensável respeitar os factos e os acontecimentos reais, precisamente porque eles contêm «mistérios» que a teologia deve aprofundar utilizando chaves de interpretação que pertencem ao âmbito da fé.

Neste segundo volume que trata os acontecimentos centrais da paixão, morte e ressurreição de Cristo, o autor confessa que a tarefa é particularmente delicada. A sua exegese interpreta os factos reais de modo análogo ao tratado sobre «os mistérios da vida de Jesus» de s. Tomás de Aquino, «guiado pela hermenêutica da fé, mas tendo em consideração ao mesmo tempo e responsavelmente a razão histórica, necessariamente contida nesta mesma fé» (9).

Sob esta luz, compreende-se o interesse do Papa pela exegese histórico-crítica que ele conhece bem e da qual tira o melhor para aprofundar os acontecimentos da Última Ceia, o significado da oração do Getsémani, a cronologia da paixão e sobretudo os vestígios históricos da ressurreição.

Não deixa de evidenciar de passagem o defeito de abertura de uma exegese exercida de modo demasiado exclusivo segundo a «razão», mas o seu principal objectivo é esclarecer teologicamente os factos do Novo Testamento com a ajuda do Antigo Testamento e vice-versa, de modo análogo mas mais rigoroso em relação à interpretação tipológica dos Padres da Igreja. O vínculo do cristianismo com o judaísmo aparece fortalecido por esta exegese que se radica na história de Israel retomada na sua orientação rumo a Cristo. Eis então, por exemplo, que a oração sacerdotal de Jesus, que parece por excelência uma meditação teológica, adquire nele uma dimensão totalmente nova graças à sua interpretação iluminada pela tradição judaica do Yom Kippur.

O segundo nó refere-se ao messianismo de Jesus. Alguns exegetas modernos fizeram de Jesus um revolucionário, um mestre de moral, um profeta escatológico, um rabbi idealista, um louco de Deus, um messias de certa forma à imagem do seu intérprete influenciado pelas ideologias dominantes.

A explicação de Bento XVI sobre este ponto é prolongada e bem radicada na tradição judaica. Ela insere-se na continuidade desta tradição que une o religioso e o político, mas ressaltando em que ponto Jesus realiza a ruptura entre os dois domínios. Jesus declara diante do Sinédrio que é o Messias, mas esclarecendo a natureza exclusivamente religiosa do próprio messianismo. Por outro lado, é por este motivo que é condenado como blasfemo, porque se identificou com «o Filho do homem que vem sobre as nuvens do céu». O Papa expõe com vigor e clareza as dimensões real e sacerdotal deste messianismo, cujo sentido é o de instaurar o culto novo, a adoração em Espírito e em Verdade, que abrange toda a existência, pessoal e comunitária, como uma oferenda de amor pela glorificação de Deus na carne.

Um terceiro nó para desfazer refere-se ao sentido da redenção e ao lugar que nele deve ou não ocupar a expiação dos pecados. O Papa enfrenta as objecções modernas a esta doutrina tradicional. Um Deus que exige uma expiação infinita não é porventura um Deus cruel cuja imagem é incompatível com a nossa concepção de um Deus misericordioso? Como conciliar as nossas mentalidades modernas sensíveis à autonomia das pessoas com a ideia de uma expiação vigária por parte de Cristo? Estes nós são particularmente difíceis de desfazer.

O autor retoma estas perguntas várias vezes, a diversos níveis, e mostra como a misericórdia e a justiça caminhem a par e passo no quadro da Aliança querida por Deus. Um Deus que perdoasse tudo sem se preocupar da resposta que a sua criatura deve dar teria levado a sério a Aliança e sobretudo o mal horrível que envenena a história do Mundo? Quando se olham de perto os textos do Novo Testamento, pergunta o autor, não é Deus que assume sobre si, no seu Filho crucificado, a exigência de uma reparação e de uma resposta de amor autêntico? «O próprio Deus “bebe o cálice” de tudo o que é terrível e restabelece assim o direito mediante a grandeza do seu amor que, através do sofrimento, transforma a escuridão» (258-259).

Estas questões são apresentadas e resolvidas num sentido que convida à reflexão e em primeiro lugar à conversão. De facto, não se pode ver claramente em tais questões últimas permanecendo neutrais ou à distância. É preciso investir nisso a própria liberdade para descobrir o sentido profundo da Aliança que justamente compromete a liberdade de cada pessoa. A conclusão do Santo Padre é peremptória: «O mistério da expiação não deve ser sacrificado a qualquer racionalismo pedante» (267).

Um quarto nó é concernente ao Sacerdócio de Cristo. Segundo as categorias eclesiais de hoje, Jesus era um laico investido de uma vocação profética. Não pertencia à aristocracia sacerdotal do Templo e vivia à margem desta instituição fundamental do povo de Israel. Este facto induziu muitos intérpretes a considerar a figura de Jesus como totalmente alheia e sem relação alguma com o sacerdócio. Bento XVI corrige esta interpretação baseando-se firmemente na Epístola aos Hebreus que fala amplamente do Sacerdócio de Cristo, e cuja doutrina se harmoniza bem com a teologia de são João e de são Paulo.

O Papa responde amplamente às objecções históricas e críticas mostrando a coerência do sacerdócio novo de Jesus com o culto novo que ele veio estabelecer na terra em obediência à vontade do Pai. O comentário da oração sacerdotal de Jesus é de grande profundidade e leva o leitor a prados que não tinha imaginado.

A instituição da Eucaristia insere-se neste contexto com uma beleza luminosa que se repercute na vida da Igreja como seu fundamento e fonte perene de paz e de alegria. O autor atem-se estreitamente às análises históricas mais aprofundadas mas deslinda ele mesmo aporias como só uma exegese teológica pode fazer. Chega-se ao fim do capítulo sobre a Última Ceia não sem emoções e permanecendo admirados.

Por fim, um último nó por mim considerado diz respeito à ressurreição, à sua dimensão histórica e escatológica, à sua relação com a corporeidade e com a Igreja. O Santo Padre começa sem rodeios: «A fé cristã rege-se ou não com a verdade do testemunho segundo o qual Cristo ressuscitou dos mortos» (269).

O Papa declara-se contra as elucubrações exegéticas que declaram compatíveis o anúncio da ressurreição de Cristo e a permanência do seu cadáver no sepulcro. Ele exclui estas teorias absurdas fazendo notar que o sepulcro vazio, mesmo se não é uma prova da ressurreição, da qual ninguém foi testemunha directa, permanece um sinal, um pressuposto, um vestígio deixado na história por um acontecimento transcendente. «Só um acontecimento real de uma qualidade radicalmente nova era capaz de tornar possível o anúncio apostólico, que não tem explicações com especulações ou experiências interiores, místicas» (305).

Na sua opinião, a ressurreição de Jesus introduz uma espécie de «mudança decisiva», um «salto de qualidade» que inaugura «uma nova possibilidade de ser homem». A experiência paradoxal das aparições revela que nesta nova dimensão do ser «ele não está ligado às leis da corporeidade, às leis do espaço e do tempo». Jesus vive em plenitude, numa nova relação com a corporeidade real, mas é livre em relação aos vínculos corpóreos como nós o conhecemos.

A importância da ressurreição manifesta-se no testemunho das primeiras comunidades que deram vida à tradição do domingo como sinal identificativo da pertença ao Senhor. «Para mim — diz o Santo Padre — a celebração do Dia do Senhor, que desde o início distingue a comunidade cristã, é uma das provas mais fortes do facto que naquele dia aconteceu uma coisa extraordinária, a descoberta do sepulcro vazio e o encontro com o Senhor ressuscitado» (288).

No capítulo sobre a Última Ceia, o Papa afirmava: «Com a Eucaristia, foi instituída a própria Igreja». Aqui acrescenta uma observação de grande alcance teológico e pastoral: «A narração da ressurreição tornou-se em si eclesiologia: o encontro com o Senhor ressuscitado é missão e confere à Igreja nascente a sua forma» (289). Todas as vezes que participamos da Eucaristia dominical vamos ao encontro do Ressuscitado que volta em direcção a nós, na esperança de que assim nós testemunhemos que Ele está vivo e que Ele nos faz viver. Em tudo isto não há motivo para refundar o sentido da missa dominical e da missão?

Depois de ter citado estes nós sem que me seja possível prolongar-me de modo adequado na sua solução, pretendo concluir esta apresentação resumida dando um pouco de espaço ao significado desta grande obra sobre Jesus de Nazaré.

É evidente como através desta obra o sucessor de Pedro se dedica ao seu ministério específico que é confirmar os seus irmãos na fé. O que aqui mais chama a atenção, é o modo como o faz, em diálogo com os peritos em campo exegético, e em vista de alimentar e fortalecer a relação pessoal dos discípulos com o seu Mestre e Amigo, hoje.

Uma tal exegese, teológica no que se refere ao método, mas que inclui a dimensão histórica, relaciona-se efectivamente com o modo de interpretar dos Padres da Igreja, contudo sem que a interpretação se afaste do sentido literal e da história concreta para evadir em alegorias fictícias.

Graças ao exemplo que dá e aos resultados que obtém, este livro exercerá uma mediação, por um lado, entre a exegese contemporânea e a exegese patrística, assim como, por outro, entre o diálogo necessário entre exegetas, teólogos e pastores. Vejo nesta obra um grande convite ao diálogo sobre o que é essencial do cristianismo, num mundo que procura pontos de referência, no qual as diferentes tradições religiosas com dificuldade transmitem às novas gerações a herança da sabedoria religiosa da humanidade.

Por conseguinte, diálogo no âmbito da Igreja, diálogo com as outras confissões cristãs, diálogo com os Judeus cujo envolvimento histórico como povo na condenação à morte de Jesus é mais uma vez excluído. Por fim, diálogo com as outras tradições religiosas acerca do sentido de Deus e do homem que emana da figura de Jesus, tão propícia à paz e à unidade do género humano.

No final de uma primeira leitura, tendo apreciado em maior medida a Verdade da qual o autor é testemunha com humildade e paixão, sinto a necessidade de dar continuidade a este encontro de Jesus de Nazaré quer convidando outros a lê-lo quer retomando a sua leitura uma segunda vez como meditação do tempo litúrgico da Quaresma e da Páscoa. Penso que a Igreja deva dar graças a Deus por este livro histórico, por esta obra que é ponto de ligação entre duas épocas, que inaugura uma nova era da exegese teológica. Este livro terá um efeito libertador para estimular o amor à Sagrada Escritura, para encorajar a lectio divina e para ajudar os sacerdotes a pregar a Palavra de Deus.

No final deste rápido voo por uma obra que aproxima o leitor do verdadeiro rosto de Deus em Jesus Cristo, só me resta agradecer: obrigado, Santo Padre! Contudo permiti que eu acrescente mais uma última palavra, uma pergunta, porque um semelhante serviço prestado à Igreja e ao mundo nas circunstâncias que se conhecem e com os condicionamentos que se podem intuir, merece muito mais que uma palavra ou um gesto de gratidão. O Santo Padre segura a mão de Jesus sobre as ondas agitadas e estende-nos a outra para que juntos sejamos um com Ele. Quem pegará nesta mão estendida que nos transmite as palavras da Vida eterna?

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11 de Dezembro de 2019

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