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​Teologia do humorismo

· Felizes os que sabem rir de si mesmos, porque nunca deixarão de se divertir ·

Será que Cristo tem senso de humor? É possível encontrar vestígios do seu sorriso nos Evangelhos? Vejamo-lo, por exemplo, no episódio de Maria e de Marta. Enquanto a sua irmã Maria esta sentada, atenta, aos pés de Jesus, Marta agita-se para servir e pôr em ordem a casa. Jesus diz-lhe: «Marta, Marta, estás agitada». Portanto, Ele observou uma Marta agitada, aliás distraída; não a repreende, não a julga, mas chama a sua atenção. E podemos imaginar que o faz com um sorriso, com indulgência e compaixão, tudo eivado com uma certa dose de ironia.

Da mesma forma, no episódio muito mais dramático da mulher adúltera, não há porventura, por sua vez, uma espécie de humorismo quando diz: «Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra»? Uma frase que faz recordar à pessoa quem é, sem a condenar, mas apontando precisamente para o alvo certo, se assim se pode dizer.

 He Qui, «Marta e Maria»

Os Padres do deserto são conhecidos pelas suas palavras aliciantes, cheias de humor e ensinamentos. A sua visão da realidade da vida está de certa forma «descentralizada» em comparação com a visão dos discípulos. O seu olhar e o seu discernimento deixam «o mundo» para ver e julgar de acordo com a «salvação». Este direito de se distanciar cria um desacerto com o que se considera normal. A partir desta diferença surge o humorismo. Assim, praticam duas coisas: por um lado, o humorismo como arte de se distanciar do mundo para se concentrar melhor no essencial e, por outro, uma forma de desvario ou de desvio diante da irrupção da graça na esfera humana. Portanto, o comportamento «louco» do homem de Deus é o sinal de que todas as regras, inclusive as religiosas, não estão à altura perante a salvação de Deus. A salvação cria uma diferença. Essa diferença é o espaço para uma palavra, um olhar, um gesto plenamente espirituais. Eis uma célebre história que explica tudo isto.

«Uma vez um irmão pecou em Cétia. Realizou-se um conselho, para o qual convocaram o padre Moisés. Mas este recusou-se a vir. Então o sacerdote mandou dizer-lhe: «Vem, porque todos estão à tua espera». Ele levantou-se e apareceu com um cesto cheio de buracos, que enchera de areia e trazia às costas. Os outros, vindo ao seu encontro, perguntaram-lhe: “O que é isso, padre?” O velho respondeu: “Os meus pecados escoam atrás de mim e eu venho aqui hoje para julgar os pecados de outrem?” Ouvindo isto, nada disseram ao irmão, mas perdoaram-no».

Na origem do humorismo cristão está a confiança em Deus misericordioso cujos caminhos e pensamentos são diferentes daqueles dos homens e para quem um princípio de verdade e caridade num coração humano é inestimável. A sua santidade convida a uma modéstia sábia diante dos limites humanos. Pois é nas pequenas coisas do dia-a-dia que - problemas de saúde, mal-entendidos, transtornos - o senso de humor gera uma dilatação do coração, uma espécie de expansão interna que acalma e abre os olhos do coração para o essencial. Esta confiança em Deus cria um clima de desanuviamento onde o sorriso pode nascer apesar de quaisquer sentimentos de vergonha e culpa.

São Filipe de Néri, o santo do humorismo e da amenidade, é um exemplo famoso. O seu constante bom humor torna-o próximo de todos, não o isola, aliás ele sabe, na profundidade do seu ser, que estamos todos sujeitos às mesmas fraquezas. A sua vida é cheia de anedotas, de bom humor, de argúcias e ensinamentos. Ele costumava esconder por detrás das aparências tão humanas e simples, os favores místicos mais nobres. As suas brincadeiras tinham quase sempre uma finalidade específica: queria enganar as pessoas quando sentia que uma êxtase incumbia sobre ele. Quanto mais Deus estava presente, mais o homem nele permanecia simples. O traço de carácter que encantava os seus amigos e desarmava os seus inimigos era o seu ar festivo, uma espécie de alegria que acompanhava harmoniosamente a sua afabilidade. A sua palavra de ordem para entrar na vida espiritual era: «Sede humildes e humilhai-vos». E recomendava-se constantemente a Deus dizendo: «Senhor, não podes confiar em mim porque, a qualquer momento, eu posso trair-te».

Certo dia, uma respeitável romana confessou ter criticado e caluniado os seus vizinhos. São Filipe de Néri deu-lhe a seguinte penitência: tinha que voltar para a sua casa espalhando pelo caminho as penas de uma galinha que compraria no mercado. E caso tivesse voltado a falar mal, teria que se confessar imediatamente para tentar corrigir-se. A bondosa mulher pôs-se logo a caminho arrancando as penas do frango, mas na mesma noite, muito conscienciosamente, voltou a confessar-se porque tinha mexericado de novo. O santo perdoou-a, deu-lhe a absolvição e disse-lhe: «Como penitência, volta pelas ruas percorridas e pega nas penas da galinha, uma por uma». Nesta história engraçada e surpreendente, o humorismo afasta-se da realidade. Esse distanciar-se não é uma forma de defesa ou uma recusa a deixar-se dominar. Afastando-se, o humorismo suscita uma nova dimensão; faz surgir inesperadamente um ponto de vista original sobre o evento e deste modo provoca uma mudança de plano que permite ver o episódio de uma maneira diferente. Por outras palavras, a forma de pensar do mundo abre espaço ao ponto de vista da salvação.

S. Tomás More era conhecido pelo seu senso de humor. Era um traço do seu carácter e, ao mesmo tempo, um método: «Fui criticado por misturar piadas, anedotas e palavras engraçadas com temas mais sérios. Penso que se possa dizer a verdade rindo. Certamente, é mais adequado para o leigo, como eu, transmitir os seus pensamentos de modo alegre e animado, e não de forma séria e solene, como fazem os pregadores». O seu humorismo era expressão de uma alegria profunda alimentada pela fé. Enquanto subia ao patíbulo, pediu ao oficial que o levava, «no que diz respeito à descida, deixa que eu faça sozinho». Depois aconselhou ao algoz para apontar bem, porque o seu pescoço era um pouco curto, e ao colocar a cabeça sobre o tronco, pediu ainda brincando para preservar a barba crescida durante a sua prisão na torre de Londres: «Ela não atraiçoou, portanto não deve ser cortada».

O Papa Francisco, no seu discurso à Cúria proferido em Dezembro passado, fez o catálogo das doenças, e teve o cuidado de mencionar S. Tomás More. Disse: «Assim, não percamos aquele espírito jubiloso, bem-humorado e até auto-irónico, que faz de nós pessoas amáveis, mesmo nas situações difíceis. Quanto bem nos faz uma boa dose de são humorismo! Far-nos-á muito bem recitar frequentemente a oração de S. Tomás More».

Eis a oração: «Senhor, dai-me uma boa digestão e qualquer coisa também para digerir. Dai-me a saúde do corpo e o bom humor necessário para a manter. Dai-me, Senhor, uma alma simples que saiba aprender com tudo o que é bom e não se assuste à vista do mal, antes encontre sempre o modo de colocar cada coisa no seu lugar. Dai-me uma alma que não conheça o tédio, os resmungos, os suspiros, os lamentos, e não permitais que me preocupe excessivamente com esta coisa demasiado embaraçante que se chama “eu”. Dai-me, Senhor, o sentido do bom humor. Concedei-me a graça de compreender uma brincadeira para descobrir na vida um pouco de alegria e partilhá-la também com os outros».

S. Tomás More menciona aqui uma característica fundamental do bom humor: «não permitais que me preocupe excessivamente com esta coisa demasiado embaraçante que se chama “eu”». Na verdade, o humorismo requer um olhar aguçado e um bom conhecimento de si mesmo. Quem aplica esta forma de auto-ironia a si mesmo, ou aos outros, não é cego nem sobrecarregado com seu ego. O humorismo mantém a distância saudável e justa de nós mesmos. Ou seja, permite que vejamos os nossos defeitos e falhas e riamos deles, não de forma irónica ou desencantada, mas com amabilidade e ternura. Como faz o próprio Senhor quando olha para nós. Sem dúvida, como numa resposta de um filme de Dom Camilo.

Jesus: «Olha lá, olha quem está de volta: Dom Camilo! Então, não consegues falar?». Dom Camilo, «Senhor, quantas vezes te chamei nos últimos três anos e nunca me respondeste, mas agora, eis novamente a tua voz. Deus está mais próximo aqui do que em Roma». Jesus: «Dom Camilo, Deus está sempre na mesma altitude, ele parece mais próximo aqui porque tu estás mais perto de ti mesmo».

A este propósito os Padres do deserto teriam respondido: «Meu Deus, se estás em todos os lugares, como pode acontecer que eu esteja tão frequentemente algures?».

Catherine Aubin

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20 de Novembro de 2019

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